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Escrito por • 11/03/2010

书 在 桌子 上边。

trezentos e oitenta e quatro milhões de chineses já estavam na internet no fim de 2009. isso é cinquenta por cento a mais do que em 2008 e mais do que toda a população dos EUA. se você não achou impressionante, mais de 233 milhões de chineses já estão na web móvel. desnecessário dizer que isso é bem mais que um brasil de gente. mais: os chineses são nada menos que 1.33 bilhões e se espera que até o fim desta década eles sejam um bilhão na web, todos móveis. muita, muita gente.

o impacto de tanta gente na rede e nas redes sociais de lá [completamente diferentes das nossas…] poderá ser radical, não só nos hábitos de vida e consumo do país, mas na cultura e política, como discute este relatório da brookings institution.

um texto recente da mcKinsey dá o tamanho da importância da internet para os chineses, usando dados oficiais do governo de lá: nas 60 maiores cidades, 70% do tempo de lazer é gasto [ou investido, depende de como se vê] na internet; nas menores, o número cai para 50%. os chineses usam a rede muito mais para se divertir [jogar e se conectar] e comprar do que para trabalhar, talvez porque as práticas de trabalho na rede ainda não estejam estabelecidas no país. mas é bem possível que isso mude, também, muito rapidamente e, como tudo na china, em números estratosféricos.

falando nestes tamanhos todos, na inevitabilidade de uma boa parte da internet ser chinesa e em mandarim, língua que poucos de nós entende e que nos separa de uma riqueza cultural online volumosa e inestimável, talvez esteja na hora de muito mais gente aprender a língua corrente da web chinesa… e ser capaz [eu não sou…] de entender de primeira o título deste texto, literalmente “o livro está sobre a mesa”, o velho “the book is on the table” das primeiras aulas dos cursos de inglês que frequentamos no passado.

pra quem está começando agora, melhor aprender mandarim mesmo. aliás, era isso que perguntava um artigo que escrevi para a agência estado e jornal da tarde na última semana de 1999… e que está copiado a seguir. lendo, você vai ver que a china está driblando razoavelmente bem, até agora, muitos dos obstáculos que se percebia, lá atrás, para o crescimento da sua população da internet e, principalmente, sobre os impactos de tal fenômeno na política. leia, pense e se matricule num curso intensivo de mandarim…

Lá vem a China… melhor aprender mandarim?

Análises variadas, usando 1999 como base, mostram que a Internet teria 108 milhões de usuários. Tais contas, feitas por grupos ocidentais, normalmente americanos, têm um viés decididamente paroquial e a China não está, a sério, em nenhuma delas. E a maior efervescência da rede, no mundo, hoje, talvez esteja exatamente no país dos mandarins.

A China tinha 200.000 usuários em 1997, pulou para 5 milhões em 1999 e passará dos 7 milhões em 2000. Dados da BDA, um instituto chinês de pesquisa de mercado. Sina.com, o maior provedor chinês, com um milhão de usuários, registra 4.000 novos usuários por dia e diz que chega aos 8 milhões em um ano. Verdade que cobre mais do que a China, mas é “para” chineses.

Em 2003, a BDA prevê 35 milhões de contas nos provedores chineses, com quatro a cinco usuários por conta, ou 140 milhões de chineses on-line. Se acreditamos em 108 milhões on-line, hoje, a China vai criar uma Internet e meia em 4 anos…

As famílias chinesas acreditam que Internet é bom para a educação e estão dispostas a pagar por ela, de acordo com a tradição dos pais investirem pesado nos filhos. Estes, por sua vez, se dedicam de forma maníaca à sua formação, como forma de remunerar o investimento da família. O crescimento do poder aquisitivo chinês deve levar a um crescimento gigantesco do mercado informática, como sair de 200 mil para 140 milhões on-line em sete anos.

Mas a China está imprensada entre futuros e passados. A Internet e partes do país vivendo numa economia de mercado são futuro. O governo fechado, autocrático, ditatorial, pertence ao passado, exceto para quem acredita em grandes timoneiros e líderes geniais. Quem condena membros de seitas religiosas, como a Falun Gong, a longas penas de prisão, como forma de desestimular linhas de pensamento que não sejam ditadas por Beijing, está inseguro.

Aí é que está o busílis: como poderá um governo centralizador, querendo controlar até meditação dos seus governados, conviver com uma economia aberta, com centenas de milhões de pessoas na rede? Talvez seja impossível. A Internet é para informação e conhecimento o que poder aquisitivo é para o mercado. Não faz sentido trabalhar e ser remunerado se não houver alternativas e liberdade para comprar. Da mesma forma que a rede não faz sentido se só podemos ver o que querem nos mostrar.

Na China, o governo decide, hoje, quem pode ir para as regiões onde a economia é mais ou menos livre e parece acreditar que vai fazer isso ad aeternum. Não conseguirá, pois a pressão social já se faz notar, mesmo sem a maioria do país ter resolvido ir para a economia de mercado. A panela de pressão vai pipocar alguma hora e resta ver como Beijing vai bater em retirada. Vamos esperar que não seja como Moscou, porque aí a confusão poderá chegar até aqui.

A Internet, por outro lado, significa que cada um pode ser um editor e que todos têm meios para construir o pensamento coletivo da sociedade. A rede é o meio para o governo perder o controle do que a sociedade pensa, lê, escreve e faz. E nela, muito mais do que nos outros meios de comunicação, não há liberdade relativa. Ou tudo, ou nada. Obedecendo um conjunto mínimo de regras de conduta ética e moral, todo o resto está liberado, talvez para sempre.

Mas na China a rede entra no país por roteadores controlados pelo governo, que barra sites “ofensivos” à sociedade chinesa, na opinião dos censores. Aqui, na ditadura, decidiram que a imprensa não podia falar de Dom Hélder Câmara, nem a favor nem contra. O Arcebispo de Olinda e Recife, por muito tempo, sumiu do mapa. Mas dá para imaginar o Comitê Gestor barrando um site, por mais maluco que seja, de fora para dentro do Brasil? Como na China?

Pois o governo, lá, ainda controla alguns milhões de usuários da rede, uns 1% da população. Mas suportaria o tranco de 15% do país, on-line? Se tudo correr bem, saberemos a resposta até 2005. Aí, quando a China entrar mesmo na rede, vai chegar como maior acionista e o balanço de forças vai mudar. Melhor aprender mandarim?

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0 Responses to 书 在 桌子 上边。

  1. fernando disse:

    A considerar:
    A grande massa na china ainda vive na meséria assistida, lá se distribui pobresa tentando erradicar a miséria. Pelo menos 50% da população não terar condições econômicas de uso da rede.
    Portanto a curva de incremento de usuários, como em qualquer lugar, mas principalmente com países com problemas de distribuição de renda, é assintótica no eixo dos x após um pico de crescimento.

  2. Gustavo Lima disse:

    A China é uma país que possui um poder crescimento e retomada econômica que nenhum outra país do mundo possui, nesse momento. Ele se dar ao luxo de dizer não a tudo e a todos que lhe convém, mas ele pode fazer isso já que possui uma coisa que todos os outros países desejam: o seu dinheiro, muito dinheiro.
    Veremos nos próximos dias uma briga de cachorro grande, de um lado a China, com todo o seu poder e dinheiro e do outro lado, o Google, com todo o seu dinheiro e poder graças a Internet. Mas parece que até agora a China está na vantagem.
    Falo um pouco disso no http://blog.corujadeti.com.br/?p=1191

  3. Pedro Daltro disse:

    谢谢你,教授

  4. IN Hsieh disse:

    Ola, Professor. O potencial dos setores online e mobile da China é um dos assuntos mais recorrentes no meu blog ArquivoChina.com (um pouco inativo). Por lá, a riqueza cultura e a criatividade brasileira certamente são um nicho do nicho, mas num mercado daquele tamanho, pode ser bastante significativo.

    . http://arquivochina.wordpress.com/category/tecnologia-telecom-e-internet/

    Sobre a questão do aprendizado do Mandarim, estamos disperdiçando recursos muito bons…
    . http://arquivochina.wordpress.com/2006/09/01/brasil-sofrera-com-falta-de-fluentes-em-mandarim/