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Escrito por • 06/04/2004

A arte de transformar sonhos em realidade

Os grandes sonhos duram mais que vidas inteiras. De muita gente. Sonhos como sonhos de país. De futuro, de longo prazo, muito maiores do que as vidas dos que se acham, hoje, atores principais das peças que a vida lhes prega. Sonhos, de comunidades, são histórias, de vitórias a comemorar e de derrotas a servir de ensinamento. Quando servem. Felizes dos derrotados que aprendem com suas retiradas e feridas. Nem todos… na verdade, muito poucos conseguem. E os sonhos coletivos, destes que viram realidades, que poderíamos chamar de histórias, são escritos, em versões definitivas, não pelos seus agentes, mas pelos resultados que seus atos, acertos, omissões, falhas, simpatias, erros, descuidos…, no passado e no presente, tiverem nos possíveis futuros que estão, hoje, começando a ser escritos. Coitados dos que acham ter a visão de mundo (dos outros) sob controle. Nunca funcionou. Nem nunca vai. O máximo que podemos dizer dos nossos sonhos é contar que sonhamos, e como sonhamos, e que parte destes sonhos, às vezes delírios, achamos que estão se tornando, pouco a pouco, realidade.

Não se sonha sonhos só. Sonhos são parte da nossa (in)consciência. Se a consciência é a síntese espaço-temporal das nossas experiências subjetivas, nossos sonhos certamente são parte dela. E nossa consciência não é “nossa”, nem são só nossos os “nossos” sonhos. Homens e mulheres contam histórias, fazem planos. Projetos, planos, idéias, às vezes só visões, abstratas – sonhos, mesmo -, que se transformam, se houver muita dedicação, paciência, energia, alguns parcos recursos e muita coragem pessoal, de muita gente, em realidade. Realidades não são só “sonhos” concretos. Parte da vida real é de pesadelos e personagens saídos dos lados mais negros dos sonhos que, mesmo nos nossos melhores dias, tivemos. A sós ou em conjunto. A experiência de lidar com o lado adverso da força faz parte da vida real, assim como da nossa (in)consciência. E está lá, dizem as lendas, para nos ajudar: o mal, vez por outra, trabalha pro bem. O mal é, simplesmente, um bem que se perdeu. Degenerou.

Sonhos não têm líderes. Têm, às vezes, arquitetos do imaginário, (ir)responsáveis a criar possibilidades que podem, ou não, incendiar a imaginação de outros construtores de imaginários, e fazer-lhes dedicar anos, às vezes décadas, de suas vidas, a possíveis futuros. Os sonhadores, em coletivo, podem tornar possíveis as mais delirantes e improváveis imaginações. Nada resiste ao trabalho – e à persistente paciência – dos sonhadores. Nada. Mesmo que eles desapareçam; como todos os humanos, finitos, somem algum dia, mas seu sonho fica. Apropriado por quem um dia, também, sonhou que podia. Fazer, até porque não sabia que era impossível. Pequenos conjuntos de atores, periféricos às vezes, mas dedicados a causas nas quais acreditam piamente, causas-sonho, são os motores das mudanças do mundo. Até porque, ingênuos e inocentes, na maioria das vezes, não sabiam, quando o sonho estava desembarcando de suas consciências, que era impossível fazer. Às vezes, era impossível começar. Sem saber, começaram e tentaram tanto, com tanto afinco, que chegaram lá. Em algum lugar.

Porque nunca se chega exatamente onde se estava indo. Mesmo que seja uma cidade, com seus milanos de idade, ela e seu povo, e seus sonhos, mudam a cada pequena efeméride. Entre duas idas nossas, em pouco tempo, às vezes mudou tanto que não há, lá, mais lugar pros nossos sonhos. Às vezes, no pior caso, porque o povo do lugar deixou de sonhar. Noutras, porque nós caímos nas armadilhas do dia a dia, das exigências burocráticas da vida, e morremos. Estamos vivos, mas sem sonhos. E sem sonhos, sem futuro. Ou sem destino. E quando se está sem destino, não se tem alma. Ou então ela se esconde, de nós, para não perder tempo viajando para lugar nenhum. As almas sabem o que fazem. As almas estão nos nossos sonhos, naqueles construídos com muito mais gente, dentro e fora das nossas vidas, que aprendem a interpretar os possíveis futuros conosco. As almas e os sonhos são conspirações. Conspirações de futuros, de possibilidades, de gentes interligadas, que crêem, que nunca desistem.

Medir sonhos em tempo de décadas é pouco. Mas neste ano, e hoje, um sonho começa a fazer três décadas. Ainda não é uma vida e pouco se sabe sobre o futuro que o espera, por ainda tão jovem. Hoje, 13/12/2004, começamos a comemorar os trinta anos do Centro de Informática da UFPE, na verdade as três primeiras décadas de ensino e pesquisa em informática na UFPE, em Recife, um sonho que começou – por incrível que pareça, pois tão recente – há tanto tempo que nenhum dos sonhadores originais está no Centro, hoje. Estão em nós, que estamos, que somos sonhos como os sonhos deles. Eles sonharam, na verdade, trabalhar. Trabalho que deveria criar as condições para que Recife fizesse parte do mapa – pelo menos – nacional de informática. E não trabalharam pouco nem tiveram poucos desafios. Testemunho de seu trabalho é, também, as boas-vontades criadas em tantos cantos, que resultaram em um sonho que se transforma, dia após noite e dia, em realidade. Sonho que se ama, como se ama a vida, mesmo na morte. Que não deveríamos temer, nem a nossa nem a de nossos sonhos, como pouco dela fazia Manuelzão, das Veredas de Guimarães: “Não tenho medo da morte porque sei que vou morrer. Tenho medo é de amor falso que mata sem Deus querer.” Os sonhos são mortos por amores falsos. Quem são? Ninguém sabe, nem eles mesmos, só os sonhos sabem… e só saberemos depois, quando o tempo nos disser. Melhor, pois, pra cuidar dos sonhos, não deixar morrer o menino que mora no coração dos homens (e a menina das mulheres), quase sempre ferido de morte por ilusões e amores falsos…

Os sonhos, como o Centro de Informática, são lugares, também. Lugares reais e imaginários, ao mesmo tempo, concretos e virtuais, lugares que quase só vivem nos poetas. Mais importantes que os lugares de onde a gente vem vindo, ou onde a gente nasce, são os lugares que nascem no coração da gente. Quando os meninos ainda estão vivos, quando ainda pensam no futuro, quando ainda arriscam, quando ainda sonham com a garota da janela, seu sorriso, seus futuros, a terra do coração é fértil, brota sonhos em realidades. Realidades que crescem. Rápido, às vezes em trinta anos, ficam do tamanho do Brasil, são nacionais. Difícil, para os sonhos enquanto se tornam grandes realidades, é manter suas caras de sonho. Às vezes, viram só sono. Não aqui, ainda. Ainda sonhamos, ainda temos um estoque de riscos que nem tocamos, outro de futuros que nos esperam, um de caminhos que não tentamos, várias coleções de problemas que ainda nem pensamos em resolver. No topo de trinta anos de realizações, é certo que ainda temos uns trezentos anos de tentações e tentativas. E muito mais que trinta copos de chopp para comemorá-los.

Comemoramos realidades. Como hoje. Mas, movidos a sonhos, ainda estamos aprendendo a traduzi-los, talvez sem ter entendido o manual dos poetas, para tal. Gullar, um dia, dizia: “Uma parte de mim pesa, pondera: outra parte delira. Uma parte de mim é permanente: outra parte se sabe de repente… Traduzir-se uma parte na outra parte – que é uma questão de vida ou morte – será arte?” É arte sim. Arte de viver. De saber viver. Viver sonhos, como devem ter vivido, no começo, os que montaram o Centro de Informática que começa, agora, a fazer trint’anos. E como – viver sonhos – deveríamos todos, que estão aqui, nós que teremos que sonhar os próximos trinta.

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Este texto foi escrito para as comemorações dos 30 anos do Centro de Informática da UFPE, em meados de 2004, há 15 anos, pois. Nas páginas da época, Clylton Fernandes está sério e compenetrado no seu gabinete de Diretor do NPD na década de 70 [eu tive a honra de trabalhar com ele, lá!] e eu mesmo e Paulo Cunha estamos de fantasia dos Diabéticos e Anjoadas no Galo da Madrugada. Não lembro porque ou quem decidiu que as fotos seriam essas… mas achei massa.

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