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Escrito por • 04/11/2013

a privacidade, como norma, de volta?

Durante 2 anos, 20 jornalistas do washington post trabalharam dia e noite pra revelar a rede de espionagem do governo americano. em 2010, descobriram 45 organizações governamentais, 1.271 unidades distintas e 1.931 empresas que trabalhavam para o esquema. de lá pra cá, se foram 3 anos e pode-se dizer, quase sem sombra de dúvida, que a coisa deve ter ficado ainda mais enrolada. o que quer dizer muito: uma das coisas que o post descobriu, lá em 2010,  é que o governo americano, através de operações em conjunto com outros países, tem uma rede de black sites, prisões informais, espalhadas pelo mundo, usadas pela CIA, pagas e operadas por ela, com a gentil cooperação de muitos países. do ponto de vista de infringir toda e qualquer norma internacional, isso é mais ou menos grave do que a captura dos dados digitais de meio mundo?…

o pequeno texto de hoje não é para voltar a 2010 e começar uma investigação ou debate sobre as políticas e práticas anti-terrorismo dos EUA a partir de lá. mas pra fazer uma pergunta: por que, tendo uma longa investigação de um dos maiores e mais respeitados jornais do planeta expondo o sistema de espionagem dos EUA e suas ações globais, há 3 anos… foi somente após as denúncias de snowden que o mundo entendeu a real escala e efeitos do que está acontecendo há tanto tempo?

não há uma resposta única ou simples. mas que tal esta? edward snowden, ao sair do sistema e revelá-lo [numa pequena parte de sua extensão e complexidade, e só aquela à qual teve acesso, às vezes indireto] se tornou um personagem da trama toda, criou a face humana do sistema, saindo de um cubículo de trabalho em algum prédio obscuro num lugar qualquer e abandonando tudo, emprego, amigos, namorada e família, para um futuro incerto ou, quem sabe, certo: para parte dos atores globais, um herói; para outros tantos, um traidor. como mata hari. mas, como vivemos em tempos de abundância de informação, a alemanha de snowden é o mundo todo. incluindo os EUA.

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o affair snowden vai levar anos [décadas?…] pra ser esclarecido e absorvido pelos países e instituições internacionais. já e a causa e causará ainda mais mudanças nas redes internacionais; seu impacto de longo prazo talvez seja muito maior do que as desconfianças e evidências que jornais, revistas, outras agências de espionagem e infinitos grupos políticos, científicos e de interesse causariam no mesmo contexto.

porque o affair snowden trouxe privacidade, como norma, de volta a pauta social ampla. uma coisa era mark zuckerberg dizer, em 2010, que ninguém devia mais se sentir no direito de ter privacidade um mundo conectado em redes sociais. desejo dele, talvez, motivado por interesses de sua rede social? talvez. outra coisa, e bem diferente, é um governo que sempre promoveu direitos individuais como a norma das democracias modernas, a ser seguida por todos, em todo lugar, invadir a vida de todo mundo, em todo canto. se havia a impressão, pelo menos, que a invasão de privacidade via faceBook poderia ser contida pela lei… o que fazer quando agentes da suposta lei [ou do estado, no caso de quem está no brasil, de um outro estado] é quem está por trás da bisbilhotagem digital? uma coisa é meus dados serem usados nas redes sociais para fazer conexões que eu não queira que sejam feitas, mas que podem ser feitas sem minha anuência; outra coisa é a subtração de dados privados, estes sim verdadeiramente meus, porque armazenados com a garantia de regras e leis do meu país. é esta diferença e separação [e agenda?] criada por snowden.

pra ler mais sobre o tema, passe na revista interesse nacional, onde há 4 artigos relacionados com este texto do blog; em particular, Estamos Sendo Observados: E Daí? [neste link] foi feito a partir de rascunhos aqui do blog e joaquim falcão é o autor de O Vazamento da Legitimidade [neste link], sobre as disputas judiciais, no mundo todo, em função do affair snowden. que não dá sinais de arrefecer, por enquanto, e tomara que continue quente até a discussão sobre privacidade voltar à pauta legislativa, executiva e judicial e, no meio deste rolo todo, sairmos, todos e cada um, com um pouco mais de garantias efetivas do que achávamos que era o caso antes desta coisa toda começar.

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