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Escrito por • 16/03/2012

a próxima máquina de busca

paul graham  não nasceu ontem. nem está no negócio de financiar novos negócios inovadores de crescimento empreendedor há pouco tempo. paul é "o" cara do Y combinator, um dos aceleradores de empresas mais famosos e mais bem sucedidos do mundo. mais de 380 startups passaram por ele desde 2005, incluindo dropbox, reddit, disqus e airBnB. não é coisa pouca. graham vê milhares propostas de começar negócios inovadores por ano. e tem coisas que ele não vê de jeito nenhum. resultado? uma lista de negócios bilionários esperando alguém para fazê-los agora. isso, agora.

a primeira oportunidade é uma "nova" empresa de busca. o que já dá a altura do que graham procura. e não é por menos, já que estamos falando de negócios de bilhões, e não daquela milésima cópia de groupon que mais um startup brasileiro está tentando reinventar. pois bem. graham diz que google já foi "a" companhia, genial, inovadora, minimalista, mas que faz tempo que a empresa se perdeu, porque resolveu competir com faceBook, num negócio do qual não entende nada, que não faz parte de sua alma corporativa.

aliás, esta é uma das razões pela qual jim whittaker saiu de lá dizendo, no blog dele, que…

The Google I was passionate about was a technology company that empowered its employees to innovate. The Google I left was an advertising company with a single corporate-mandated focus.

…o google onde ele foi trabalhar era uma companhia de tecnologia que empoderava seus colaboradores para inovar; o que ele deixa é um negócio de anúncios com um único foco corporativo.

graham tem uma receita: faça sua própria máquina de busca. se você e os 10.000 melhores hackers do mundo quiserem usar esta nova máquina e não google, você está no caminho certo para um IPO de sucesso, levando pelo menos alguns bilhões para seu bolso. claro que é difícil de fazer melhor do que google e há problemas de grande monta: algoritmos, complexidade, infraestrutura, o diabo. mas uma coisa é certa: quando [e não se!…] alguém fizer melhor do que google, vai se dar muito bem.

quem já tentou fazer?… entre os pequenos, dignos de nota, wolframalpha e blekko, mas nenhum dos dois sequer arranhou o prestígio ou receita de google. entre os grandes, bing, da microsoft, que, digamos, tem um longo caminho a percorrer. e tem baidu, um clone chinês de google, muito bem sucedido por lá, mas que não dá para contar numa lista de novas empresas de busca.

o blog resolveu perguntar, a quem entende do assunto, o seguinte: qual a possibilidade de uma destas próximas máquinas de busca vir do brasil, de três pontos de vista 1. científico, 2. tecnológico e 3. de empreendedorismo e investimento?

quem responde é o prof. nívio ziviani, respeitado pesquisador brasileiro da área de tratamento de informação, empreendedor serial [fundador da akwan, de belo horizonte, comprada por google] e com décadas de experiência em ciência, tecnologia, negócios e brasil:

Para entender o tamanho do problema de construir uma máquina de busca competitiva é importante conhecer as diversas gerações desde o surgimento da web por volta de 1993, a saber:

(1) Para responder uma consulta, a primeira geração ordenava os documentos recuperados considerando apenas dados estatísticos (frequência das palavras da consulta em cada documento e número de documentos em que cada palavra ocorre) e o principal representante dessa geração era o AltaVista.

(2) A segunda geração passou a considerar, além de dados estatísticos, as ligações entre os documentos (hyperlinks), e o principal representante dessa geração é o Google.

(3) Na terceira geração, o comportamento do usuário passa a ser considerado por meio da análise de clicks, isto é, os clicks realizados pelos usuários refletem preferências por respostas específicas no contexto de uma determinada consulta.

(4) A quarta geração (a contemporânea) introduz contexto (por exemplo georeferenciamento) e conhecimento especializado (uma consulta sobre um artigo técnico localiza o arquivo PDF relacionado, uma consulta geográfica mostra um mapa, uma consulta sobre voos retorna uma tabela, uma consulta sobre a Receita Federal retorna links para download, etc.).

Uma máquina de busca de quarta geração utiliza centenas de fontes de evidência para retornar uma resposta para um usuário. Em suma, o desenvolvimento de uma máquina de busca competitiva tem um custo absurdamente alto.

O desenvolvimento de uma nova máquina de busca significa competir com Google. A Microsoft tem tentado, talvez por medo do crescimento de Google. Bing teve um custo inicial de desenvolvimento de cerca de US$2 bilhões, e envolve muitos engenheiros altamente especializados. Pior do que isso, Google está impondo uma agenda para a Microsoft em um negócio em que ela não é competente.

Qual é a possibilidade de uma das próximas máquinas de busca que venham a surgir vir do Brasil? Para responder vou falar das condições necessárias para que isso tenha alguma chance de acontecer, a saber:

1. Estímulo governamental através de incentivos. Necessidade de capital a custo zero, como existe nos Estados Unidos. Não resolve investir poucas centenas de milhares de dólares em uma startup, tem que ser algo da ordem de US$10 milhões para que a startup possa usar US$2 milhões por ano em 5 anos para pensar a empresa com folga.

2. Existência de centros de excelência. É necessário ter centos de pós-graduação e pesquisa de grande porte e classe mundial, muito bem financiados, para criar densidade de pessoal qualificado.

3. Existência de pessoas que entendam de formas de monetizar uma tecnologia, como derivar produtos de uma boa tecnologia, como vender produtos inovadores, experiência de uso na web, aspectos legais
de tecnologias da informação e negócios nelas baseados, entre muitos outras competências.

Também é importante entender que empreendimentos que ficaram gigantes (por exemplo, Apple, Google, Facebook) nasceram como startups. No nosso país existem partes dos condicionantes discutidos. Em outras palavras, para que aconteça algo do tipo no Brasil é preciso entender que pequenas iniciativas de qualidade precisam de injeção de recursos para poder prosperar e crescer para tamanhos maiores.

pense num problema. e google, por sinal, não morreu. reportagem longa e recente no WSJ [comentada em detalhe neste link] diz que brin e page devem lançar em breve uma máquina de busca de quinta geração, capaz de fazer tratamento semântico de informação de busca e resultado de forma muito mais sofisticada do que se faz hoje e capaz de produzir respostas mais diretas e precisas às perguntas dos usuários. e, como seria de se esperar, aumentar ainda mais o acoplamento busca-resultado-anúncio, que é onde a empresa ganha o pão de cada dia.

se rolar, se não for hype, a barreira de entrada neste nicho da economia da rede ficará ainda mais alta. e os resultados de um sucesso potencial ainda maiores. junte sua turma e comece a trabalhar, seu bilhão lhe espera…

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0 Responses to a próxima máquina de busca

  1. Tassio Vale disse:

    É impressionante como a inovação é voraz. Há algum tempo atrás, grande parte das startups sequer pensavam em inovar no ramo das máquinas de busca, mas a oportunidade está aí.

    Confesso que se não tivesse lido esse post, ainda estaria pensando da mesma forma.

    A pergunta é: as startups de hoje ainda se preocupam demasiadamente na barreira de entrada que elas possam enfrentar?

  2. Guto disse:

    o incentivo as startups no Brasil ainda é muito pequeno, idéias e empreendedorismo não falta, o Brasil poderá ter um representante tecnológico de ponta, mais por oportunidade do que por excelência acadêmica.

  3. Joao Pedro disse:

    O desafio da inovacao esbarra em duas coisas: a quantidade que eh de fato empreendedora/inovadora (vulgo se demitem e fazem o que da na telha) e a quantidade de pessoas que tem vontade de inovar mas nao tempo (nunca irao se demitir).

    P.S. Meu nome nao eh Joao Pedro.

  4. Alexandre Nunes disse:

    E o Radix? Vamos tira-lo do armario?

  5. Bruno disse:

    Talvez devessem procurar no próprio CIn por pessoas desenvolvendo a próxima geração de engenhos de busca 🙂

  6. os melhores resultados vem por indicacao = alguem indica pra voce = crowd search. corta TODOS os outros 2.343.545 resultados, deixa só os 20 primeiros, afinal quem vai além da primeira página do google?

  7. Alexandre disse:

    A próxima máquina de busca já está sendo construída, o Furfle.

  8. Professor e Aprendiz,

    Vi sua entrevista com Roberto D’Ávila. Concordo inteiramente com a boa inversão das atribuições em relação à Educação Necessária aos Brasileiros, como parece defender também o Senador Cristovam Buarque.

    O ensino fundamental (antigo primário e ginásio), hoje básico, seria FEDERALIZADO com currículo atualizado, incluindo as TIC, ética, direitos de consumidor, cidadão, alimentação saudável, cooperativismo, associativismo, educação no trânsito, sustentabilidade, coleta seletiva, meio ambiente, filosofia etc, com professores contratados, capacitados, avaliados e pagos pela União.

    O médio pelos governos estaduais, inclusive ensino profissionalizante.

    O superior a cargo dos municípios. A atual estrutura hoje federal seria repassada, em uma transição bem planejada e administrada, para as prefeituras das capitais e cidades de médio e grande porte. Hoje tem Instituto Federal em cidades como Camocim e Acaraú, no Ceará. Esses municípios passariam a responder pelo ensino superior voltado prioritariamente para as vocações e potencialidades econômicas e sociais da região, considerando as respectivas realidades.

    Como começar esse movimento de discussão séria e objetiva de uma PROPOSTA a respeito desse novo tripé?

    Na Lei da Ficha Limpa, de iniciativa popular, o Juiz Marlon Reis deu o primeiro passo, depois as igrejas e a OAB encamparam a ideia.

    E na educação, como e quando vamos começar?

    Parabéns pela lucidez e cidadania, conterrâneo nordestino,

    abraço,

    EDIVAN BATISTA CARVALHO
    Fortaleza-CE
    85-3055-1663
    85-9935-7364

  9. Aguardo respostas, críticas e sugestões, do Professor e seus leitores, para o email:

    edivanbatista@yahoo.com.br

  10. Marcelio Leal disse:

    Achei perfeita a colocação do professor, mas acredito que competir com o google pode ser viável desde de que se foque em um nincho.

    Acredito por exemplo, que o google academic ainda é muito ruim. Quem faz pesquisa sabe que poderiamos ter algo mais centralizado e melhor pra isso.

    Acredito que buscas em nincho, como pessoas, como negócios, como outros aspectos possam ser desenvolvidas de forma melhor e com um outro foco. É óbvio que vai depender de outros aspectos que não a web pura, mas também não acredito em web semântica.

    Hoje já temos startus com grandes massa de dados, acho que essa inteligência em parceria pode ser benéfica, como behavior targeting já vem sendo utilizado de forma eficiente.

    Acredito que o problema é tentar concorrer com o google, nós temos que tentar fazer algo melhor, talvez menor, mas melhor e diferente.

  11. Acho muito difícil surgir algo mais “competente” que o Google, e me baseio em vários aspectos, pois o Google atira para todos os lados, o seu sistema de busca está “linkado” com vídeos, imagens, geolocalização, notícias, documentos, etc… Sendo específicos ou não, está tudo amarrado ao Google e fico pensando se de uma hora pra outra não existir mais Google ou pior, ficar sempre dependendo do Google pra alguma coisa na internet… Eu acho, que só se mudar de uma hora pra outra, as tecnologias existentes hoje em dia é que poderiam surgir alguma novidade mais impactante… Não me certifiquei das possibilidades, mas e se cada pessoa pudesse ter em sua máquina seus próprios servidores de Web, e-mail, etc, que ficassem disponíveis só quando a seu usuário estivesse on line, como por exemplo numa empresa em que o site dela ficasse on line somente em horário comercial (Obs: logicamente só com uma página de apresentação com a possibilidade ou não de oferecer algum tipo de serviço pra quem não possa nem pensar em perder clientes, então contrata algum data center de sua escolha para deixar on line)… Talvez isso esbarre nos custos e no conhecimento de cada um terá para por isso em prática.. Não sei se viajei na maionese, ou não soube me expressar bem, mas a minha ideia é tentar achar alguma maneira em que não se fique “tão na mão” do Google, como estamos hoje em dia, acho isso preocupante.

  12. e. s. disse:

    Faz sentido pensar a busca como plataforma?

    Um framework para buscas descentralizadas, com pods corporativos, pessoais, institucionais, governamentais, alguns monetizados, outros não, alguns síncronos, redundantes, outros não, alguns de nicho, outros de uso geral, alguns para imagens, outros para música, outros para receitas contendo jaboticaba.

    Já existem alternativas para a descentralização das redes sociais, como a diaspora. As redes P2P são tecnologia dominada. Iniciativas de social bookmarking já apresentam resultados interessantes.

    Um framework de buscas aberto, acoplável a qualquer fluxo de informação (do Facebook à biblioteca municipal à padaria da esquina ao telefone da vovó), pode ser mais viável que o próximo Google Search – e talvez mais barato.