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Escrito por • 09/02/2012

a transformação em rede

a data era janeiro de 2008 e o autor, jeff zucker, então CEO da NBC, um dos maiores conglomerados de mídia dos EUA. a frase, dita numa conferência de executivos de TV, era…

"Our challenge with all these ventures is to effectively monetize them so that we do not end up trading analog dollars for digital pennies,”

o grande desafio de todos estes novos negócios [de mídia, em rede] é monetizá-los de forma a não trocar dólares analógicos por centavos digitais. cinco dias antes de ser demitido, em 2010, zucker dizia que a situação tinha melhorado e que, ao invés de "pennies" [centavos], os negócios de mídia estavam em "dimes", a moedinha americana de dez centavos.

fora da mídia clássica, muitos lêem a frase como "a revolução das redes é o processo de transformação de dólares analógicos em centavos digitais". veja música, por exemplo. no mercado analógico americano, um álbum [já em CD, digital, mas não em rede..] custava US$15.99, em média. uma música, em rede, custa US$0.99, também em média. e pouca gente hoje, compra um álbum inteiro. e o negócio de música digital, em rede, cresceu 8% só no ano passado. e as assinaturas de serviços de música online cresceram mais de 60%. em música, o digital em rede já representa 32% do mercado global, segundo o digital music report 2012. ao se redesenhar, provendo mais acesso, mais barato, mais simples, o mercado analógico de música realmente caiu [primeiro] de dólares para centavos, está subindo para "dimes" por transação e os volumes começam a ser recuperados, lentamente, no mercado em rede.

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o gráfico acima mostra o gasto per capita em música, desde 1973. vinil teve seu pico em 1977 e sofreu o impacto do cassettte a partir daí e, na década de 1980, dos CDs. estes, digitais em conteúdo mas analógicos na forma, cresceram até o começo da internet, no fim da década de 90. sem modelos que incluíssem o consumidor digital, a indústria levou anos até começar a capturar algum valor a partir da rede mas, como dito acima, 32% de suas receitas já vêm de lá. pena que o gráfico só vai até 2009. mesmo assim, clique aqui para ver outros, muito legais, sobre a indústria de música até 2009 e veja aqui como se comportou o mercado americano em 2011.

mas música, aqui, é apenas um pretexto pra falar do que poderia se chamar "a maldição de zucker": que indústrias [ou mercados, produtos, serviços, tecnologias, modelos de negócio…] estão prontas para serem postas de cabeça pra baixo por uma transformação em rede, fazendo com que seus reais analógicos virem centavos digitais?…

a resposta abaixo é exploratória e merece reparos muitos. é apenas uma primeira tentativa de explicitar as principais razões que vão levar negócios que parecem bem estabelecidos a mudar –ou mesmo desaparecer- em pouco tempo. em alguns casos, uma das alternativas basta para afetar todo um mercado. noutros, mais de uma. em certos mercados, e possível que a mudança só ocorra se todas as [e mais…] razões estiverem presentes ao mesmo tempo [ou com o tempo]. leia, reflita, comente, mude. por trás das palavras-chave em negrito, abaixo, estão muitas das razões que vão levar a inovações radicais no futuro próximo, em quase todos os mercados.

um mercado está sujeito à maldição de zucker quando é possível promover novos níveis de virtualização graças a [novos] usos de [novas] tecnologias, métodos e processos digitais e de conectividade; quando há problemas de acesso e entrega [de produtos e serviços] que podem ser resolvidos em rede; quando é possível agregar mais informação e sua disseminação a produtos e serviços, criando as bases para que o ciclo SFO [S para “search”, buscar; F para “find”, encontrar e O para “obtain”, obter] funcione em rede; onde é possível digitalizar o mercado em rede, no todo ou parte, para que novos valores sejam gerados, transformados, agregados e capturados por produtores, intermediários e consumidores [estas são situações onde é possível, em rede, alterar ou influir no DNA do valor]; onde é possível redefinir o mercado em termos de redes e seus efeitos, reposicionando agentes nas cadeias de valor, de tal forma que a conectividade resultante promova muitos níveis de interação entre consumidores [fluxos P2P], facilitando transações diretas e criando comunidades capazes de [em tese] promover acesso universal aos produtos e serviços do mercado em consideração.

como foi dito, a resposta é exploratória e incompleta. mas, vai ver, alguém parte dela e escreve uma mais definitiva. tomara. enquanto isso, é a que eu vou usar para analisar alguns cenários que já mudaram e outros que acho que estão para mudar. nos primeiros, música e vídeo certamente passam pelo crivo. nos segundos, será que a definição se aplica, em larga escala, para os serviços financeiros e educacionais. qualquer dia a gente volta ao assunto, aqui. inté.

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0 Responses to a transformação em rede

  1. Ainda estou mastigando sua proposta!!
    Mas falando em música, um lado bom, é que os artistas não precisam mais “inventar” 12 músicas para rechear um álbum. Basta editar algumas poucas boas e pronto. Outra consequência já detectada é que os artistas de “classe mundial” (duvidosa, por isso entre aspas) tiveram que fazer mais shows em suas turnês para manter seu faturamento. E assim o Brasil foi incluído no mapa – nunca tantos artistas estiveram no Brasil como nos últimos cinco anos.

  2. bpe disse:

    o meu comentário singelo é que a combinação de conectividade [de conexões] + mobilidade + disponibilidade [de infraestrutura] + replicabilidade [de escala] traz um diferencial competitivo semelhante à pólvora para a economia dos dias de hoje.

    E da mesma forma que na antiguidade, os adeptos de facas e espadas estão tempo sufuciente preocupados em entender a mágica do que utilizá-la a seu favor. E os emprérios [empresas + impérios] que estão fazendo uso dela, varrem civilizações [economias] inteiras. Só que agora em velocidade digital.

  3. José disse:

    Escritórios de contabilidade, num futuro não muito distantes, vão sumir.

  4. Maurício Alves disse:

    Qual mesmo é o preço da música em rede? Para pessoas que pensam como eu, esse preço é 0 e vai continuar assim durante muito tempo. US$0.99 é o preço da ignorância, da estupidez e da sumissão a aberrações como o ACTA.

  5. José: vão sumir os escritórios de contabilidade, mas não a contabilidade? Ou também a contabilidade? não entendi

  6. Maurício Alves: se todos pagarem o preço 0 pelas músicas, quem vai bancar a produção destas músicas?

  7. José disse:

    Ricardo Mendes Jr, só os escritórios sumirão, porque as declarações de impostos e afins serão feitas automaticamente pelos sistemas informacionais e em rede.

  8. José Eduardo disse:

    Quanto a pergunta do Ricardo Mendes a resposta já está aí no mercado. Artistas Independentes produzindo músicas de forma cada vez mais simples (gravar e editar é MILHÕES de vezes mais fácil hoje em dia) e divulgando (EM REDE) trabalhos BETA que vão crescendo a medida em que o púlico aumenta.

    O retorno financeiro na GRANDE maioria das vezes vem apenas dos shows. É uma nova realidade, dá até pra reclamar (imagino as empresas de cigarro quando a propaganda em rádio e tv foram proibídas) mas acho que não tem mais volta.

    Assista essa palestra no TED: http://www.youtube.com/watch?v=7Q25-S7jzgs