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Escrito por • 11/09/2011

a vida: eterna? como?

a fonte da juventude tem muito mais cartaz do que o el dorado. o ouro do segundo, se existisse, só poderia ser gasto aqui e agora. nas condições atuais –e, ainda mais, quando o mito da cidade de ouro estava mais aceso, antes de google maps e GPS- todo o ouro do mundo não compraria a vida eterna. até porque a igreja católica saiu do mercado e igrejas mais recentes, que entraram atrasadas no negócio, não estão entregando o pago e prometido.

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pois bem. independentemente do contexto religioso, há razões outras para se pensar na vida eterna. uma delas é de puro e simples balanço energético: imagine o custo de se atingir a maturidade, ainda mais chegando lá unindo conhecimento e sabedoria. cada humano que desaparece leva, consigo, não só sua atividade e história pessoal; além de deixar um vazio na história dos que ficam, a morte de cada um de nós representa um imenso desperdício de energia.

se olhamos para seres humanos como consumidores de energia, que é acumulada na forma de realizações e conhecimento, cada um de nós consome, hoje, o equivalente a mais de 70 bilhões de joules por ano. em 80 anos de vida, seriam perto de 6 trilhões de joules. consumimos muito mais energia por ano do que um homem das cavernas o faria em toda sua vida.

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sim: e 6 trilhões de joules é o que, mesmo? pense gasolina: um litro tem cerca de 40 milhões de joules. se seu mundo fosse movido só a gasolina, consumiria o equivalente a 150.000 litros da coisa durante sua vida, pouco mais de 5 litros por dia. parece pouco? cinco carretas de trinta toneladas de combustível cada uma não é pouco; sempre que passar por uma, na rua, lembre-se que sua vida são cinco delas. hoje. e está aumentando 10% a.a.

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mas o que é que isso tem a ver com a vida eterna? se somos tão "caros", é bem capaz de haver razões, acima de nossa vontade pessoal de viver "para sempre", para preservar a energia consumida no processo de desenvolver um ser humano maduro e sábio.

assumindo que esta seja uma das razões por trás das respostas a uma pergunta feita pelo IEET [o instituto para ética e tecnologias emergentes], veja abaixo no que deu a pergunta "que expectativas você tem em relação à duração de sua própria vida?"…

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entre os que têm 35 anos ou mais, a maioria acha que vai morrer dentro da expectativa normal de vida de um ser humano. apenas 21% acha que pode viver por séculos a fio no seu corpo atual e 19% acredita que poderá ter sua mente "uploaded" para um computador algum dia. entre os que têm menos de 35 anos, as porcentagens são 32% [morrer "como um humano atual"], 36% [viver por séculos…] e 26% [fazer um "upload"].

este público não é "normal", para qualquer idade. são leitores do IEET, que se dedica a singularidade, trans-humanismo e similares. ou seja, gente que, a priori, acha que pode rolar [de uma forma ou de outra] uma vida eterna básica. deixando a pura e simples vida eterna [séculos a fio no mesmo corpo] pra lá, por enquanto, face à complexidade das implicações éticas e morais [por exemplo, qual o significado de "prisão perpétua" na "vida eterna"?…], que tal considerar "uploading" como forma de não perder [toda] a energia gasta pra chegar um certo ponto da vida? mas… que ponto? qualquer ponto: a priori, todas as mentes deveriam ser "uploaded"… e nenhuma delas poderia "se perder".

o conceito de "uploading" não é trivial e, de certo ponto de vista filosófico, é simplesmente impossível. mas, se for realizável, pode ter consequências não triviais para o futuro do que chamamos de humanidade. neste relatório de 130 páginas, nick bostrom e anders sandberg explicitam algumas das possibilidades…

Brain emulation is the logical endpoint of computational neuroscience’s
attempts to accurately model neurons and brain systems…

…emulação cerebral é uma consequência lógica das tentativas de modelar, de forma precisa, neurônios e sistemas neuronais;

Neuromorphic engineering based on partial results would be useful in a
number of applications such as pattern recognition, AI and brain‐computer interfaces…

…a engenharia resultante deste tipo de esforço de pesquisa seria muito útil em aplicações como reconhecimento de padrões, inteligência artificial e interfaces humano-computador;

The economic impact of copyable brains could be immense, and could have profound societal consequences…

…o impacto econômico [a economia de energia, por exemplo, entre muitos outros] poderia ser imenso, gerando profundas consequências sociais;

If emulation of particular brains is possible and affordable, and if concerns about individual identity can be met, such emulation would enable back‐up copies and “digital immortality”…

…se a emulação de cérebros específicos for possível, e se os problemas de identidade puderem ser resolvidos, seria possível fazer backups de mentes e, por isso, atingir uma "imortalidade digital"… e…

Brain emulation would itself be a test of many ideas in the philosophy of
mind and philosophy of identity, or provide a novel context for thinking
about such ideas…

a emulação de cérebros seria, ela própria, um teste para uma miríade de ideias das filosofias da mente e identidade ou, no mínimo, criaria um novo contexto para pensar sobre tais ideias.

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tecnologia é o domínio da possibilidade. se é possível ser feito, em qualquer área de expertise humana sobre métodos, técnicas e ferramentas, é feito. por alguém, algum dia, de alguma forma. a ciência, domínio da verdade, cuida dos "por quês" depois e irá, se der, descobrir as bases para o funcionamento do que está funcionando. quase tudo o que usamos de software, por exemplo, é assim. por fim, as humanidades irão teorizar sobre o uso das tecnologias e nós, enfim, entenderemos o que estamos usando há tanto tempo e quais são as consequências daquilo tudo.

a "pesquisa" do IEET mostra que há um mercado potencial de pessoas que almejam viver pra sempre, real ou digitalmente. do lado de cá, estamos entendendo, cada vez mais, do espaço físico, da vida e da mente. os dois últimos são, cada vez mais, codificados em termos de informação e conhecimento e, ainda mais, entendidos como software, dentro de um contexto em que "tudo é software". 

se for –e parece que é…- tudo será escrito de forma executável por máquina. e reescrito. evoluirá até que, alguma hora, uploading seja possível. se isso rolar, vamos ter descoberto, também, como fazer downloading… e, se tudo der certo, faremos download de partes de uma mente e não da coisa toda. tipo… aprender mandarin por downloading. pode nunca ser possível mas… pense nas consequências: e se for? quanta energia a gente economizaria?…

energia, energia: a vida depende, intrinsecamente, dela. tudo o que for possível para economizar [ou maximizar os resultados d]o uso de energia será feito. tomara que a as consequências, quando conseguirmos entendê-las, sejam administráveis. tomara.

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[PS: rafael evangelista acaba de publicar {10/09/2011} "Singularidade: de humanos feitos simples máquinas em rede", na revista ConCiência; leitura deste link tem tudo a ver com o texto discutido aqui].

 

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0 Responses to a vida: eterna? como?

  1. fernando disse:

    Acho que SE chegarmos a isso, as consequencias antropológicas serão muito mais radicais e impactantes que a energia. E se falamos em poupar energia, acho que ao contrario, continuaremos a gastar e novos seres virão(ou isso ja não será permitido?)

  2. Nigini Abilio disse:

    Não vou nem tentar entrar nas consequências sociais levantadas por Fernando acima. Fiquei me questionando se o fato de manter mais “mentes” em execução nestes novos ambiente, não iriam consumir a energia “economizada”?

    Estou perdendo algum ponto da ideia, ou temos duas realidades: viver para sempre significa manter uma mente funcional, auto-consciente e produtiva (o que exige consumo de energia); enquanto a economia de energia se daria num sistema de fragmentos de mentes dormente e armazenados para consumo dos ainda “em execução”?

  3. Economista disse:

    Imagine o custo financeiro pra viver a eternidade. O cidadão vai pagar em infinitas prestações, literalmente

  4. Henrique disse:

    Imagina como seria um terrorista querem baixar como fazer bombas e tal na sua mente? Ou seja, é um perigo este negócio de baixar coisas para a mente… 😉

  5. Guilherme Cavalcanti disse:

    Dessa vez tu me assustou de verdade amigo velho 🙂

  6. Anonymous disse:

    Muita gente já acreditou que a terra era o centro do universo.
    Muita gente já acreditou que era possível transformar elementos químicos em ouro. Não um átomo, via reação nuclear, mas caminhões de matéria sendo transformadas quimicamente em ouro…

    Muita gente já acreditou que viveríamos no espaço e até em Marte! Quando criança vi um homem tentar vender um terreno em Marte.
    Muita gente acredita em inteligência artificial!

    Em pleno século XXI ainda tem gente que quer acreditar na vida eterna. Ora, a morte do homem é a salvação da humanidade.

    Uma conclusão óbvia do gráfico do IEET é que as pessoas vão ficando mais sábias e espertas com o tempo (de 32% para 52% e aumentando).

    Só quem não conhece como o cérebro funciona pode pensar em uploading. Sem noção.

  7. Paulo Nasc disse:

    Legal professor Meira. Assistí as conferências MUTAÇÕES de Adauto Novais, na casa FIAT de Cultura, em BH, que trata do assunto. Trecho: “Mencionarei, enfim, as TECNOLOGIAS DE IMORTALIDADE; não que eu acredite que elas surgirão um dia, mas porque elas revelam antes de tudo a visão que os TRANSUMANISTAS têm da existência humana.” Complicado pakas mas fascinante.

  8. Paulo Nasc disse:

    Continuação sobre o comentário de MUTAÇÕES: “O TRANSUMANISMO visa que o homem transcenda a si mesmo em diereção a uma outra espécie que o ultrapasse completamente. Não se pode imaginar projeto mais grandioso. O preço a pagar é o desaparecimento da espécie humana.” Falou Jean-Pierre Dupuy.

  9. Antonio Castro disse:

    naturalmente se a gente está falando em energia “acumulada na forma de realizações e conhecimento” então não devemos, pelo menos como eu entendo, falar em desperdício. como você bem disse: realizações e conhecimento.

    então a morte não encerra um “prejuízo” em tal sentido, ou desperdício. realizações e conhecimentos, a despeito da morte, vem sendo transmitidos, gerando mais realização e conhecimento. é uma cadeia poderosa. acho que a vida eterna rompe com essa cadeia, a desperdiça.

  10. TechMoney disse:

    Pessoal,

    Segue recomendação de site sobe carreira de TI e de mercado financeiro:

    http://www.techmoney.com.br

  11. Klaus Hachenburg disse:

    O trecho que fala sobre uploading e downloading me lembrou, na hora, de Matrix … se for possivel, será que haverá, realmente, economia de energia ou sobre carga no cerebro?

  12. Romano disse:

    Mente aberta…?

    “Cientistas conseguem reproduzir imagens armazenadas no cérebro”
    23/09/2011 – 12h55
    http://www1.folha.uol.com.br/tec/979839-cientistas-conseguem-reproduzir-imagens-armazenadas-no-cerebro.shtml

  13. Romano disse:

    Quando flagrarem alguém bocejando…

    “Bocejar pode resfriar o cérebro, diz estudo”
    Atualizado em 23 de setembro, 2011 – 07:17 (Brasília) 10:17 GMT
    http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2011/09/110922_bocejo_estudo_rc.shtml

    “Bocejar pode ser um mecanismo de resfriamento do cérebro, sugere um estudo realizado na universidade de Princeton, nos Estados Unidos.”

  14. eita: acabou saindo uma meditação filosófico-teológica sobre o post, ó:
    http://crunicap.blogspot.com/2011/09/vida-eterna-como.html
    viagem por viagem…