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Escrito por • 23/07/2014

ariano suassuna, 1927 – 2014.

morreu o criador. imensa é a tristeza de todos que o conheceram e dos que, de alguma forma, foram tocados por ele. mas ficaram suas criaturas. com ele se foram as tantas histórias que ainda poderia ter contado, inventor que era de mundos e gentes, todos eles no brasil real, muitos deles no sertão, no cariri, lá em taperoá. mas ficou a maior invenção de ariano, a resistência cultural que ajudou a dar sentido e razão de ser a muita coisa no nordeste e no país, lá do chão rachado da seca do interior até a água tanta no litoral.

ariano maos

o movimento armorial, lançado por ariano em 1970, foi princípio de iniciativas muitas, inclusive o balé popular do recife, criado por ele e andré madureira. o balé inspirou o maracatu nação pernambuco, num tempo em que os maracatus estavam ameaçados de extinção em recife e foi no "nação" que eu, lá de taperoá, depois de rodar o mundo, me reencontrei com o brasil profundo, aprendendo a bater, nas alfaias e já nos anos 90, toques africanos ancestrais. de mais de uma forma, graças a ariano.

mas ariano tinha entrado na minha vida bem antes, e ela nunca foi a mesma depois que li, no começo dos anos 70, o romance d'a pedra do reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta. até hoje, toda vez que volto a taperoá, entro no livro quando passo por estaca-zero, mesmo que quase nada do [d]escrito na abertura d'a pedra esteja lá, visível. mas está sim, lá, em mim, imaginário:

Há três anos passados, na Véspera de Pentecostes, dia 1o de Junho de 1935, pela estrada que nos liga à Vila de Estaca-Zero, vinha se aproximando de Taperoá uma cavalgada que iria mudar o destino de muitas das pessoas mais poderosas do lugar, incluindo-se entre estas o modesto Cronista-Fidalgo, Rapsodo-Acadêmico e Poeta-Escrivão que lhes fala neste momento.

Era, talvez, a mais estranha Cavalgada que já foi vista no Sertão por homem nascido de mulher. Aliás, não sei nem se o nome de "cavalgada" se ajusta bem àquilo, que parecia antes uma espécie de tropel confuso de cavalos, jaulas, carretas, tendas, Cavaleiros e animais selvagens. Era, realmente, uma verdadeira "desfilada moura", como muito bem a classificou depois, na noite daquele mesmo dia, o Doutor Samuel Wandernes, homem intelectual, Poeta e promotor da nossa Comarca. Na verdade, como ele vive afirmando freqüentemente, "os árabes, negros, judeus, tapuias, asiáticos, berberes e outros Povos mouros do mundo, são sempre meio aciganados, meio ladrões, trocadores de cavalos, irresponsáveis e valdevinos"; e o estranho grupo de Cavaleiros que, naquele dia, iniciava a mais terrível agitação em nossa Vila, revelava no conjunto, ao primeiro exame, alguma coisa de errante, como uma tribo selvagem, nômade, empoeirada e "sem confiança".

Era composta de cerca de quarenta Cavaleiros. Os arreios dos cavalos que a compunham vinham cobertos de medalhas e moedas, que refulgiam ao Sol sertanejo, devolvendo aos fulgores dos cristais das cercas-de-pedra as faíscas de seus metais. As esporas, como estrelas de fogo, retiniam suas rosetas, batendo nos estribos e centelhando nos sapatões de couro castanho, sob as véstias e os canos poeirentos das calças-perneiras, também castanhas, mas providas de fortes placas de reforço, costuradas a modo de joelheiras nas calças, e de ombreiras nos gibões. Os chapelões de couro, de largas abas dobradas e levantadas, coroavam-se, também, de estrelas e moedas que reluziam – três nas abas, inumeráveis nas testeiras e barbicachos. Mais do que tudo, porém, pairava no ar, sobre aquela esquisita tropa de bichos, carretas e Cavaleiros, uma atmosfera de feira-de-cavalos; de sortilégios e encantamentos; de companhia de Circo; de comboio-de-mal-assombrados; de cavalaria de rapina; de comércio de raízes, augúrios e zodíacos; e tudo isso junto lembrava, logo, uma tribo de Ciganos sertanejos em viagem.

Uma coisa que talvez cause estranheza aos menos avisados é que o genial Poeta-Brasileiro e Patrono-Acadêmico, Antônio Gonçalves Dias, tendo vivido um século antes desta cena, já previsse que ela ia acontecer. É que, como diz o Doutor Samuel Wandernes, "os Poetas são verdadeiros visionários", isto é, gente que prediz o futuro e vê visagens e assombrações, como Antônio Conselheiro via as dele, no Império pedregoso e sitiado de Canudos.

Assim, ninguém se espante de que Gonçalves Dias, tantos anos antes, visse, como alumiado e visionário que era, a chegada desse tropel de cavalos a Taperoá, descrevendo assim a estranha Cavalgada que, já perto do meio-dia daquela Véspera de Pentecostes, errava pelos campos do Sertão do Cariri: 

"Eram ciganos errantes, 
atilados e torcidos, 
trocadores de Cavalos 
com semblantes de atrevidos: 
causa medo vê-los tantos, 
tão astutos e crescidos. 
 
Vinham Ladrões de cavalo, 
vinham muitos Raizeiros, 
vinham, do Sol abrasados, 
nossos bárbaros Guerreiros, 
bons dizedores de Sortes, 
muitos e bons Cavaleiros! 
 
E vinha o Donzel errante 
no cerco dos roubadores! 
De sua Dama-de-Copas 
no Escudo trazia as cores: 
tinha amor pela Sonhosa, 
eram claros seus amores! 
 
Enfim, dizer quanto vimos 
não cabe neste Papel: 
vinham muitas alimárias 
– são roubadas a granel – 
e vinha o Alumioso, 
montado em branco Corcel!" 

ariano

o mestre deixa indescritível saudade, que será preenchida com eterna lembrança, honra que quase só merecem, de todos, os inventores de seus povos e lugares. até você, que nunca foi ou irá a taperoá, pode imaginar-se quaderna e sua situação, lendo

Daqui de cima, porém, o que vejo agora é a tripla face, de Paraíso, Purgatório e Inferno, do Sertão. Para os lados do poente, longe, azulada pela distância, a Serra do Pico, com a enorme e alta pedra que lhe dá nome. Perto, no leito seco do Rio Taperoá, cuja areia é cheia de cristais despedaçados que faiscam ao Sol, grandes Cajueiros, com seus frutos vermelhos e cor de ouro. Para o outro lado, o do nascente, o da estrada de Campina Grande e Estaca-Zero, vejo pedaços esparsos e agrestes de tabuleiro, cobertos de Marmeleiros secos e Xiquexiques. Finalmente, para os lados do norte, vejo pedras, lajedos e serrotes, cercando a nossa Vila e cercados, eles mesmos, por Favelas espinhentas e Urtigas, parecendo enormes Lagartos cinzentos, malhados de negro e ferrugem; Lagartos venenosos, adormecidos, estirados ao Sol e abrigando Cobras, Gaviões e outros bichos ligados à crueldade da Onça do Mundo.

é daí de onde quaderna se dirige…

a todos os Brasileiros, sem exceção; mas especialmente, através do Supremo Tribunal, aos magistrados e soldados -toda essa raça ilustre que tem o poder de julgar e prender os outros. Dirijo-me, outrossim, aos escritores brasileiros, principalmente aos que sejam Poetas-escrivães e Acadêmicos-fidalgos, como eu e Pero Vaz de Caminha, o que faço aqui, expressamente, por intermédio da Academia Brasileira, esse Supremo Tribunal das Letras.

Sim! Nesse estranho processo, a um tempo político e literário, ao qual estou sendo submetido por decisão da Justiça, este é um pedido de clemência, uma espécie de confissão geral, uma apelação – um apelo ao coração magnânimo de Vossas Excelências. E, sobretudo, uma vez que as mulheres têm sempre o coração mais brando, esta é uma solicitação dirigida aos brandos peitos das mulheres e filhas de Vossas Excelências, às brandas excelências de todas as mulheres que me ouvem.

Escutem, pois, nobres Senhores e belas Damas de peitos brandos, minha terrível história de amor e de culpa; de sangue e de justiça; de sensualidade e violência; de enigma, de morte e disparate; de lutas nas estradas e combates nas Caatingas; história que foi a suma de tudo o que passei e que terminou com meus costados aqui, nesta Cadeia Velha da Vila Real da Ribeira do Taperoá, Sertão dos Cariris Velhos da Capitania e Província da Paraíba do Norte.

ariano e o dedo em riste

e o resto é história. aliás, todo o resto são histórias e invenções, fantásticas, geniais.

ariano tranquilo

boa viagem, mestre ariano. descanse em paz. um dia a gente se encontra. de novo.

ariano aeroporto

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5 Responses to ariano suassuna, 1927 – 2014.

  1. Ellen Ortiz disse:

    Linda homenagem!

  2. W. disse:

    Belíssima homenagem a este artífice-poeta que embelezou com estórias a nossa terra – e leva de volta um pouco de sua beleza, consigo.

  3. Heline disse:

    Ele realmente ficará em nossos corações!

  4. Janaina disse:

    Belo texto! Parabéns ao profº Silvio pelas belas palavras, houve momentos em que não as conseguia distinguir das do Metre Ariano. Bom saber que nosso Mestre deixou discípulos, na forma de enxergar esse pedaço de Brasil tão mágico, como é o nosso Nordeste/Sertão.

  5. Stefano Malinconico disse:

    Belíssima homenagem, professor.
    Despertou-me a curiosidade em ver Taperoá com meus próprios olhos.