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Escrito por • 01/08/2010

conectados, o tempo todo

o texto em itálico abaixo vem de uma entrevista para mariana gouvêa, da casa do cliente e nós da comunicação; o resultado está neste link, na íntegra. estou comentando algumas das perguntas e respostas e a primeira delas [futuro do trabalho? software.] rolou na sexta passada. vá ver.

hoje é domingo e talvez você esteja desconectado. mas uma ruma de gente deve estar online e parte delas trabalhando. este povo é o foco da próxima pergunta de mariana:

Nós da Comunicação – O que você diria para quem se assusta com a perspectiva de ficar conectado o tempo todo?

Silvio Meira – Se a pessoa tiver essa necessidade e não estiver fazendo isso, deveria se preocupar imediatamente. Se você é gerente e perdeu uma oportunidade de emprego porque queriam te dar um Blackberry e você precisaria estar conectado o tempo todo, isso significa que logo você será inútil no mercado de trabalho.

As empresas não conectadas têm destino: o grande cemitério do CNPJ.

No mercado de trabalho, vão aparecer as pessoas que passaram os últimos 15 anos na internet, dentro de um ambiente de mobilidade, e elas estão prontinhas para assumir o lugar de quem não se preocupa em estar conectado. Quem tem 40 e poucos anos tem que ficar esperto e começar a aprender a usar, com proficiência, as ferramentas que as pessoas de 20 usam. Senão, serão trocadas por elas. É tão simples quanto isso. Sempre foi assim.

o “sempre foi assim”, acima, quer dizer “sempre foi assim para qualquer nova tecnologia introduzida na sociedade e economia em qualquer tempo”. como a escrita, por exemplo. veja este trecho de platão, ao redor de 370 AC, descrito por umberto eco:

Segundo Platão, em ‘Fedro’, quando Hermes -ou Thot, o suposto inventor da escrita- apresentou sua invenção para o faraó Thamus, este louvou tal técnica inaudita, que haveria de permitir aos seres humanos recordarem aquilo que, de outro modo, esqueceriam. Mas Thamus não ficou inteiramente satisfeito. ‘Meu habilidoso Thot’, disse ele, ‘a memória é um dom importante que se deve manter vivo mediante um exercício contínuo. Graças a sua invenção, as pessoas não serão mais obrigadas a exercitar a memória. Lembrarão coisas não em razão de um esforço interior, mas apenas em virtude de um expediente exterior’.

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as interpretações do parágrafo acima são muitas [inclusive esta interessante discussão sobre memória, oralidade e escrita, de regina zilberman], mas é de particular interesse em nosso contexto a reação [de platão] ao aparecimento de uma nova tecnologia [a escrita], que é interpretada em oposição à memória, da mesma forma que muitos assumem que as relações humanas estariam se tornando mais frágeis porque mediadas pela web. ou que nós estaríamos nos tornando dependentes de celulares ou neuróticos por causa deles…

nada disso. a escrita –entre muitas outras consequências- torna a memória mais fidedigna e a expande no tempo; sem ela, sera muito mais difícil discutir os textos do próprio platão agora. e a escrita [e sua leitura], tempos depois de platão, tornou-se obrigatória. tente viver sem seu mais básico entendimento e irá descobrir como a vida é muito mais complicada. pena que ainda haja tanta gente, no mundo, que não tenha chegado lá e tanttos, no brasil, que façam uso tão primário de tal tecnologia. a esta altura dos acontecimentos, 7% da população brasileira é totalmente analfabeta e outros 68% são analfabetos funcionais.

image milhares de anos depois de platão, a web [se quisermos, sua mediação de relacionamentos] expande em muito, e muito além da família, trabalho e vizinhança, a capacidade de relacionamento humano. a interação direta, presencial ou “concreta”, não é substituída pela indireta, “abstrata”, em rede. com quanta gente a mais cada um de nós se relaciona mais intensamente hoje, de uma forma que no passado só era possível via cartas, parte da história da comunicação escrita?…

as conexões em redes sociais [criadas inclusive por blackberries, iPhones e androids nas mãos dos executivos…] de hoje são uma evolução radical da comunicação à la correios e telefonistas do passado, representada entre outras formas pelas cartas. falando nisso, há quanto tempo [excetuando as contas…] você não recebe uma carta?… e, daqui a pouco, você acha que sua conta vai chegar por onde? em papel, pelo correio, ou como uma mensagem, talvez na aplicação móvel que corresponde a seu banco?…

é bem possivel que as pessoas que têm quinze anos, hoje, e que já nasceram em tempos de rede, jamais tenham recebido ou escrito uma carta. os saudosistas reclamarão que elas “não sabem o que estão perdendo”… mas o fato é que saudades não criam empregos e não empregam ninguém.

a geração 1995+ tem a internet e a web [e os celulares, que são computação e comunicação com você, o tempo todo] como seu modo normal de vida, comunicação, conectividade e relacionamentos e está sempre conectada. e isso não lhe causa qualquer ansiedade; muito pelo contrário. para eles e elas, estar fora da rede é como estar fora do mundo, pois todo seu mundo está e sempre esteve em rede.

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0 Responses to conectados, o tempo todo

  1. Mitchell disse:

    A Net é a nova religião, agora de fundo psico-tecnológico, uma dependencia muito parecida com os deuses criados das religiões monoteístas patriarcais, a pretensa liberdade, tornou-se em parte uma prisão digital, onde o indivíduo é devassado e forçado pela mídia a ser uma engrenagem nesse esquema trilhonário mundial na conquista de mentes e corações, poucos conseguem ver a profundeza dessa lavagem mental que sorrateiramente vai tomando de assalto todos que se acham conectados e passivamente pela influencia subliminar da TV, estreita cumplice nessa teia de intrigas, os que ainda não foram tragados ao poço profunfo da conectividade.
    Como um vício vai tornado seres humanos em robots + ou – biológicos, que ainda pensam de forma autônoma.
    Essa maravilhosa teia tem em seu profundo poço a aranha da manipulação universal, onde no futuro o homem será apenas uma célula de um organismo cibernético totalitário.

  2. disse:

    É muito bom estar conectada.Concordo com Thamos,fiquei mais esperta depois da internet e minha memória está sendo sempre exercitada.

  3. santos disse:

    tem que estar sempre atualizado.

  4. Marc disse:

    “interneticidade” A internet tão fácil quanto a eletricidade !

  5. DANIEL disse:

    O analfabetismo funcional é transportado para o meio internet e causa grandes desconfortos. Quem ainda é resistente à tecnologia (como o comentário dos “deuses” acima) vai ficar cada dia mais afastado do mercado de trabalho. Moro num país onde crianças aprendem três línguas na escola primária, uma delas o mandarim. As escolas são interconectadas, os alunos incentivados a utilizar os seus aparelhos de conexão como i-phones, i-pads e computadores, os professores fazem vídeo-conferências e ninguém se julga paranóico e existe um alto nível de compreensão do que é ferramenta, o que é trabalho e o que é vida social. O brasileiro NADA lê e quando o faz interpreta mal. É o desafio das próximas décadas, mas continuamos uns 30 anos atrasados em relação ao mundo desenvolvido. Já ensinamos o código das letras, basta ensinar a LER e ESCREVER de fato.

  6. Alvaro Almeida disse:

    Gostaria de saber do autor a fonte de informaçao de que 7% da populaçao brasileira é totalmente analfabeta e 68% é analfabeto funcional.

    Aproveito a oportunidade para dizer a Lula que ele deveria estar preocupado com estes números já que, lamentavelmente, sua única preocupaçao é a sua perpetuaçao no poder.

  7. Rômulo disse:

    Tenho 35 anos e lembro que na minha adolescência ainda existiam cursos de datilografia, competência que deixou de ser um diferencial com o avanço dos computadores. É por isso que tento me manter atualizado com a tecnologia para poder competir com as gerações mais novas e aptas ao novo ambiente daqui há alguns anos.

    Por outro lado, o grande desafio para aqueles que permanecem conectados o tempo todo é conseguir reservar um tempo para si, para ficar sozinho, para ser dono da sua própria mente. Os profissionais do conhecimento que já não possuem folga, pois mesmo na hora do descanso estão elaborando soluções em suas mentes, precisarão redefinir o conceito do que é uma vida feliz e saudável.

  8. Gabriel Sitônio disse:

    Bicho, eu tenho um grande amigo que tem um Blackberry online on-time e digo com todo a sinceridade. Tenho pena do cara.

    Ele é um gênio de hardwares e redes e hoje toma conta da rede de uma grande rede de varejo (haja rede). São dezenas de lojas que o levam a dezenas de servidores tudo administrado virtualmente de qualquer computador ligado a internet.

    Não teve um único dia em que estávamos tomado uma cervejinha que o seu Blackberry recebeu torpedos automáticas ou avisos via mensseger.

    Qualquer 1% de instabilidade ele é avisado pelo Blackberry.

    E lá vai meu grande amigo pegar o notebook, ligar a internet 3g e trabalhar como uma máquina.

    O que eu vejo é que o Blackberry é apenas um mensageiro e que ele que é a máquina a serviço em tempo integral.

    Gosto muito de está online mas consigo curtir minha vida fora dela. Não quero me tornar uma máquina 24h a serviço desse capitalismo selvagem.

  9. Marcelo Pita disse:

    No fundo estamos falando da capacidade de abstração humana que, em última análise, se concretiza em VIRTUALIZAÇÃO. O cérebro nada mais é do que um componente tomador de decisão que se utiliza de uma representação virtual do mundo, pois ISSO FACILITA A VIDA. O ser humano consegue generalizar isso, e criar camadas sobre camadas de abstração do mundo, visando seu bem estar. Logo, tudo isso é tão inevitável e irreversível quanto a linguagem, por exemplo.

  10. marquito disse:

    É, silvio. Sou pobre, estudande de desenho industrial na federal do espirito santo e estagiário. Ganho pouco e, ainda assim, fiz questão de comprar um android e pagar 50 por mes em um 3g ilimitado. Achava estranho meus amigos conectados 24/7. Agora entendo perfeitamente.

    Estar em rede deixou de ser commodity e passou a ser lifestyle. #rederocks!

  11. flavio disse:

    É……..Pensem em mundos virtuais. Já existem e podem, com muita economia de tempo e espaço, substituir locais de trabalho, de maneira eficiente. Não tenham dúvidas de que, mais breve do que se possa imaginar, teremos (seremos) avatares profissionais operando realmente “full time”.
    Quem não conhece isso, aconselho dar uma olhadinha….

  12. Tenho certeza que o mundo MELHORA, a medida que mais e mais pessoas vão entendendo o ÓBVIO: ESTE CAMINHO É SEM VOLTA.

    A nossa plataforma evoluiu (tanto para o bem, quanto para o mal), nos resta aprender esse novo caminho e escolher de qual lado vamos atuar, o contrário disto é viajar na segunda ou terceira classe.

    É muito mais difícil vencer a nossa cabeça, apegada ao paradigma anterior, do que aprender a etiqueta do mundo 3.0.

    Que venha EL TORO.

    http://www.scarpini.zip.net

  13. Concordo plenamente com o Silvio.
    Quando entrei na faculdade em 95 (casualmente quando a embratel lançou a internet comercial) recebíamos em palestras um “catalogo impresso” com a chamada “acesse o mundo” e deveria conter uns 500 endereços. Quando saí da faculdade (4,5 anos após), meu trabalho ja foi sobre mineração de dados e ferramentas de indexação web e olha que já não se tratava de inovação!!!
    Quanto ao escrever errado, vejo que o grande paradigma que foi quebrado a partir da mobilidade foi “certo ou errado, comunique-se!”. Eu pelo menos, aprendi ingles lingua estrangeira assim.
    Agora, Sílvio, sei que já escreveu no blog sobre isso, mas como pode empresas (de portes variados) que gastam cifras consideráveis em planejamento, análise de cenário, etc, ainda se posicionar como contrárias a novas mídias? E mais, a gente vê professores em universidades na faixa de 30, 40 anos que ao serem questionados sobre twitter por exemplo responderem: sou contra essas modinhas..

    Abraços!

    http://twitter.com/quantaprojetos

  14. Respondendo à pergunta do Sílvio, não recebo uma carta há quase dez anos! Bem… sem contar as de minha esposa. Nós viajamos muito e por vezes nos correspondemos por carta mesmo (muito mais por saudosismo do que por praticidade).

    Como o Rômulo (do comentário aí de cima), também tento me manter atualizado. Mas, apesar de ser apaixonado por tecnologia, muitas vezes tenho a sensação de que não consigo acompanhar a evolução (rápida) da internet (ou dos modelos de comunicação). A velocidade de mudanças é grande e acredito que a angústia resultante seja proporcional ao quadrado da idade do profissional (pelo menos). Ou seja, estamos “envelhecendo” para o mercado muito mais rapidamente do que para a vida!

    Sílvio, parabéns pelos comentários! Vou ter de imprimi-lo para mostrar à minha mãe, que ainda está ativa no mercado mas nunca acessou a internet nem mandou um e-mail por ter medo de computador!

  15. Dumont Santos disse:

    Prezado Silvio, é verdade que quem não ficar direto conectado está com um pé fora do mercado. Entretanto não se pode dizer que isso é algo agradável. Depende muito da situação. Trabalhei durante mais de 15 anos em Infraestrutura de TI, e minha vida era um inferno. Comprei um telefone sem fio numa época em quem ninguém tinha isso, e o deixava no criado-mudo a noite toda. Era comum me ligarem de sábado, domingo, às 3 da manhã e assim vai. Por exemplo, ligaram-me uma vez às 5 da manhã do dia 24 para 25 de dezembro, véspera de Natal, para resolver um problema de falta de energia no Data Center. E, como eu era o chefe, só me ligavam com os maiores pepinos do mundo! Tive celulares logo que saíram, porque me queriam “conectado” para solucionar os problemas. E assim foi por muito tempo. Finalmente “fui saído” de meu emprego, após a empresa onde trabalhava ter sido comprada por outra e não antes de que eu comandasse a fusão das redes e dos Data Centers das duas empresas. Na noite daquele dia em que me deram o bilhete azul, ao invés de estar angustiado, me senti tão aliviado! Tão feliz! Impossível descrever isso. Dormir sabendo que não iam te ligar a qualquer momento na madrugada, ir para um fim de semana sabendo que poderia almoçar com seus queridos sem ninguém interrompendo para lhe exigir algo! Olha, a conclusão a que cheguei foi a seguinte: muito legal e necessário estar conectado – continuo no celular, na web , e tudo mais – desde que você não tenha um emprego ou um chefe que use e abuse de você, colocando-lhe pesadamente o cabresto. Senão eu posso dizer, com muito conhecimento de causa: ficar conectado a esse preço é simplesmente o inferno. Você irá desejar viver no tempo das cavernas.

  16. nadson disse:

    aula de si