MENU

Escrito por • 16/07/2009

conteúdos e meios: indústria de música vai muito bem

esta semana, este blog tocou mais uma vez no tema conteúdo [música e vídeo] e seu consumo. como todos sabemos, o negócio de conteúdo está em fase de transição, devido ao colapso do suporte físico. isso não é nenhuma novidade.

a digitalização [fenômeno que já tem mais de 25 anos] e a internet [15 anos] são parte do processo, mas ainda estamos longe de chegar a um novo e resolvido patamar, onde as coisas se estabilizem e se possa falar, sem muita discussão, de uma nova “indústria”. e isso se, algum dia, formos ter alguma indústria que pareça com a que tínhamos no passado. eu duvido.

no post anterior, alguém comentou que… “só não sei como vai ficar a produção de cultura com tanta troca “livre” se oferecendo no mercado”; este é, certamente, um lado importante da questão. que é resolvido em parte por um texto de nelson motta, publicado aqui mesmo no blog, onde nelsinho diz que o “star system” de outrora, o sistema das grandes estrelas e grandes gravadoras [e grandes lucros para uns poucos] deu lugar a constelações e galáxias inteiras, de pequenas estrelas instantâneas, que têm milhões, dezenas de milhões de audições em um par de semanas e depois desaparecem. nada mais normal: excesso de produção e diversidade, um flash de celebridade na frigideira das atenções e estamos prontos para um novo experimento.

durante muito tempo, talvez pra sempre, o novo vai ser muito mais relevante do que o bom. no passado, tempo de escassez –de meios de produção e distribuição- havia uma oportunidade muito grande de criação de renda ao se escolher, entre muitas possibilidades, o “bom”. ou de impingir o que se achava ser bom a quem não tinha meios e participava do mercado apenas como comprador ou audiência. que era, de resto, quase todo mundo.

no presente, tempo de abundância, onde qualquer um tem à mão os mesmos meios das “gravadoras”, do software que cria os efeitos antes só disponíveis para os tais poucos até a rede inteira para distribuir o resultado, qualquer um pode –e muitos querem- ser o próximo astro. e os indivíduos, sem as amarras do que pode ou não ser feito numa corporação, podem se dar bem melhor na rede, na partida, do que um candidato a “astro” oriundo e promovido por algum grande cnpj.

num mercado de oferta abundante –excessiva, alguns dizem e eu discordo- o problema da escolha recai sobre o que outrora era audiência [para quem os editores escolhiam, a priori, a oferta limitada] e que, hoje, se tornou comunidade. a diferença é que a primeira tinha muito menos poder do que a segunda, que interfere diretamente nas escolhas e, em muitos casos, escolhe a si própria.

e o problema do meu comentarista? será que tanta troca “livre” se oferecendo no mercado vai ter um impacto negativo na produção cultural? a pergunta é muito relevante a a resposta parece ser… não, as trocas livres, o compartilhamento de conteúdo na rede, não diminuiu os incentivos para que artistas e empresas criem, distribuam e comercializem novos trabalhos. é isso que diz um estudo [File Sharing and Copyright, .pdf] da harvard business school, publicado em maio deste ano.

o estudo usa dados do mercado mundial e mostra que, de 2000 [quando a internet “pega” mesmo] a 2007, o número de álbuns [música] publicados dobrou; de 2003 até agora, a produção de filmes subiu mais de 30% e, de 2002 a 2007, o número de livros publicados aumentou 66%. não parecem, exatamente, mercados em crise de criatividade; são, sim, mercados em crise de suporte, de infraestrutura. e tal crise deve chegar, em breve, ao mercado de livros, como este blog discutiu recentemente, com a troca do suporte em papel para o suporte eletrônico à literatura.

o estudo de harvard merece ser lido, por quem é a favor e contra o compartilhamento de conteúdo. porque organiza e cita pérolas como o trabalho de lamere [de 2006] sobre hábitos de compra e audiçao de música:

In a sample of 5,600 consumers who were willing to share their iPod listening statistics, the average player held a collection of over 3,500 songs. A full 64% of these songs had never been played, making it unlikely that these consumers would have paid much for a good portion of the music they owned.

em 2006, quando o iPod médio tinha um terço da memória de hoje, a coleção de música de cada usuário tinha 3.500 obras, 64% das quais nunca tinha sido tocada. por que é mesmo que se acha que estes usuários pagariam por elas, por exemplo?…

de resto, quem está reclamando do estado do mercado de conteúdo é a indústria “do disco”. segundo o estudo, considerando o mercado americano,

The decline in music sales – they fell by 15% from 1997 to 2007 – is the focus of much discussion. However, adding in concerts alone shows the industry has grown by 5% over this period. If we also consider the sale of iPods as a revenue stream, the industry is now 66% larger than in 1997.

image

é isso o que nos diz o histograma acima. nos dez anos entre 1997 e 2007, as vendas de música cairam 15% mas, quando se agrega os shows, a indústria como um todo cresceu 5%; jogando os iPods no bolo, o total cresceu 66% na década. por isso que a apple está disposta a perder dinheiro vendendo música: o lucro do hardware mais que compensa o prejuízo do conteúdo, tornando a plataforma altamente rentável. e esta é a mesma razão pela qual a empresa de steve jobs bloqueou o acesso do palm PRE ao iTunes: não ganha nada com isso; aliás, perde.

ou seja: quem está chorando é porque não viu pra onde ia o mercado, a nova infraestrutura para conteúdo, as comunidades, os consumidores e, mesmo depois de ter visto, pouco ou nada fez pra acompanhar. pena. vão continuar chorando. o mercado de conteúdo, visto como um todo, vai muito bem, obrigado. e continuará bem, ad aeternum, pois somos, todos, conteúdo. os sistemas e dispositivos vão continuar mudando, muito, principalmente os modelos de negócio e renda. e isso faz parte da evolução do mercado, das pessoas, das companhias, isso é o tempo passando.

pra muitas empresas e pessoas, o tempo passa mesmo. e elas ficam. quem diria, há dez anos, que a companhia de mídia mais lucrativa de nossos dias seria uma “fábrica de radiolas”?…

Artigos relacionados

0 Responses to conteúdos e meios: indústria de música vai muito bem

  1. Só não dá pra confudir Internet com Web, principalmente vindo de um cientista da computação.

  2. Exelente post.

    Falando de modelo de negócio, é interessante perceber que as transformações provocadas por modelos das novas plataformas da música, não só afetam aspectos econômicos, e de como a industria irá sobreviver sem um suporte físico, mas também aspectos culturais, digo isto como consumidor que está enfrentando essas mudanças. Estou falando específicamente das plataformas baseadas em streaming.

    O Spotify (http://www.spotify.com), serviço disponível apenas em alguns países da União Européia, evidencia tudo isto que estou tentando dizer.

    Acredito que com o ferramental digital criado e disponibilizado por este serviço, aplicado em países que tem como realidade uma conexão sempre presente com a rede, não há razão para aplicar a antiga lógica do comércio. De certa maneira, não se faz mais necessário possuir de fato as faixas e albuns que escuto, afinal posso ouví-los quando e onde quiser, desde que esteja conectado. A medida que a rede se torna pervasiva, isso faz todo sentido.

    A disponibilidade total promovida por instrumentos como este, modifica sensivelmente tambem o processo de pesquisar e encontrar as músicas dos artistas que gosto, processo este que muitas vezes era tão prazeiroso quanto ouví-las propriamente.

    Isso, é claro, não é nenhuma novidade, apenas uma constatação, talvez tardía, de alguem que gosta muito de música e que também acredita que a produção cultural assim como outros setores, estão se adaptando bastante bem.

  3. luciano pires disse:

    Olá Silvio. Gostaria de entrar em contato com você para falar sobre uma proposta. Obrigado.
    Luciano Pires

  4. Michel Torres disse:

    Sua idéia é interessante, e expandindo um pouco podemos imaginar o tempo em que a distribuição da música (conteúdo) também saia da mão das gravadoras e seja controlado pelos grandes players de MP3 e celulares.

    Quanto ao streaming, pelo menos para nós brasileiros vai depender de uma melhora substancial na infraestrutura existente. Sem contar a mudança de hábito para a imensa maioria das pessoas.

    O que penso ser urgente para quem trabalha nesse meio é descobrir como, pelo menos, estancar a pirataria. Ter os CDs ou o DVDs originais era algo bacana e que enfeitava a sala, tinha o encarte e etc. Quando fica tudo eletrônico apenas, esse benefício se perde e tudo passa a ser um acúmulo de arquivos.

    Parabéns pelo texto. É motivante pensar o que pode acontecer.

  5. o autor está certo, com exceção de uma coisa, ele entende que os artistas não tem mais poder nenhum, pois só terão, todos eles, 15 minutos de fama, aí há um equívoco, quando se afirma que o novo tomou o lugar do bom, acontece que os grandes CNPJ não apreciam difundir o bom para concentrar em suas mãos o poder da comunicação, em detrimento do artista, uma medida temerária, acontece que o bom nunca perderá espaço, nem hoje, cenário mutante, nem nunca, e só o bom pode estabilizar o cenário que solapará o poder dos gdes CNPJ’s, sem o bom o cenário nunca se estabilisará, e com o bom o cenário coferirá poder aos artistas, hoje vivemos um engano, um enjoativo engano que está com os dias contados.