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Escrito por • 24/03/2010

dá pra definir inovação?

estamos nas semanas que antecedem a quarta conferência nacional de ciência, tecnologia e inovação. ciência e tecnologia nós já sabíamos o que era, e aparentemente há tempos; mas inovação é algo supostamente novo, do qual todo mundo começou a falar recentemente e todos e todas as empresas, de bancos a limpa fossas, estão fazendo. ou pelo menos acham que estão, em alguma escala.

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tempos atrás, no meu velho blog, tentei uma definição, que seria a abertura de um livro sobre o assunto, se eu tivesse tido tempo de escrevê-lo. não tive. daí que volto ao tema, a seguir, usando como base o que escrevi há três anos, na esperança de causar um debate mais intenso sobre o que é mesmo inovação e qual é o tipo de atitude que nos leva a criar [e manter] iniciativas inovadoras nas empresas, redes e, por que não, em casa e na vida pessoal.

a definição de inovação é ao mesmo tempo simples e complexa; e não é uma, são muitas, para todos os gostos. uma das que eu mais uso, olhando para as empresas, é que inovação é a emissão de mais e melhores notas fiscais. porque só acontece no mercado; porque seria muito bom que estivesse refletido nas notas fiscais e porque mais notas é mais vendas e melhores notas quer dizer que a margem, a diferença entre custo e preço, estaria aumentando [ou que a empresa estaria se tornando mais competitiva]. claro que isso é debatível: você poderia dizer que seria ainda mais interessante se a empresa emitisse muito mais notas [ao invés de somente mais] e que, mesmo com margem mais baixa, aumentasse significativamente a margem total. também vale; o que importa é que a idéia geral seja percebida e discutida em suas variadas facetas.

se peter drucker fosse definir inovação, ele provavelmente diria que inovação é a mudança de comportamento de agentes, no mercado, como fornecedores e consumidores [de seja lá o que for]. mas o mesmo drucker também diria que inovação é toda mudança que cria uma nova dimensão de performance [no negócio]. se eu fosse dar uma definição longa e bem explica, eu diria que…

inovação é um ideal inconsistente: os discursos que servem de suporte a processos de inovação, na maior parte das instituições -e feitos por boa parte dos autores- são descrições articuladas de casos de sucesso e suas análises. também se usa muito, para exemplificar, os cases de instituições inteiras como modelos de estratégias e processos de inovação a serem seguidos.

olhados mais de perto, nem os casos individuais nem os cases institucionais nos dão, na quase totalidade das vezes, uma direção segura a seguir. por quê? porque cada instituição é diferente, é um caso à parte; mesmo dentro de uma mesma organização mundial, uma inovaçào que tenha dado certo no japão não dará necessariamente certo no brasil.

apesar disso, livros e mais livros de [quase] auto ajuda, descrevendo as melhores práticas, são consumidos avidamente por quem tenta construir, instalar e manter processos inovadores nas empresas, com resultados vários e, dificilmente, replicados a partir de grandes sucessos descritos na literatura. pois uma coisa é olhar para a inovação na microsoft ou google, companhias que dispendem vários bilhões de dólares por ano em inovação, e outra é pensar numa pequena companhia de software de 50 pessoas e ver, lá, como inovar nos processos produtivos e nos produtos e serviços que o negócio desenvolve.

o ideal inconsistente da inovação é a criação e manutenção de um ambiente de insatisfação institucionalizada com o status quo de um negócio qualquer.

não se quer dizer com isso que inovar é criar insatisfeitos, gente que estará de mau humor com o trabalho sendo realizado no lugar, por conseguinte disposta a abandoná-lo na primeira oportunidade. muito pelo contrário. a insatisfação pode -e deve- ser uma busca alegre e divertida de oportunidades de mudança, promovida e recompensada pela organização, que estará sempre refletindo, em termos pessoais e estratégicos, que há mudanças que podem ser realizadas, o tempo todo, partindo do atual estado de coisas para novos [e potencialmente inconsistentes] ponto de equilíbrio.

inovação é sempre impermanente, imperfeita, incompleta.

e aqui é onde as pessoas e sua tendência a querer estabiliade, no médio e longo prazo, mais sofrem em instituições inovadoras ou em instituições que estão começando a levar inovação a sério. pois normalmente se pensa, quando se sai de um ponto de partida p, em um processo de inovação qualquer, que haverá um destino final f que, quando atingido, dar-se-á a mudança por completa. mas não.

inovação é impermanente. seu resultado é temporal e não leva muito tempo até que o resultado de um processo se desvaneça, deixando uma tênue lembrança dos resultados alcançados a tanto custo. inovação ocorre em ciclos. ao se caminhar de p até f, normalmente à custa de sacrifícios institucionais e individuais dos quais nos lembraremos por algum tempo, ao invés de se chegar num ponto final, f, chega-se num novo ponto de partida, o mesmo f. pois, à medida que estamos mudando, o mundo está mudando ao nosso redor e pode muito bem ser que, mesmo que nós tenhamos feito revoluções na nossa mudança, o novo estado institucional para onde estávamos indo já seja obsoleto na metade do nosso processo, em função da entrada de novos -e muito mais eficientes ou eficazes, ou os dois- concorrentes no nosso mercado. ou porque o nosso mercado foi redefinido. ou porque a redefinição foi tamanha que ele -o tal nosso mercado- desapareceu.

inovação é imperfeita. toda inovação é parte de um processo de insatisfação que guarda as sementes de sua própria renovação. quando tratamos de processos institucionais, isso é ainda mais verdade: mudar, em uma organização, não é apenas o processo de transitar entre uma estrutura, velha, e outra, nova. é criar as bases para que a mudança seja permanente, entre formas de ação e organização [que já foram muito] boas e outras [que pretendem ser ainda] melhores.

se quisermos, inovação pode ser definida como o contínuo processo de se transitar entre conjunturas –ao invés de estruturas- organizacionais. daí porque, ao invés de tentarmos alcançar uma certa execução perfeita do conhecido, criando estruturas permanentes, estamos à busca -em processos inovadores- da execução imperfeita do desconhecido, [re]descobrindo conjunturas, as relações entre elas e imaginando e realizando os saltos que teremos que dar de uma[s] para outra[s]. a interlocução entre os estados institucionais de saber-se imperfeito e entender-se temporal é uma das conjuções motrizes dos processo inovadores. mas não é só.

inovação é incompleta. não estamos atrás de mudar tudo e todos ao mesmo tempo. partindo do princípio dual de que a perfeição, no nosso caso, é inatingível e que tudo se desvanece sob o impacto das mudanças efetuadas aqui e algures, adicionamos à equação a incompletude dos processos de inovação. vai estar sempre faltando considerar alguma faceta, algum aspecto externo, algum modelo de mudança nos cenários de nosso interesse. o mundo não é simples; o mercado idem; sua empresa tampouco e, se você ou eu fôssemos simples, o mundo não teria a menor graça, por sinal…

impermanência, imperfeição e incompletude são características básicas, pensando bem, de todas as coisas. vivas ou não. principalmente das vivas. uma organização qualquer é uma estrutrua viva, em  processo contínuo de recriação [deveria ser, também, de recreação…] e “habitada” por pessoas, que sofrem, pela sua própria natureza, destas três limitações. nosso problema central, nos processos inovadores, é como fazer o melhro uso destas características naturais dos sistemas populados por seres humanos e, a partir daí, criar os métodos, sistemas e estruturas mínimas que possibilitem e fomentem o redesenho permanente dos nossos negócios e instituições.

se este é o cenário, será que dá pra pelo menos tentar atingir alguma  coerência e consistência nos processos de inovação e dos negócios inovadores? dá. mas dá um trabalho danado. e como esta conversa já está muito longa, disso a gente fala depois…

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0 Responses to dá pra definir inovação?

  1. Lígia Dutra disse:

    Adorei seu texto e acrescento que há uma outra definição do meu amigo @fseixas que eu adoro e é bem simples: “Inovação é uma idéia que se paga!”

  2. caramba, eu vejo problema na cultura da empresa. Silvio, se houver condicoes de tempo, escreva algo sobre trabalhar na cultura da empresa.
    abraços

  3. Flávius Anderson disse:

    Penso que deveríamos falar no “ato de inovar”, visto que à medida que adquirimos, criamos ou compramos algo novo, seja uma idéia, produto, metodologia ou processo esta caiu no uso comum e passamos a ter apenas algo novo não mais inovador. Temos então que novamente entrar no ciclo do “ato de inovar” e estar em constante busca do novo, o diferencial, seja isto totalmente novo ou feito de uma forma nova (de preferência mais eficiente)

    Portanto a meu ver, devemos estar sempre realizando o “ato de inovar” sabendo que nunca chegaremos a conseguir a inovação.

    Abraços

  4. José Roberto P. Leite disse:

    INOVAÇÃO DEVE SER SEMRE UM ATO CONTÍNUO E PERMANENTE, VISANDO NÃO DEIXAR NO STATUS QUO TUDO O QUE SE FAZ OU PRODUZ; É COMO FICAR NA PONTA DOS PÉS, O TEMPO TODO, DURANTE UM JOGO DE VOLEI OU DE TENIS, POR EXEMPLO.

    ABRAÇOS E OBRIGADO.

  5. Diego Wesley disse:

    Muito bom artigo, professor. Fiquei com isto: uma inovação se desvanece tão logo atinja (e mude) o próprio mercado. Por isso, inovar carece de estar sempre reavaliando o mundo.

  6. RFID disse:

    Inovação analizo que trata do processo cotidiano associado para o crescimento.

    Passa em usar computador, mas não pode esquecer datilografia.

    Passa em vendas on-line, mas não pode desprezar bater porta a porta.

    Instala um software de contabilidade fiscal, mas necessita usar o lapis e papel com calculadora para ser preciso.

    Tudo é uma seguencia de aprimoramento, qual só aconteçe ao decorrer dos anos pela experiencia.

    Inovação é um sentido direto da prosperidade, fruto de um trabalho bem administrado.

    Assim participo avaliando entender um pouco para ter noção.

  7. Definir “inovação” é certamente o primeiro passo para entender o processo e, uma vez, entendido, passar a ser um agente de inovação. Por isso, parabéns pela iniciativa em escrever o artigo.

    Como diz Peter Diamonds, o cenário mais proprício para a emergência da inovação é aquele em que são postas restrições ao problema, aquele cenário no qual as idéias tradicionais não funcionam mais ou não são mais adequadas. Portanto, creio que, para manter a “taxa de inovação” ao menos constante, necessita-se restringir e repensar, o tempo todo, o modelo de mercado existente dentro da visão do negócio.

    http://twitter.com/crbazevedo

  8. heusner grael tablas disse:

    Não cheguei a ler seu comentário. Quando você começou a falar em emissão de Nota Fiscal, perguntei-me: em que mundo ela vive?

  9. Dener Didoné disse:

    [Re]Inovar! Sempre, é um ciclo, é vicioso e é algo que seguirá em busca da eterna inovação. O ponto de chegada é sempre um novo ponto de partida, e é realmente a imperfeição e a insatisfação que nos levam a continuar [alegres] neste ciclo.

  10. Marcelo disse:

    Inovação é evolução… Darwinismo aplicado à evolução cultural das civilizações. No fim das contas, é reconfigurar nossos processos básicos, desenhar alguns novos, redesenhar alguns ultrapassados, e juntar tudo coerentemente em um desenho inteligente para garantir estabilidade em um mundo “impermanente, imperfeito, incompleto”.

    Neste sentido, não vejo a inovação como contrária à estabilidade. Esta última seria impossível sem a primeira!

  11. Anselmo Lacerda disse:

    A Inovação tem que ser encarada como um ciclo em evolução e é preciso ter muita flexibilidade e ação. É importante criar novas oportunidades e atividades, estimular a participação e a interação, e principalmente executá-las. Além disso, é indispensável ter um feeling do que está ocorrendo no ambiente.

  12. Gileno disse:

    Uma possibilidade do que é Inovação: Criar algo que as pessoas precisam mas não sabem que precisam.

  13. Nancy Keiko disse:

    Professor Silvio, parabéns pela palestra de hoje! Brilhante como sempre!

  14. Silvio Meira, Parabéns! Tratar de inovação como algo que surge da insatisfação é devolver ao ser humano o poder de modificar o mundo a partir de seus sentimentos. O artigo – inspirador – foi fonte de um post no blog que mantenho sobre empreendedorismo: http://www.opulodogato.org

  15. Daniel disse:

    achei uma boa definição: é imperfeita! Se esperarmos fazer sempre o perfeito, possa ser que já não seja inovação… passou da hora!

  16. Elaine g.m de Figueiredo disse:

    Nossa adorei os adjetivo para Inovação. Sempre achei que esta estava detida nas mãos de poucos, e que muitos se beneficiariam sempre com ela.

  17. Marcos José Setim disse:

    Olá Silvio,

    Apenas gostaria de apresentar uma outra visão diante de uma afirmação sua.

    Com certeza definir inovação é um desafio. Entretanto é muito simplista dizer que “inovação é a emissão de mais e melhores notas fiscais”. Se olharmos em volta vamos identificar vários pesquisadores estudando o efeito desse objetivo capitalista de comprar e comprar (logo reflexo das notas fiscais), uma pesquisa difundida se encontra no site: http://storyofstuff.com/.

    Meu comentário não é uma fala não é anti-capitalista ou socialista, mas é uma descrição do fato de que: uma mudança de paradigma é necessária no mundo de hoje para nos tornarmos mais sustentáveis.

    Nesse contexto concluo que imaginar a inovação na empresa apenas do ponto de vista de “vender”, “aumentar lucros” pode ser um erro clássico, como postei no Terraforum (http://tinyurl.com/yepdhej) acredito que devemos discorrer para uma definição mais direta como “inovação é fazer diferente com valor agregado”, definição não cunhada por mim (vide link do TerraForum).

    Portanto Inovar não necessariamente é gerar mais vendas/receitas/notas, por exemplo: criar uma forma de desenvolver o mesmo produto de maneira reduzir o impacto ambiental pode não elevar as “notas fiscais” diretamente, mas se unido a um marketing bem feito (talvez inovador) pode fidelizar cliente com objetivo estratégico de perenizar a organização.

  18. Marcos José Setim disse:

    My bad,

    O link do TerraForum é http://tinyurl.com/yzzmuwe

    Abs

  19. Bruno Bezerra disse:

    Inovação é a prova de que o mundo gira e o tempo não tem freio. No mundo dos negócios, inovação é a dinâmica da vida empreendedora produtiva, alicerçada essencialmente na mudança de atitude.

  20. Abacaxi docinho e gelado, vendido em rodelas, a R$1 cada. Cuscuz cozido no vapor, é claro, em forma de peitinho e em dois tamanhos: básico e siliconado. Para ser vendido em pontos de ônibus lotados, na saída do turno. É nutritivo, higiênico e barato. Qualquer novo aplicativo, baseado na nuvem, que pegue carona no sucesso dos aplicativos que já são sucesso.

    Inovação, tá na mão.