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Escrito por • 25/10/2006

Deitada em berço esplêndido?

[Texto da série “Silvio Meira no G1”, publicado originalmente no G1, em 25/10/2006.]

A compra de YouTube por Google liberou uma torrente de notícias e comentários na internet, fazendo lembrar os “bons tempos” em que quase tudo o que era feito na rede -inclusive grandes besteiras- era notícia. O fato é que a Google pagou um monte de dinheiro pelo site de vídeos, coisa que já comentamos aqui no G1. Muito do resto é conversa, mas uma parte faz sentido.

Don Dodge [do time de negócios emergentes da Microsoft] tem uma análise muito interessante em seu blog sobre por que o YouTube não vale a fortuna que foi paga por ele. Na verdade, ele diz também que o FaceBook [um site de relacionamento que concorre com MySpace] vale mais do que YouTube, que já está sendo chamado de SueTube… algo como “Processe o Tubo”, porque o dono, agora, tem renda pra pagar processos… Vai ver, Mark Cuban, aquele que disse que só um idiota compraria YouTube, estava certo. Dodge faz algumas contas baseadas na possibilidade de monetizar visibilidade e tráfego do YouTube, algo que não está nem um pouco perto de acontecer e compara com o que está por trás e no futuro do FaceBook, segundo ele um site de muito maior potencial. O fato é que Google não pagou por nenhuma tecnologia, comprou uma comunidade.

A discussão no blog de Dodge, um respeitado analista de novos negócios, é ainda mais interessante: as pessoas perguntam porque a Microsoft –estranhamente?– não está comprando ou criando alguma comunidade… do tipo e tamanho do YouTube, por exemplo. E o sentimento parece ser que a empresa de Redmond está analisando o cenário para, alguma hora, aparecer com a comunidade que mata todas as comunidades [o chamado “winner takes all” – o vencedor leva tudo…]. Ocorre que o tempo passa e subconjuntos muito significativos dos usuários da rede fazem parte de comunidades que já têm uma cara de “winner takes all”, e estes ganhadores têm outros donos… que não a Microsoft.

Mas… é bom olhar em outras direções e ver, por exemplo, o que a Microsoft está fazendo com jogos e suas conseqüências para convergência digital. O Xbox Live e o Marketplace [mais do que uma comunidade, um mercado de coisas associadas a jogos…] ao redor do console, porta de entrada de uma grande comunidade de uso e prática de entretenimento global [que tem até “moeda” própria, os “Microsoft Points”…], são muito mais do que muita gente está pensando.

Há sete milhões de Xbox360 no mercado e 60% de seus donos está no Xbox Live [XBL], onde uma subscrição básica sai por US$ 50 por ano [contas: no momento, o XBL gera pelo menos US$ 200 milhões por ano]. A operação de vendas em torno do console ainda é deficitária [fala-se que a empresa perde entre US$ 50 e US$ 125 por console vendido] mas a receita empata com a despesa em 2006, incluindo jogos e serviços. E a Microsoft está apostando no lucro no setor em 2007, com 15 milhões de consoles no meio do ano [US$ 450 milhões de renda só no XBL…], e talvez uns 75 milhões em 2010 [faça as contas…].

Como é que isso vira uma comunidade? Só de jogos, já é; será ainda maior com a idéia de vender [mais barato] “episódios” de jogos, como se fossem partes de séries de TV, pois 80% dos jogadores não chega nos níveis finais dos principais jogos e não vêem razão para pagar o preço inteiro de certos jogos. Mas pegue o Xbox, ponha um navegador e uns drivers e você tem uma máquina que está na internet… pra ver vídeos de graça no YouTube; bote uma interface a mais e você tem uma TV digital [se for pelo ar, como as TVs das nossas casas; se for pela rede –IPTV– não precisa de muito mais, pois já foi lançada a versão com HD/DVD]. E o Zune, o iPod da Microsoft, é compatível com o Xbox, o sistema de “pontos” do Marketplace, com o Live.com e com sabe-se lá mais com o que está em estoque na máquina de Redmond. Inclusive com o Vista, o próximo Windows…

Isso sem falar de coisas como celulares mais sofisticados [“smartphones”] rodando Windows Mobile, que eram 3 milhões no fim de 2004, foram 6 milhões em 2005, serão 12 milhões este ano e a Microsoft espera dobrar a conta de novo ano que vem. Como? Conectando as coisas em XBL para sincronizar dados, fazer download de jogos, jogar… gastando os tais “points”… ou grátis, para incentivar Windows também em celulares.

Pra montar e manter isso é preciso gente brilhante e dinheiro, e muito dos dois, combinados com um plano muito bom e detalhadamente executado. Depois de dizer publicamente que Google está tornando difícil o recrutamento de talento de primeira linha, para a Microsoft, o CEO Steve Ballmer anunciou que vai aumentar sua aposta em pesquisa e desenvolvimento, dos US$ 6,2 bilhões [R$ 13.3 bilhões] de 2005-2006 [julho a junho] para US$ 7,5 bilhões [R$ 17 bilhões] em 2006/2007, 15% do faturamento de US$ 50 bilhões no período. Para se ter uma idéia do tamanho de tal esforço de pesquisa e desenvolvimento, se os recursos prometidos para o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico [FNDCT] do governo federal para 2006 forem efetivamente liberados e gastos, a República investirá R$ 1,2 bilhões, perto de US$ 500 milhões -ou quinze vezes menos do que os fabricantes de Windows- em pesquisa e desenvolvimento.

Resultado: talvez a Microsoft não esteja nem aí para o que está acontecendo nas comunidades da internet, a menos de sua própria família Live.com, porque é em boa parte de lá que espera construir o que talvez tenha sempre sido o sonho da empresa, uma “internet” dela. Isso deu errado lá no começo da internet porque, na época, não havia nenhuma internet sobre a qual a internet da Microsoft pudesse rolar. Agora, há. E pode dar certo, pois a empresa está construindo “sua” rede a partir de princípios bem fundamentados de rede, serviços, usos, usuários e receitas recorrentes. Dará certo? Não sei. Se Redmond não cometer os mesmos erros da America Online (AOL), talvez.

Uma coisa, porém, é certa: a Microsoft não está deitada, em berço esplêndido, esperando que o futuro chegue. Pode até não ser o maior vitorioso da guerra pelo domínio da internet, mas vai lutar todas as batalhas e atacar sempre, em muitos cenários, até o fim. Que não parece nem um pouco próximo.

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