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Escrito por • 17/12/2012

desconstruindo o futuro: se tudo for previsível, qual vai ser a graça?…

há um infográfico no site da CISCO sobre o que está sendo chamado da internet de tudo. o tudo, aqui, quer dizer nós e as coisas. na mesma rede. o tempo todo. e para sempre, daqui a algum tempo. porque houve um outro tempo em que parecia que iria haver uma internet da gente e outra, das coisas. mas é claro que não ia ser assim. vivendo todos no mesmo espaço, nós e as coisas, interagindo e interligadas, não ia dar outra, seríamos, como seremos todos parte da mesma rede.

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a metáfora da CISCO para a internet de tudo é uma gota d’água. não, nem pense que gotas d’água vão ter endereços IP. tudo indica que não chegaremos lá. a ideia é que uma gota, detectada por um sensor, fará funcionar toda uma rede de conexões e ações, capazes de fazer com que o futuro esteja muito mais sob o nosso controle do que o passado. será que tal amanhã, que começa agora, é mais legal que hoje?…

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quais são as implicações da gente tratar, quase que literalmente, cada gota d’água?

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num mundo instrumentado e conectado, além de se saber [pelas simulações que levam à previsão do tempo…] que iria chover, saberemos que está chovendo [isso é óbvio, não?] e qual é o impacto da chuva [isso não é óbvio]. cada chuva é uma chuva e o impacto da chuva em taperoá é um [quase sempre de graças] e, em são paulo, outro. mas, quando se juntar a previsão de tempo com a instrumentação do espaço, muitas gotas de chuva ao norte de uma metrópole como são paulo levarão a ações por todo o lugar, destinadas a mitigar o impacto de uma precipitação real acima da média. daí…

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…empresas de construção modificam seus processos, feiras mudam de lugar, ruas são bloqueadas para o tráfego, escolas suspendem as aulas [e o transporte escolar responde dinamicamente a isso]… tudo reage à mudança ambiental como se fosse parte [mesmo] do ambiente. uma espécie de gaia criada por TICs e seus efeitos. e tem mais…

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…porque não é só na cidade que as coisas e nós todos vamos estar juntos, na rede. no campo, sensores nas plantas [sim, talvez em cada planta] vão dar conta do que está se passando e talvez o fazendeiro saiba da queda da safra [ou do aumento da produção] em tempo real. por outro lado, pode ser que haja tempo, em função do acompanhamento de dados de sítios a dezenas de quilômetros de distância, para tomar medidas mais severas para proteger a sua plantação da geada. tudo, tudo muito mais eficaz, eficiente, produtivo, seguro, como na canção de radiohead.

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a promessa é que a “internet de tudo” vai melhorar muito nossas vidas, ao ponto em que gotas de chuva, “entendidas” pelos nossos futuros sistemas de supervisão e controle, terão grandes implicações nos nossos negócios, interações, bem-estar e o que mais você pensar. tudo será maravilhoso e surpreendente, é o que dizem.

e eu acredito nisso. acredito que teremos as tecnologias e aplicações que podem criar um cenário de dia-a-dia, real e universal, como o descrito pelo infográfico. mas tenho alguma dificuldade em acreditar que será surpreendente e maravilhoso. talvez até seja, do nosso ponto de vista, do presente, se a gente chegasse no futuro, daqui a uns 100 anos, e visse o que estaria rolando por lá. mas lá, no futuro, talvez nunca ninguém tenha a sensação da chuva chegando de vez na sua praia e futebol, molhando a tudo e a todos, provocando grande surpresa e correria geral, dando uma demonstração do não determinismo do mundo. aí, pode ser que o futuro, que a tecnologia talvez torne surpreendente e maravilhoso pra umas coisas… não seja nem um pouco pra muitas outras.

mas isso, como diria douglas adams, só afeta a nós, deste nosso espaço-tempo, que não chegaremos lá. os de lá, os do “tempo deles”, acharão tudo normal, até porque nunca terão vivido de nenhuma outra forma. e o futuro nunca se engana. pelo menos pra quem chegar –ou nunca houver saído de – lá.

mas, se no futuro for tudo previsível, controlável, qual vai ser a graça?…

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