MENU

Escrito por • 13/10/2011

desigualdade digital metropolitana no brasil

os pesquisadores luiz cesar de queiroz ribeiro, andré salata, lygia costa e marcelo gomes ribeiro, do instituto nacional de ciência e tecnologia observatório das metrópoles, estão estudando inclusão digital [PC em casa] e conectividade [acesso à rede em casa] nas metrópoles brasileiras. seu artigo "a reprodução digital das desigualdades: acesso e uso da internet, posição de classe e território" apresentado no encontro da ANPOCS de 2011, traz informação e reflexões interessantes sobre o estado da rede nas regiões metropolitanas.

no primeiro gráfico…image

…se vê que mais que dobrou a porcentagem de domicílios metropolitanos que possuem computadores pessoais. abaixo, se mostra a distribuição de PCs por níveis de renda na população, onde…

image

…descobrimos a desigualdade na posse de computadores se assemelha [como talvez não pudesse deixar de ser] à desigualdade na distribuição de renda no país. os 20% da faixa de renda mais baixa melhoraram muito [de 1,6% das casas com computador em 2001 para 13,6% em 2009] mas têm 1/3 da densidade de PCs da terceira faixa de renda e mais de 70 pontos percentuais a menos do que os 20% de maior renda.

entre os que têm computador em casa, o acesso a internet é melhor distribuído…

image

…porque computador é uma coisa por si só e outra, radicalmente diferente, com acesso à rede. mas enquanto o acesso se tornou quase universal entre os que têm PC em casa na faixa de renda mais alta, só 6 em cada 10 das pouco mais de 1 em cada 10 das casas mais pobres estão na rede.

redes têm um valor, como um todo, e para quem a elas pertence; segundo odlyzko, o valor de uma rede de N participantes tem uma forma parecida com Nlog[N]. o valor [V] da rede cresce menos do que N ao quadrado [a lei de metcalfe para redes do tipo web] e muito mais do que numa razão linear [a lei de sarnoff para redes do tipo broadcast como TV].

mudando de ponto de vista, tongia e wilson, III propõem que, a partir de um ponto onde a maioria das pessoas está em rede, o custo da exclusão é igual ao valor da rede [V]. tomando por base os dados do ibope/nielsen, que mostram 77,8 milhões de pessoas [a partir de 16 anos] online para uma população total [fora os de 15 anos ou menos, cerca de 46 milhões] de 145 milhões [todos os dados são aproximados], o brasil já tem mais da metade da população da faixa de idade considerada online.  consequência?

image

segundo a equação acima, isso quer dizer que já chegamos no ponto em que o custo de exclusão, para quem está fora da rede, é o valor da rede, que é imenso. quem está fora da rede está fora das redes sociais, está perdendo contatos, conteúdo e contratos, pagando custos de transação do passado quase no futuro. e, para cada pessoa que entra na rede, que fica fora tem um prejuízo cada vez maior.

visto de outra forma, a sociedade como um todo está mais conectada se o número de pessoas [ou lares] cresce dez pontos percentuais. mas o custo para quem está fora da rede pode estar crescendo muito mais.

a pergunta é… e agora, o que fazer? os dados e conclusões do observatório falam das metrópoles, nem mesmo as grandes cidades são consideradas. mas parece inquestionável que temos [ou teremos, em breve] a maioria da população online. daqui pra frente, portanto, o papel das políticas públicas pode ser muito mais importante do que no princípio da era da conectividade.

lá no começo da internet, as tecnologias não estavam maduras, eram caras e o estado não daria conta de trazer todo mundo pra rede, muito menos de fazer isso rapidamente. agora, quando a rede é quase commodity, pode ser a hora de por em ação um conjunto de políticas compensatórias para trazer os atrasados para a rede, em alta velocidade. o custo da exclusão, daqui pra frente, tornar-se-á cada vez maior e seu impacto social idem.

é aí onde deveria entrar [por exemplo] o PNBL. mas olhe esta notícia, bem recente: são paulo, o estado mais rico e conectado do país, concentra 2/3 das cidades atendidas pelo plano nacional de banda larga. contra as 233 localidades do estado, o PNBL chegou a 111 no resto do brasil. no nordeste, onde está o maior problema de acesso [e de distribuição de renda], estão apenas 7,8% dos lugares. e, mesmo onde chegou, parece [segundo esta outra notícia] o PNBL não tem o impacto que deveria ter.

banda larga [e não acesso, simplesmente] é uma das infraestruturas do presente [e não do futuro, como alguns querem]. banda larga deveria ter o mesmo status de água, eletricidade, esgoto, estradas… mas parece que tudo isso vai progredir da mesma forma de sempre, com os mais ricos e melhor estruturados chegando bem antes do resto, sem nenhuma política nacional efetiva o suficiente para equilibrar o país como um todo.

quer ver? olhe o mapa abaixo, da CNT, que mostra a qualidade das estradas de são paulo…

image

surpreende descobrir que a vasta maioria das estradas do estado é ótima ou boa? e que 2/3 das cidades do PNBL, ao mesmo tempo, está lá? vá ver o mapa das estradas do seu estado. e compare com o número de cidades, no seu estado, atendidas pelo PNBL até agora. exclusão é isso aí…

Artigos relacionados

0 Responses to desigualdade digital metropolitana no brasil

  1. Existem razões técnicas para explicar porque São Paulo terá um atendimento inicial maior em relação a outros estados da federação. A mais importante talvez seja o fato de que a infra-estrutura já esteja praticamente pronta, faltando apenas implementar, na maioria dos casos, a última milha. Além disso, o serviço será feito pelas grandes teles que têm maior presença nas regiões a serem atendidas. Essas empresas têm também o interesse em expandir a sua área de atuação e portanto ganhar mercado. Que motivo teria, por exemplo a Telefônica, para retardar a expansão em sua área de atuação?

  2. Existem razões técnicas para explicar porque São Paulo terá um atendimento inicial maior em relação a outros estados da federação. A mais importante talvez seja o fato de que a infra-estrutura já esteja praticamente pronta, faltando apenas implementar, na maioria dos casos, a última milha. Além disso, o serviço será feito pelas grandes teles que têm maior presença nas regiões a serem atendidas. Essas empresas têm também o interesse em expandir a sua área de atuação e portanto ganhar mercado. Que motivo teria, por exemplo a Telefônica, para retardar a expansão em sua área de atuação?

  3. PAULO NASC disse:

    Olá professor Meira: meritório levantar esses cenários com elementos tão convincentes quanto eficientes em escancarar nossas desigualdades regionais. E aí? Que fazer? Que instituições poderiam, a partir dessas demonstrações de desmantelo, partir para projetos consistentes? Procurar a Fundações Sarney? Quem sabe a Fundação Ranan Calheiros? Roberto Jeferson certamente já tem a sua e talvez fosse um endereço a evitar! É isso aí professor, o eixo da carroça está quebrado e a velha mula que a pucha está irrmediavelmente manca. Mas a Copa do Mundo vem aí e tudo se resolvera com a benção de Pelé e graça de Santo Eurico Miranda.

  4. PAULO NASC disse:

    Olá professor Meira: meritório levantar esses cenários com elementos tão convincentes quanto eficientes em escancarar nossas desigualdades regionais. E aí? Que fazer? Que instituições poderiam, a partir dessas demonstrações de desmantelo, partir para projetos consistentes? Procurar a Fundações Sarney? Quem sabe a Fundação Ranan Calheiros? Roberto Jeferson certamente já tem a sua e talvez fosse um endereço a evitar! É isso aí professor, o eixo da carroça está quebrado e a velha mula que a pucha está irrmediavelmente manca. Mas a Copa do Mundo vem aí e tudo se resolvera com a benção de Pelé e graça de Santo Eurico Miranda.

  5. Antonio Gonçalves disse:

    O comentário do Johnny explica muito bem, Sr. Sílvio. Afinal, o melhor posicionado sempre sai na frente.

    • srlm disse:

      não, antônio, acho que não. se estivéssemos falando de mercado e sua economia, certamente; mas esamos falando de política pública. e este e o problema: no brasil, as políticas públicas, em sua maioria, seguem o mercado, as infraestruturas que lá já existem… e aí temos resultados como o discutido neste texto.

      e isso é mais ou menos geral: a maioria das grandes ONGs internacionais que tem algum interesse no brasil age na periferia de rio e são paulo, ao invés de crrer atrás da raiz dos problemas, que quase nunca está lá. há exceções para estes dois e muitos outros casos… mas quase sempre é a mesma história. com os resultados que conhecemos.

  6. Antonio Gonçalves disse:

    O comentário do Johnny explica muito bem, Sr. Sílvio. Afinal, o melhor posicionado sempre sai na frente.

    • srlm disse:

      não, antônio, acho que não. se estivéssemos falando de mercado e sua economia, certamente; mas esamos falando de política pública. e este e o problema: no brasil, as políticas públicas, em sua maioria, seguem o mercado, as infraestruturas que lá já existem… e aí temos resultados como o discutido neste texto.

      e isso é mais ou menos geral: a maioria das grandes ONGs internacionais que tem algum interesse no brasil age na periferia de rio e são paulo, ao invés de crrer atrás da raiz dos problemas, que quase nunca está lá. há exceções para estes dois e muitos outros casos… mas quase sempre é a mesma história. com os resultados que conhecemos.

  7. Há desigualdade e ela vai prosseguir. O tema envolve o modelo de aplicações de informática baseado na web. Em muitos lugares é impossível. Daí o espaço que existe no modelo de apps, desses para smartphones e tablests, que funcionam desconectados. Um aplicativo profissional nesse modelo deve funcionar mesmo desconectado. A sincronização com a rede pode ser realizada nas vezes em que a conexão estiver disponível.

  8. Há desigualdade e ela vai prosseguir. O tema envolve o modelo de aplicações de informática baseado na web. Em muitos lugares é impossível. Daí o espaço que existe no modelo de apps, desses para smartphones e tablests, que funcionam desconectados. Um aplicativo profissional nesse modelo deve funcionar mesmo desconectado. A sincronização com a rede pode ser realizada nas vezes em que a conexão estiver disponível.