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Escrito por • 04/04/2010

e o futuro da sua história?

uma boa parte da história que conhecemos não vem de fontes oficiais mas das anotações e observações do que poderíamos chamar de “pessoas comuns”, que registraram o cotidiano ao seu redor, no seu tempo, mostrando como a vida e os acontecimentos afetaram seu dia-a-dia. são indivíduos registrando o seu ciclo de vida de informação.

no mundo digital, na sociedade da informação, onde não se manda mais cartas “físicas” –a última que mandei não chegou ao destinatário-, há um número de riscos bem claros de muito pouca informação sobreviver aos seus criadores, a menos que estejam a cargo de alguma instituição.

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não se trata só das contas e repositórios correspondentes nas redes sociais e blogs, que se tornarão inativas e que serão removidas, por não estarem sendo utilizadas vários anos depois da morte de seus autores. trata-se da morte, propriamente dita, de tais repositórios: num crime contra a a história da informação, yahoo resolveu tirar geocities do ar em outubro passado, quando o site ainda estava entre os vinte mais populares da web, em tráfego. um grupo de historiadores conseguiu copiar mais de um terabyte de dados do site que yahoo comprou dez anos antes por três bilhões de dólares mas que, segundo os críticos, “nunca entendeu”.

os geocities de hoje em dia são faceBook, orkut, mySpace, hi5, flickr [outro site de yahoo…], twitter, os repositórios onde estão nossos blogs e, de resto, mesmo para quem escreve a soldo, os noticiosos online para quem trabalhamos. tudo o que eu e mais um mundo de gente fez para a revista eletrônica NO., no começo da década passada, sumiu de vista. ainda resistiu no ar alguns depois do fechamento da empresa mas, enfim, virou kipple. salvei tudo o que escrevi e botei neste .PDF aqui… mas não é a mesma coisa. falta o contexto, as outras notícias ao redor, as manchetes e até a propaganda, também sinal e testemunha do seu tempo. isso acaba me fazendo ainda mais falta porque o software que publicava a NO. tinha um “túnel do tempo” que criava viagens de volta a um texto de 2001 no contexto do dia em que foi publicado, como se pudéssemos atrasar o relógio para o dia da publicação. o time que fez o software [eu dentro dele…] tinha muito orgulho desta capacidade. mas de que ela serve se o site, pura e simplesmente, sumiu?…

mais interessante ainda é que a informação na web parece ser tratada de forma intrinsecamente extemporânea: entre setembro de 2006 e dezembro de 2007, escrevi uma coluna semanal para o G1; ao todo, foram 66 textos, muitos dos quais fizeram a primeira página do site e outros tantos que continuam absolutamente atuais, posto que não tratavam da última funcionalidade de um aplicativo ou site qualquer. clique no link que leva para o arquivo de textos antigos do G1 e você vai descobrir que… o arquivo inteiro –e não só meus textos- saiu do ar desde junho de 2009, sem deixar rastro. de novo, e não por mero acaso, guardei os meus, que hoje disponibilizo como presente de páscoa neste link. boa leitura. diga-se de passagem, tal tratamento não é um “problema” do G1, mas uma “característica” da vasta maioria dos sites.

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como a maioria dos mortais, mas em um outro nível de competência, a british library está preocupada com a sobrevivência das coleções digitais pessoais, e uma de suas ações nesta direção é o digital lives research project [o blog do projeto está neste link], cujo primeiro relatório acaba de ser publicado. pra deixar claro de quem estamos falando, a BL tem preciosidades digitalizadas como este site com dois milhões de páginas de jornais do séc. XIX e os ingleses, seu público alvo primário, são colecionadores natos.

talvez seja mais fácil fazer uma iniciativa como planets [acrônimo para Preservation and Long-term Access through Networked Services] funcionar no reino unido do que no brasil. ou não: como não temos, ainda, um legado digital tão grande quanto o deles, informatizados há bem mais tempo do que nós, bem que poderíamos não perder tanto quanto eles já perderam… se começássemos a agir rapido e direto aos pontos, agora.

os problemas sendo tratados no digital lives research project não não são simples: vão desde a ética e regulação da informação pessoal [infoética] ao estudo da evolução das plataformas digitais de representação de informação, passando por curadoria e administração adaptativa de arquivos digitais pessoais, sistemas de gestão de informação pessoal, usabilidade da informação preservada, catalogação [colaborativa]… em suma, um mundo de preocupações e, possivelmente, técnicas, métodos, processos, padrões, sistemas e modelos de negócio que vão resultar do projeto. muitos dos quais, talvez, vamos acabar adotando e comprando.

em boa parte, é pra isso que servem, também, projetos como este, da british library, e o europeu planets: criar tecnologias que avançam o estado da prática, que resultam na adoção, pelo mercado, de produtos e serviços que resolvem [ou melhoram a solução de] uma classe de problemas.

afinal de contas, seria muito interessante que houvesse um serviço [privado e público] para dar conta de um ciclo de vida de informação pessoal cujo modelo simplificado [!] é mostrado abaixo… de forma que, gerenciando uma linha do tempo de informação que criássemos ou adquiríssemos, tivéssemos como localizar, acessar, manipular, transformar, transferir, compartilhar, guardar e, eventualmente, descartar o que não mais quiséssemos. clique na imagem, que está ilegível, pra pegar o relatório onde você pode vê-la em detalhe.imageisso vai rolar. quando? vindo de quem? do povo que quer organizar toda a informação do planeta, hoje? talvez não. eles já têm um legado muito grande a administrar… e não conseguem responder a contento questões sobre a ética da informação privada e, em particular, sobre sua segurança e privacidade. é bem provável que as soluções venham a ser compartilhadas, em rede, onde cada um tenha –mesmo- controle sobre seu ciclo de vida de infromação pessoal. mas parece que ainda vamos demorar muito a chegar lá.

tomara que, até o futuro chegar, não percamos muita coisa relevante. enquanto isso, vá ler esta parte da história que eu acabei de recuperar, meus 66 textos para o G1

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5 Responses to e o futuro da sua história?

  1. Hugo Souza disse:

    Opa prof.

    primeiro parabéns pela recuperação dos seus artigos. É uma coisa bem interessante essa coisa da cloud computing onde divulgamos a informação de forma dinâmica e sinistramente não sabemos como, quando, onde são armazenados esses dados. O professor deve se recordar ou ter lido relatos de pessoas que simplesmente perderam ou sumiram e-mails, videos, fotos. Enfim, um meio que nós encontramos de guardar parte das nossas vidas. Os dados são criados e armazenados a partir de aplicações criadas por empresas privadas, mas os dados os pertence? Por vez nos deparamos com empresas como a Google e outras empresas digitais travando batalhas na justiça ou com o poder público de país por motivos de privacidade dos dados dos usuários. Esses dados pertencem a nós? A empresa? Quais leis os regem? Temos uma mania de guardar os nossos arquivos em cds ou dvds, mas isso tem uma validade. Dizem que um cd tem o prazo de validade de 100 anos. E qual o prazo da internet? É mais curto? Mais longo? Ainda, se a população mundial, aliás, apenas de uma cidade organizasse sua informação: que belo filme de ficção daria, hein? Algo ao inverso de Kubrik? Um dia quem sabe…

  2. Bruno disse:

    Show!!!

    Blog –> http://www.mobilando.blogspot.com/
    Twitter –> @bruleal1

  3. Pedro Daltro disse:

    Sílvio, li seu texto logo de manhãzinha. Mais agora, para o final da tarde, fui no site do Nick Carr e encontrei isso aqui:

    We live, it seems, in a golden age of documentation. But that’s not quite true. The problem with making a task cheap and effortless is that the results of that task come to be taken for granted. You care about work that’s difficult and expensive, and you want to preserve its product; you don’t pay much attention to the things that happen automatically and at little or no cost. In Avoiding a Digital Dark Age, an article appearing in the new edition of American Scientist, Kurt Bollacker, of the Long Now Foundation, expertly describes the conundrum of digital recording: everything’s documented, but the documents don’t last. The problem stems from the fact that, with digital recordings, we don’t only have to preserve the data itself; we have to preserve the devices and techniques used to read the data and output it in a form we can understand

    http://www.roughtype.com/archives/2010/04/digital_decay_a.php
    abs

  4. interessante mas... disse:

    ponto interessante, mas…

    isso sempre aconteceu. a diferença é que antigamente 99.999% das pessoas falavam para as paredes,

    hoje em dia, 99.999% das pessoas falam para alguém que escuta, memoriza por um tempo e depois esquece tudo, o que, no longo prazo, é o mesmo que falar para as paredes.

  5. Bem,

    Falo sobre duas vertentes. Como analista de sistemas é factível, embora deplorável a idéia de ter cerciado o sagrado direito de ter nossos registros deixados para posteridade, contudo acredito que a visão capitalista ainda é o principal motivo da destruição de áreas de armazenamento públicas, como era o caso do geocities, enquanto era lucrativa e estava no planejamento da yahoo era viável sua manutenção, mas é só uma mudança de cenário para que a coisa seja repensada e seus usuários deixados de lado com seus bytes documentais. Como historiador, não creio que haja um impacto considerado na visão histórica, concordo com o professor quando conceitua que a história é “contada” pelo registro do homem no seu tempo. A questão é que temos que levar em consideração que o fluxo de informações atualmente supera qualquer outro momento da história da humanidade, e a história do homem comum, segundo os conceitos da Nova História é caracterizada pelo testemunho, que é apenas mais um instrumento do estudo da história como ciência, evidentemente, se levarmos em consideração que quando um historiador do século XXII, por exemplo, estudar a sociedade do século XXI terá fontes muito mais notórias, fidedignas e abundantes do que nós historiadores do século XXI estudando a primeira metade do século XX.

    abraços