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Escrito por • 11/06/2011

e quando os livros de papel desaparecerem?

no tempo que o conhecimento mundial, formal e informal, estava publicado em livros, editoras, livrarias e bibliotecas, públicas e privadas, guardavam os livros físicos. e bibliófilos como josé mindlin deixavam para a humanidade coleções de valor inestimável como a brasiliana, contendo preciosidades como A Relação da entrada que fez o Excelentíssimo e Reverendíssimo Bispo D. Fr. Antonio do Desterro Malheyro, Bispo do Rio de Janeiro […], o primeiro livro [um folheto de 24 páginas] impresso no brasil, em 1747. clique na imagem e vá ver a história composta pelo doutor luiz antonio rosado da cunha, entre outros afazeres… “provedor de defuntos”.

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mas… e quando o livro físico, de papel, desaparecer completamente, como parece que vai ser o caso, quem dará conta da preservação dos arquivos digitais que o representam, ou que representam seus substitutos, de tal forma que daqui a 250 anos seja possível ter acesso ao conteúdo deste blog, exatamente como está sendo publicado agora, nem que seja para reclamar do estilo do autor?…

aí está um problema monumental, ao qual se dedica muito pouca atenção. ao ponto de que o único projeto de preservação do conteúdo de parte da web é o internet archive, onde você pode olhar como era minha “home” em janeiro de 2000. a ideia do archive, projeto de brewster kahle, é criar uma biblioteca digital da internet, o que significa tentar manter cópias de todas as páginas da rede à medida que ela evolui. o archive tem 150 bilhões de páginas guardadas e, óbvio, está muito longe de representar toda a riqueza do passado da web. mas é um esforço gigantesco, e muito bem realizado, nesta direção. até porque o archive não é só de “páginas”: vá ouvir um dos mais de 90.000 concertos ao vivo ou ler algum dos mais de 2.800.000 textos que estão depositados lá.

em when hard books disappear, kevin kelly analisa o livro no nosso tempo e diz que, em algumas gerações, vai ser tão esquisito para um ser humano ver um livro de papel quanto é, hoje, ver um leão ao natural. verdade.

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a menos que se vá ao internet archive: kahle está guardando, de forma segura, pelo menos uma cópia física de cada livro digitalizado, até porque, quem sabe, talvez seja preciso, por uma razão qualquer, redigitalizar o mesmo livro daqui a, digamos, décadas. é pra isso que servem os containers acima. vá ler a história inteira aqui.

mas e o material nunca impresso, como este blog? bem… provavelmente vai se perder de vez, alguma hora. pra começar, a página robots.txt daqui não deixa a wayback machine do archive copiar o conteúdo. vai ver isso vale para todo o terra.com.br. a vida de um blog depende de sua hospedaria: meus 100 textos para a revista eletrônica NO. entre 2000 e 2002 só existem, ainda, porque eu mesmo os preservei neste link. NO. desapareceu há quase uma década. e você pode deixar de existir no hospedeiro: meus 66 textos para o G1, publicados entre 2006 e 2007, sumiram da web há anos e foram preservados por mim mesmo neste link. cuide dos seus, pois…

conclusão do texto de kevin kelly sobre o archive?…

A prudent society keeps at least one specimen of all it makes, forever. It still amazes me that after 20 years the only publicly available back up of the internet is the privately funded Internet Archive. The only broad archive of television and radio broadcasts is the same organization. They are now backing up the backups of books. Someday we’ll realize the precocious wisdom of it all and Brewster Kahle will be seen as a hero.

mindlin foi um herói para os livros brasileiros, para a cultura brasileira. kahle é um herói para a internet, para a cultura mundial. ocorre que o foco dele é a língua e a cultura inglesa, por razões óbvias. pra nós, resta a pergunta: de onde está vindo nosso mindlin digital e, ainda mais, porque ele já não está, há anos, cuidando de preservar uma parte significativa da web.BR?…

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[acima, um snapshot do que restou da NO.; clique para ver no archive.]

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0 Responses to e quando os livros de papel desaparecerem?

  1. PAULO NASC disse:

    Olá professor Meira – Fui até lá no “wayback.archive.org/web” e resgatei toda série “Uma história idiosincrática da simplicidade” (parece que o 10º artigo não foi publicado) de João Moreira Salles que havia perdido. Lá no “pt.scribb.com” de fato está todos os seus arquivos do G1. Legal mesmo, facílimo de acessar e saber que há quem se interesse em preservar essa massa descomunal de informações. Um abraço.

  2. fabiana disse:

    O padrão MPEG-21 pode contribuir na preservação dessas informações como formato de arquivamento de conteúdos que aproveita muito do legado de outras normas… no entanto, para que a proposta de um framework tão abrangente gere resultados é preciso mais do que iniciativas específicas dos meios de comunicação e da “indústria da informação” em geral.

  3. h.d.mabuse disse:

    Pois é SIlvio! O mangueBit original mesmo, que ficava na emprel em 1995 nao existe mais. Acho que é um engano muito grande achar que o conteudo digitalizado, por suas caracteristicas digitais, é mais duradouro que o papel. E a bronca continua para outras áreas, trabalhos de Netart estao impossiveis de se ver hoje por mudancas triviais como nos browsers ou padroes de html. Por coincidencia tenho lido muito sobre o assunto e tem um livro curto e substancioso chamado Preservação de Acervos Bibliográficos – Homenagem à Guita Mindlin (http://portalliteral.terra.com.br/lancamentos/preservacao-de-acervos-bibliograficos-homenagem-a-guita-mindlin) onde em alguns artigos aparecem informacoes bem interessantes sobre o custo de manutenção de bibliotecas digitais até a queda de qualidade dos livros que saem hoje das editoras e que nao se prestam a posteridade. Livros lançados 10 anos atras que estao em pior qualidade de conservacao que o de 1747 citado acima.

    O que se esquece é que o livro, na forma que é hoje, capa/encadernacao/miolo é uma tecnologia sofisticadissima. E autonoma, independente de plataformas 🙂

  4. João Paulo disse:

    Informações sempre foram perdidas, impressas ou não, ao longo de toda história humana, assim como várias especíes de animas, vegetais, etc. sumiram ou deram lugar a outrras, mais eoluídas. Não vejo nenhum problema nisso.