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Escrito por • 02/02/2011

educação empreendedora: 2

este post é parte de uma série sobre educação empreendedora, derivado de uma palestra dada no sebrae nacional, em brasilia, no 27 de janeiro passado. pode até ser que você entenda o texto que se segue sem ler os posts anteriores; mas os textos foram escritos como se fossem uma palestra, uma conversa, o que significa que há uma sequência, começo meio e, espero, um fim, uma conclusão que faça sentido.

o primeiro post da série está neste link… passe por lá, até para entender o preâmbulo e contexto desta conversa.

nesta série, antes deste texto: 1; depois3. simbora.

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se precisamos de uma combinação efetiva de educação e oportunidades de qualidade para criar esperança e as duas primeiras dificilmente ocorrem no vácuo… então… qual é o…

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…na construção de um cenário sócio-econômico que leve à combinação de uma população empreendedora preparada para aproveitar as oportunidades que apareçam [naturalmente] ou sejam criadas [por ação dos instrumentos de políticas públicas]?

há quase uma década, tive a sorte de participar de uma longa conversa de craig barrett, então presidente da intel, com ministros da área estratégica, de desenvolvimento e economia do governo brasileiro. os ministros falavam de seus planos [a maioria nunca chegou ao papel, quanto mais sair dele…], perguntavam e vez por outra voltavam ao mesmo ponto: "por que a intel não abre uma fábrica de chips no brasil?" ao fim da reunião, resumi as múltiplas explicações de barrett, todas apontando para os deveres de casa que o brasil não estava conseguindo fazer, nem bem nem mal, em três frases que passaram a representar, para mim, quais são os papéis fundamentais do governo, qualquer que seja, e dos agentes de políticas públicas [como o sebrae].

o primeiro papel do governo é…

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pelo que sabemos e esperamos, esta é a "década da educação" no brasil. o papel do governo federal será crucial neste quesito, pois o caos educacional nacional transcende, em muito, o velho bordão de "mais investimentos em educação". os sistemas nacionais de ensino –em todos os níveis- e seu acoplamento com as demandas humanas, econômicas e sociais precisam ser revisados e, em certos casos e regiões inteiras, completamente reimplementados.

a educação brasileira precisa sair dos "projetos-piloto" educacionais, para os quais temos prêmios internacionais em profusão, mas cuja implementação em escala nacional [ou estadual, que seja…] é uma confusão, isso quando há alguma tentativa de implementação. a educação fundamental, que é onde se ganha ou se perde os aprendizes quase de uma vez por todas, precisa ser resolvida de uma vez por todas, se esta vai ser mesmo a tal "década da educação".

e isso envolve mudanças radicais: como ter um ensino fundamental eficaz, minimamente coerente e eficiente se cabe a cada prefeito, em cada cidade, decidir o que e como ensinar aos muito jovens? isso quando, graças aos céus, se ensina alguma coisa. nunca deixei de ficar assustado ao encontrar alunos de pós-graduação [sim, eu disse pós!], na ufpe, cujo domínio da língua portuguesa lembra o dos semi-analfabetos do meu tempo de ginásio.

e as mudanças não param por aí e tem pouco a ver com o "hardware", os prédios e os laboratórios [e os recursos financeiros] para a educação. o nosso maior problema educacional em todos os níveis é o "software", o conteúdo, métodos e professores e instrutores, em sua quase totalidade despreparados para criar as oportunidades de aprendizado para o mundo competitivo em que nos encontramos hoje e em que viveremos pelos próximos séculos.

o país tem que escolher que futuro vai querer; tomara que esta escolha envolva mais e melhores conteúdos e práticas de lógica, matemática, computação, biologia, física e química para melhorar a qualidade de nosso peopleware, educando muito mais gente nos fundamentos para participar da economia do conhecimento como cidadão de primeira classe.

o segundo papel do governo e dos agentes de políticas públicas é…

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…criar oportunidades de desenvolvimento pessoal, social, empreendedor e econômico, olhando para o futuro assim como dando conta das demandas complexas do presente e compensando o passado, trazendo para o mercado os que não tiveram, quando deveriam estar na escola, as oportunidades de aprendizado que deveriam ter tido.

parece complicado? é mais do que isso, é muito complexo [leia mais sobre o assunto neste link]. uma coisa é complicada quando temos uma boa possibilidade de convencer os atores e interessados de que algo deve ser feito mas não conseguimos estabelecer ao certo o que este "algo" deve ser. e uma coisa é complexa quando não estamos na zona de conforto nem das certezas sobre o que fazer nem tampouco na de possibilidade de acordo para fazer o que eventualmente se decida.

deixado por muito tempo ao sabor do tempo e do vento, um sistema complexo pode se tornar caótico e, quando isso acontece, é preciso muita energia e tempo para se trazer o processo de criação de oportunidades para uma região de média ou baixa complexidade. simples tal processo nunca é, pois a evolução de um mercado e seus agentes, especialmente em tempos de economia do conhecimento, é um processo essencialmente arriscado e inovador, cheio de perguntas [quase nunca feitas] sem respostas… que quando ocorrem, não são óbvias de maneira nenhuma.

se as pessoas estão sendo educadas e o processo de criação de oportunidades está em andamento, o próximo papel do estado é…

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…o que é sempre muito mais delicado e complexo em sistemas políticos, sociais e econômicos como o nosso, consideradas nossas origens e tradições.

a tradição nacional dos poderes, em todas as facetas e níveis de governo, é a de promover e sustentar um "estado tutor", que não é nem forte nem fraco para as necessidades do país. trata-se de um estado intrusivo, disperso, difuso, ao mesmo tempo confuso e incoerente ao lidar com pessoas, instituições, empreendimentos e suas demandas e tempos.

se você acha que é difícil abrir uma empresa, tente fechar uma. o processo é quase kafkiano. se pensa que é difícil obter uma licença de construção, que tal tentar, depois de pronto o imóvel, tirar um "habite-se"? o prédio onde moro tenta há cinco anos… e, claro, o fato da prefeitura não conceder o habite-se não impede que todos moremos lá e que sejam cobrados todos os impostos.

o estado "na frente" [e não "à frente"] de tudo atrapalha muito mais do que ajuda; vai contra os processos de criação de oportunidades em maior qualidade e quantidade, inclusive as educacionais. o estado que legisla demais, sobre absolutamente tudo, inevitavelmente cria um sistema inconsistente de normas e regras que nos deixa, a todos, pessoas e empresas, de alguma forma ilegais. e isso, como não poderia deixar de ser, forma a base do processo de "criar dificuldades" para "vender facilidades".

sair da frente é simplificar o país. sair da frente é diminuir o "custo brasil". mas sair da frente não é deixar os agentes econômicos agirem ao seu bel prazer, e sim estabelecer limites, direitos e deveres e, depois, cobrar.

mas uma parte significativa dos órgãos de governo vem promovendo uma acelerada informatização do caos que pode travar o país em pouco tempo. sem simplificar o ordenamento ao qual estamos sujeitos, informatizar toda sua complexidade torna a vida das empresas e empreendedores muito mais difícil do que é suportável, principalmente para as pequenas empresas. e o resultado é a falta de competitividade das empresas nacionais no mercado internacional, isso quando elas sobrevivem à complexidade do processo de crescimento e se tornam, pelo menos localmente, sustentáveis.

mas… mais um congresso acaba de tomar posse e, mais uma vez, ouve-se vozes, aqui e ali, falando de reformas: política, fiscal, administrativa e muitas outras. em uníssono, qual manifestantes insatisfeitos com as condições para empreender e criar trabalho, emprego e renda no país, deveríamos clamar por um conjunto de reformas que simplificasse a vida nacional. aí, sim, mudaríamos de patamar competitivo e tudo, inclusive educar gente e criar oportunidades, seria mais fácil e menos caro.

daí…

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…estaríamos bem mais perto de criar um…

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…propício à…

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como assim… novos negócios inovadores de crescimento empreendedor?…

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…ou, ainda melhor…

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…porque todo negócio, novo ou velho e como qualquer coisa em uma economia em rede, se tornou fluxo e está em estado de permanente mutação, afetado por todos os outros negócios e contextos ao seu redor, como o blog já discutiu nesta série sobre planos e picos no mundo real [em rede]. vá ler.

no próximo capitulo, vamos começar procurar respostas para esta pergunta, que talvez mais do que qualquer outra define a alma e essência dos negócios que têm mais chance de dar certo na economia dos nossos tempos. até lá.

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0 Responses to educação empreendedora: 2

  1. Elaine G.M de Figueiredo disse:

    Se for considerar a “economia dos nossos tempos” como sendo Brasil, ai é mais difícil prevê, pois veja, segundo o FMI, o Brasil será a 7ª economia do mundo em 2011, ainda afirma que nos últimos anos, a economia brasileira ultrapassou em tamanho a canadense e a espanhola. Mas porque será que a nossa realidade ainda é diferente desses países? E nossos negócios mais diferentes ainda? Esse último texto de SRLM responde em partes essas perguntas quando ressalta: “educar gente”; “criar oportunidades” e “sair da frente”. Grandes desafios a todos nós !!!

  2. Deranor Gomes disse:

    Gostei de seu texto, mas fiqueim preocupado quando você fala de colegas quase analfabetos na UFPE, no entanto, você inicia seus textos em letra minúscula e escreve Brasil com”b”. Pode ser uma jogada de marketing… mas deveria ser utilizada num texto com essa qualidade de conteúdo.. Sou também um apaixonada pela educação empreendedora. Acredito num pais soberano social e economicamente se tivermos um povo educadado para o empreendedorismo, tanto de negócios como pessoal.

    • srlm disse:

      deranor,

      nao fique preocupado nao; minha escolha de textos em minusculas no principal [e sem acentos, tambem, nos comentarios…] esta justificada aqui, neste link: http://bit.ly/9LbOx1. alguma hora, lendo seu comentario, fiquei preocupado que voce pode estar preocupadO com umas coisas e também apaixonadA por outras. portugues, definitivamente, não é uma lingua trivial.

      ah, sim: a defesa de escrita culta com minusculas, apenas, nao e e nunca foi minha; e obra da bauhaus, de 1925, como voce pode ver neste link: http://perpenduum.com/2008/07/bauhaus-abolished-capital-letters/.

      boa leitura e grande abraco. s

  3. PAULO NASC disse:

    Sensacional, Professor Meira, nada menos que isso, sensacional essa linha de pensamento. A continuar assim, com essa persistência digna de um Sísifo taperuaense, ainda vamos aclamar o Paulo Freire do Século XXI: você. Só que com melhores chances de ser mais bem sucedido. Lá da eternidade Paulo Freire e esse seu admirador Paulo Nasc torcem por você. Abraço.

  4. Marcelo disse:

    Caro Silvio Meira,

    assisti uma parte do programa 3a1, na TV Brasil, e me interessei por um comentário que você fez, sobre algumas operações lógicas básicas necessárias para a programação. Gostaria de ter mais informações sobre isso, pois sou professor de ensino médio e penso que poderia trabalhar esse tema com meus alunos, em aulas de filosofia. Será que você poderia sugerir algum link ou outra fonte de informação sobre o assunto, já que peguei o programa de ontem já começado e não consegui anotar os detalhes das operações lógicas que você mencionou?

    Agradeço a atenção,
    Marcelo Guimarães

  5. Silva disse:

    03/02/2011 – 04h00
    “Em dez anos, desistência em universidades de SP dispara”

    http://www1.folha.uol.com.br/saber/869965-em-dez-anos-desistencia-em-universidades-de-sp-dispara.shtml

  6. Angelo Brito disse:

    Ótimo post professor,
    Eu concordo com o que o senhor disse de que o Brasil precisa, urgentemente, de uma reforma na Educação, todo esse sistema está antiquado, ultrapassado e precisamos reformá-lo. Sei que não é o único que precisa de reformas, mas creio que seja o primeiro que impede o Brasil de crescer mais. Como então podemos pressionar os políticos a realizarem essa reforma? Como podemos resolver essa questão? Que atitudes deveríamos tomar em prol desta causa? São as perguntas que sempre martelam na minha cabeça quando falamos sobre isso… O senhor tem sugestões? Abraço

  7. Por que paramos de ensinar?

    Há uma situação insustentável, com a qual os sistemas públicos vêm se deparando, e tentando resolver, desde a década de 80.

    Nossos índices de reprovação são absurdos e essa é a maior causa da evasão escolar, conseqüentemente. Ou seja, meninos e meninas, reprovados seguidamente, acabam abandonando a escola. São gerações e gerações vivenciando esse processo. O resultado não pode ser outro: desemprego, alastramento das ocupações informais e gente morando nas ruas.

    Reverter esse quadro é tarefa das grandes.

    Primeiramente, há que se levar em conta que vivemos numa estrutura escolar forjada no século XIX e com a qual lidamos até hoje: isso se manifesta desde a ocupação física da sala de aula – com carteiras dispostas umas atrás das outras – até a organização curricular – aulas de 50 minutos, de disciplinas diferentes, sem qualquer ligação entre elas, passando pelos cânones disciplinares, que mais parecem os de um quartel, do que de um local onde se aprende e se constrói conhecimento.

    Aliás, esse último item não é reconhecido pelos próprios professores, uma vez que ainda se trabalha com a idéia de que a escola é local para “passar” informações, e não para criar conteúdo.
    Junte-se a essa receita infalível o fato de que, a partir da década de 70, com a universalização do ensino, imposta por Lei Federal, as escolas passaram a receber, em massa, crianças e jovens das classes populares, que nunca se livraram do estigma de “não aprendem porque são pobres, e se são pobres comem pouco e mal, e se comem pouco e mal, seus neurônios não se desenvolvem como deveriam…”, portanto, acredita-se:eles não aprendem.

    Um outro dado relevante é que a Academia que forma professores – que deveria sair na frente, propondo soluções e acompanhando o progresso de pesquisas e experimentando-as – continua a ser a mais retrógrada das instituições, a que tem mais dificuldade em avançar em qualquer proposta de mudança. É a manutenção do “status-quo”.

    Nesse sentido, reprovar em larga escala os alunos compõe um quadro coerente.

    O que, na minha opinião, é mais desastroso nisso tudo, não é o fato de se reprovar, mas é o fato de não se ensinar! Essa é a grande questão. Se estivessem reprovando alunos e, os aprovados estivessem saindo da escola muito sabidos, eu dava a mão à palmatória. Os meninos e meninas saem das escolas sem saber muita coisa, além do que teriam aprendido se não tivessem freqüentado escola alguma! Os alunos não pararam de aprender. A escola é que parou de ensinar – ou insiste em ensinar o que não tem sentido, não tem significado.

    Os índices de reprovação são lastimáveis? São, sem dúvida alguma, e há que se estudar a respeito do desenvolvimento da inteligência, para se perceber que o ser humano é um ser potencialmente “aprendente” – não devemos reprovar, pelo simples fato de que não desaprendemos; a reprovação leva à evasão? Perfeitamente. É ato contínuo. Mas não adianta apenas termos “escolaridade estatística”, é preciso que as pessoas se apropriem do conhecimento.

    Se isso vai afetar a produtividade de um país, o que vocês acham?

    Denise

  8. madalena disse:

    professor silvio, vi sua entrevista na TV e me encantei.
    e para começar nosso diálogo seguem umas idéias:
    – talvez no mundo atual a questão principal não seja uma preparação das pessoas para a economia competitiva, mas uma preparação que reflita princípios éticos, capacidade de tomar as próprias decisões, fazer escolhas e viver em cooperação.
    – há muito mesmo que se fazer em termos de educação no brasil. talvez, de início, re fletir sobre o próprio significado de educação e sobre como desenvolver uma prática educacional (tanto em termos de hardware quanto de software) de modo a privilegiar a rica diversidade de nosso país.
    – uma educação voltada ao aprender a aprender, aprender a perceber e respeitar o outro e o meio em geral, aprender a estimar-se, a sonhar, a perceber as próprias potencialidades e as oportunidades presentes no meio em que se vive, aliada ao acesso a instrumentos e informações, não seria uma educação empreendedora?

    vou continuar lendo seus textos. parabéns e obrigada !