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Escrito por • 11/02/2011

educação empreendedora: 7

este post é parte de uma série sobre educação empreendedora, derivado de uma palestra dada no sebrae nacional, em brasilia, no 27 de janeiro passado. pode até ser que você entenda o texto que se segue sem ler os posts anteriores; mas os textos foram escritos como se fossem uma palestra, uma conversa, o que significa que há uma sequência, começo meio e, espero, um fim, uma conclusão que faça sentido.

o primeiro post da série está neste link… passe por lá, até para entender o preâmbulo e contexto desta conversa.

nesta série, antes deste texto: 1, 2, 3, 4, 5, 6; depois, nenhum, ainda. simbora.

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estamos discutindo, desde o texto anterior da série, os grandes problemas que o candidato a empreendedor tem que, senão resolver, pelo menos se perguntar seriamente antes de começar um novo negócio. como todo negócio é essencialmente gente, a primeira pergunta é se nosso empreendedor conseguiria…

foi isso que discutimos longamente na conversa anterior. não sei se ficou claro, lá, que um dos principais problemas que "educação empreendedora" tem que enfrentar é o de preparar, de criar oportunidades para que os aprendizes, em primeiro lugar, entendam que este é um problema a ser tratado em suas vidas profissionais, como empreendedores ou não. mesmo que nosso educando não seja candidato a empreendedor, deve entender quais são as aptidões que devem ser adquiridas ou aperfeiçoadas para fazer parte de um time vencedor.

e não se trata meramente de participar de trabalho em grupo na escola ou na universidade. estamos falando de projetos de longo prazo, que podem levar muitos meses ou anos para ficar prontos e que vão exigir uma boa combinação de competências, comprometimento, dedicação e jogo de cintura, entre muitas outras capacidades.

vamos assumir que, mesmo sem estar devidamente preparado, nosso candidato a empreendedor sabe que tem este problema e vai tentar resolvê-lo ao longo do processo. afinal de contas, nenhum de nós estava preparado na partida mesmo; aprendemos a maior parte das coisas no caminho e por causa dele e das escolhas que foram feitas ao longo do tempo.

o próxima pergunta que nosso novo negócio inovador de crescimento empreendedor vai ter que dar conta é… conseguiremos…

…que é o assunto de nossa conversa de hoje. e que por acaso não é nada fácil, até porque a maioria dos produtos, em rede [e especialmente os baseados em tecnologias da informação e comunicação] é, em boa parte, serviço, coisa que tem vida quase própria.

criar um produto não é ter uma idéia, tampouco ter uma idéia validada, com base científica e uma patente por trás. se assim fosse, teríamos visto um crescimento radical do número de novos produtos "designed in brazil" nas últimas duas décadas, em função do aumento da produção científica brasileira no período. mas não é assim que funciona.

produtos e serviços são "desenhados", tradução mais ampla do que a usual para o inglês "design". desenhar, aqui, significa criar experiências de uso para usuários que têm demandas reais e [ou] potenciais e fazer isso de forma consciente. não vai ser a primeira vez que falamos de "social" nesta série, mas o fato é que o "desenho", o processo de criação de um produto ou serviço é uma atividade inerentemente "social".

product design

tad toulis diz [muito bem, por sinal] que está na hora da gente [do ponto de vista pessoal e organizacional] deixar pra trás o DIY [do it yourself, faça sozinho] no processo de desenho de novos produtos e serviços e partir para DIWO [do it with others, faça com os outros], envolvendo toda a rede de valor [o que inclui uso e eventual terminação] do produto ou serviço que vamos propor ao mercado.

é claro que se nossa oferta for muito inovadora, haverá poucos "outros", a princípio, com quem "fazer". mas isso é parte do processo de montar o tal time vencedor lá do texto anterior. o time, no seu novo negócio, tem centro e periferia e a periferia é muito difusa. nenhuma empresa pode mais pensar em, a priori, dominar o processo de desenho de um novo produto e isso tem que ser pensado em rede.

mas não só: também faz tempo que o desenho de um produto deixou de ser feito de forma ad hoc, talvez como efeito colateral de um grupo de pensadores reunidos numa sala ou centro. estamos falando da existência de processos, muito deles e não um só. mas, seja qual for o processo de desenho de produto que você escolha, leve em conta que criatividade não é a mesma coisa que inovação. as duas são componentes essenciais do processo de design de seu produto ou serviço, mas ele deve satisfazer um certo conjunto de condições para ir ao mercado.

primeiro, que necessidades você vai atender? já tem alguém atendendo? sim? mesmo assim, existe uma oportunidade para seu produto neste cenário, também? por que? para quem, a que custo? se não há ninguém atendendo a demanda que você descobriu, é bom fazer um estudo dos porquês e descobrir, no processo, quais são as razões de ninguém estar na cena e qual o esforço que seu time teria que fazer para chegar lá.

depois, há o como: literalmente, como a tal da necessidade vai ser atendida pelo produto desenhado pelo seu time? este como não é um como trivial, tem que ser entendido muito mais como o inglês approach do que o muito mais simples how. quer ver por que? um dia participei de uma reunião de engenharia onde o problema era reduzir os custos de hosting [hospedagem, completa, incluindo o tráfego de dados] de um certo serviço pela metade. a solução trivial, de engenharia pura, era investir numa performance muito maior do software por trás do sistema de informação, incluindo a minimização do tráfego de dados, para economizar banda. isso levaria tempo, tinha custos razoáveis e riscos consideráveis.

sabe qual foi a solução usada? sugeriu-se um estudo para ver qual era o impacto, para o usuário final, de se diminuir o grau de atendimento das condições do SLA [acordo de nível de serviço] de 99,9999% [do contrato original] para "apenas" 99,9%, ou seja, ao invés de uma em cada um milhão de solicitações não ser atendida, uma em cada mil não seria. feito o estudo, descobriu-se que não fazia a menor diferença para o usuário… mudou-se o SLA para este novo parâmetro de qualidade do serviço e se economizou mais de 50%.

moral da história: o olhar monolítico dificilmente oferece a melhor alternativa de solução de um problema, qualquer que seja o cenário, os usuários e o mercado. falando nisso, a  xícara da imagem abaixo e o "banco de um pé só" da imagem acima não parecem ser "desenhos" de produtos como os que estamos descrevendo aqui… mas meros exercícios de "design de produto".

muito bem: entendendo as necessidades e tendo idéia do approach, ainda não chegamos lá. pule a xicrinha, pra gente falar de… 

benefícios versus custos: mesmo que nosso produto vá resolver algum problema real que as pessoas têm, isso precisa se tornar evidente pra nós e pra elas. e isso não é trivial. não só significa gerar valor mas, ao mesmo tempo, percepção de valor. pois de pouco adianta você resolver um problema que eu efetivamente tenho se eu, como beneficiário disso, não consigo perceber o valor de seu produto ou serviço.

ao mesmo tempo, é preciso levar em conta os custos. peter drucker ensina que qualidade é o que o cliente quer, pelo preço que ele pode pagar. um produto inovador vem acompanhado de custos vários; você, que está desenvolvendo paga uns e eu, que talvez compre, pago outros. seus custos têm que ser [bem] menores que seu preço de venda [vamos chegar nisso depois] e meus custos de aquisição, devem estar dentro dos limites do que estou disposto a gastar para ter seu produto. e isso não é só o preço mas a soma de todos os custos de transação envolvidos no processo de sair do produto que uso atualmente [ou de usar nenhum produto…] para o que você está me propondo.

pense na quantidade de gente que só passou a usar a internet quando os custos de transação [de preço da conexão e dos computadores até a complexidade do uso] caíram para níveis que aquelas pessoas acharam aceitáveis. ou no número de amigos [especialmente entre os de mais idade] que se recusava, a usar smartphones porque as "teclas eram pequenas demais" e, depois, porque não havia teclas… e não era desculpa de quem não tinha meios para adquirir o produto e os serviços associados.

falamos de necessidades, approach, benefícios versus custos… e falta falar de competição [para saber mais sobre esta lista {referida em alguns textos como a proposição de valor NABC}, leia o livro por trás deste link]. não sei se você sabe que muito empreendedor em potencial ainda ignora que, mesmo lançando um produto matador, a competição vai reagir. e não pensou o suficiente no problema para criar alternativas de ação caso a competição faça X, ou Y, ou Z… faça o que for dentro do leque de alternativas que tenha.

logo, pense na competição, analise os competidores e seus produtos, trate de saber sobre que redes de valor eles estão apoiados, quais são suas vantagens e desvantagens, seus problemas, o que torna o produto deles único e, por isso mesmo, porque e como o seu se diferencia. a menos que seu produto seja uma commodity radical [tipo sal em pacotes de um quilo], tente entender como e porque a competição chegou onde chegou [e talvez porque está "presa" por lá… como o sal em pacotes de um quilo] e como você vai dar o pulo do gato e tentar evitar ficar preso na próxima volta do relógio do mercado

produtos são lançados em mercados; mercados são  conversações entre agentes… e a competição está entre os agentes, também está conversando e pode ter um papel muito importante no processo de criação, lançamento e vida de seu produto no mercado. até porque se eles [ou um deles] for muito maior do que você e não conseguir competir com você… é o negócio que você está montando que é, como um todo, um produto.

no processo de criação de um produto em uma nova empresa, você tem que estar pensando que o principal efeito colateral de todas as suas ações e conversações é criar a empresa, que é um produto no mercado "acima" do mercado do produto da sua empresa. não entendeu? leia de novo, com calma: se você faz um produto para um mercado, sua empresa, que faz o produto, é ele própria um produto no meta-mercado. pense nisso.

no próximo capítulo de nossa saga, vamos perguntar se nosso empreendedor, tendo criado um produto, vai conseguir…

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fique na escuta. voltamos amanhã.

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