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Escrito por • 23/03/2009

em dez anos: mapeamento genético para todos?

sempre que este blog publica algum texto [mesmo que levemente] relacionado à convergência info-bio, ou seja, aos desenvolvimentos da informática que, cada vez mais, influenciam nosso entendimento da vida e dos seres vivos, algumas dezenas de comentários sem sentido são feitos quase imediatamente, contra um ou outro que considera aspectos relevantes do texto. até parece que uma certa classe de indivíduos, que ignora –e quer continuar ignorando- o que está acontecendo no mundo, se especializou em escrever comentários sem entender ou refletir sobre o assunto em pauta, até porque parece, sempre, não ter lido ou entendido o texto.

o tipo de assunto que parece atrair uma maioria de comentários despropositados, atirando ao fogo do inferno o responsável pelo blog e seja lá o que ou quem for que ele esteja reportando… é exatamente como os parágrafos abaixo, que tratam a possibilidade, cada vez maior, das tecnologias genômicas estarem disponíveis em escala social dentro de poucos anos.

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segundo declarações de jay flatley, da illumina, ao times de londres, uma leitura completa e economicamente viável do genoma de cada recém-nascido será possível dentro de cinco anos. nos países mais ricos, segundo dr. flatley, tal procedimento será tão comum –e obrigatório- como o teste do pezinho, dentro de dez anos. desnecessário dizer que, mesmo em periferias como o brasil, e mesmo que a escala social só venha a estar disponível em 20 anos, os mais abastados terão seus filhos "sequenciados" assim que o processo estiver disponível por preços que façam sentido. depois, a pressão social vai cuidar para que todos, indistintamente, tenham acesso a tal tecnologia.

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o que significa fazer sentido? o esforço de sequenciamento do dna humano, conduzido pelo human genome project, que publicou seus resultados em 2001, custou astronômicos US$4 bilhões. quando craig venter, da celera genomics, publicou seu próprio dna [em 2007], o custo havia caído para US$1 milhão, ou 4.000 vezes menos em pouco mais de meia década. pra continuar fazendo contas, há serviços de genotipia que podem esquadrinhar seu DNA [dos seis bilhões de letras, fazer uma procura em dois milhões] atrás de pistas para doenças diversas, por meros US$1.000. se você tem dinheiro e estiver realmente desconfiado de alguma surpresa letal escondida no seu DNA, US$100.000 pode decodificar o programa que, em muito boa parte, fez seu corpo chegar onde está hoje. e boa sorte.

image acontece que a empresa de flatley, a illumina, está para lançar um serviço que promete, daqui a dois anos, decodificar o seu e o meu programa genético completo por US$10.000 [ou US$5.000, este ano?] e reduzir este custo para US$1.000 em cinco anos. o que está por trás disso? o aumento exponencial da capacidade de processamento, tanto do lado das tecnologias da informação quanto genéticas, e a convergência das duas, o que faz com que os custos estejam –e continuem- caindo muito velozmente.

mas ter a tecnologia disponível em 2015 por mil dólares por pessoa, em 2023 por cem dólares e em 2030 por dez dólares ou reais não é o que vai definir, de pronto sua aceitação e uso universal. o próprio flatley diz que… “The limitations are sociological; when and where people think it can be applied, the concerns people have about misinformation and the background ethics questions"… claro que as limitações são sociológicas; quando, onde e pra que as pessoas entendem que a tecnologia deve ser usada, a desinformação e as questões éticas é que vão decidir quando teremos, todos, acesso a sequenciamento genético pelo SUS. na inglaterra, EUA e aqui.

além dos preconceitos e [ou por causa da] desinformação, há problemas sérios a tratar: a privacidade do genoma de cada um deve ser uma preocupação fundamental, apesar de ser impossível assegurá-la de todo. por onde passamos, deixamos um rastro genômico e é por causa dele, aliás, que alguns crimes já vêm sendo solucionados há tempos.

mas imagine que o meu e o seu código genético andam por aí e, na prática, denunciam que nós temos um risco muito alto de sofrer de certas doenças de tratamento demorado e caro, digamos, na meia idade. que empresa vai investir num funcionário que pode se tornar indisponível exatamente no que seria o retorno do investimento? que seguradora vai nos aceitar pelo mesmo prêmio de pessoas "normais", se não houver uma legislação, regulação e fiscalização severa que as obrigue a tal?

e o que vai acontecer se casais de namorados passarem a saber dos "bugs" [ou, como se diz em programação, os "defeitos"] no código de um e de outro, levando-os a saber, também, das consequências para os filhos que possam vir a ter? veja o "código" e os "bugs" do craig venter neste link; não se sabe o código da parceira dele. no futuro próximo, como os bebês [muito provavelmente] serão sequenciados, o que fará o estado quando eles resolverem ter filhos? desaconselhar certos tipos de acasalamento, em função do que sabe sobre a genética das pessoas, levando a novos e assombrosos tipos de eugenia fomentada pelo poder?

image ou será que, ao mesmo tempo em que sabemos do código inteiro de cada vez mais gente e uma capacidade cada vez maior para reprogramar organismos, vamos intervir e resolver os "bugs", no DNA, antes que eles causem danos aos seus portadores? afinal de contas, porque só a soja teria o direito de se tornar mais resistente? você sabia que mais de 60% da soja, no mundo, é geneticamente modificada? tanto quanto no caso da soja transgênica, tornada legal no brasil e que já é 64% da produção brasileira [e 85% da argentina], vamos querer que o poder intervenha? em certas condições, o sistema vai intervir de qualquer forma?… como?…

muitas, muitas coisas para discutir nesta fase de transição e de convergência que viveremos neste século. todas estas e muitas outras questões provavelmente estarão resolvidas no séc. XXII. nada que, a partir de onde já chegamos, 100 ou 200 anos de evolução não ajude a desenrolar. lá, no futuro, aquela parte dos comentários desinformados e preconceituosos deste e de muitos outros blogs que tratam deste tipo de assunto talvez seja lembrada e estudada como se nós, hoje, estivéssemos vivendo mais uma idade média, assombrada por fantasmas, bruxas, deuses, igrejas e falta de educação, conhecimento e imaginação que impedem as pessoas de pensar livremente.

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0 Responses to em dez anos: mapeamento genético para todos?

  1. André Ferreira disse:

    acreditando que esse comentário não se insere no incapaz grupo criticado pelo colunista, lá vai: a convergência info-bio me provoca reflexões há anos, o filme Gataca contribuiu para me por a pensar em questões éticas cada vez mais profundas – mas sinceramente: novas tecnologias só se inserem na comunidade se vêm acompanhadas de novos hábitos e costumes; essas questões morais serão sempre alvo de discursões semelhantes às discursões atuais referentes à tecnologias atualmente emergentes. me parece que gastar tempo com conhecimento no lugar de loops infinitos de reflexões sobre o que não existe é, como sempre, o mais útil.

  2. André Ferreira disse:

    acreditando que esse comentário não se insere no incapaz grupo criticado pelo colunista, lá vai: a convergência info-bio me provoca reflexões há anos, o filme Gataca contribuiu para me por a pensar em questões éticas cada vez mais profundas – mas sinceramente: novas tecnologias só se inserem na comunidade se vêm acompanhadas de novos hábitos e costumes; essas questões morais serão sempre alvo de discursões semelhantes às discursões atuais referentes à tecnologias atualmente emergentes. me parece que gastar tempo com conhecimento no lugar de loops infinitos de reflexões sobre o que não existe é, como sempre, o mais útil.

  3. Rafael disse:

    Eu ainda acho que as previsões para o futuro são muito ilusórias Silvio. Nem daqui a 30 anos isso ai vai estar sendo implementado. Vide as previsões dos anos 80/90 que diziam que em meados de 2000 haveriam robos fazendo as nossas tarefas domésticas!!!

  4. Rafael disse:

    Eu ainda acho que as previsões para o futuro são muito ilusórias Silvio. Nem daqui a 30 anos isso ai vai estar sendo implementado. Vide as previsões dos anos 80/90 que diziam que em meados de 2000 haveriam robos fazendo as nossas tarefas domésticas!!!

  5. André Ferreira disse:

    Rafael, eu discordo – segundo as curvas (exponenciais) de crescimento e avanços tecnologicos essas previsoes fazem sentido sim; por ex. Kurzweil prevê maluquices que são ainda mais absurdas “simplesmente” observando essas curvas. No artigo Silvio comenta que são tecnologias para poucos muito abastados humanos em 30 anos – é sempre assim na verdade, os avanços n acontecem em todo lugar pra todo mundo. Aposto em 30 anos ou menos.

  6. André Ferreira disse:

    Rafael, eu discordo – segundo as curvas (exponenciais) de crescimento e avanços tecnologicos essas previsoes fazem sentido sim; por ex. Kurzweil prevê maluquices que são ainda mais absurdas “simplesmente” observando essas curvas. No artigo Silvio comenta que são tecnologias para poucos muito abastados humanos em 30 anos – é sempre assim na verdade, os avanços n acontecem em todo lugar pra todo mundo. Aposto em 30 anos ou menos.

  7. Davi Pires disse:

    quem dá mais? quem dá mais?

  8. Davi Pires disse:

    quem dá mais? quem dá mais?

  9. Nanny Law de Oliveira Firmani disse:

    A genética é um tema muito interessante e futurista.Irei fazer um trabalho sobre o tema,por isso peço para que enviem mais informações para o meu e-mail.

    Muito obrigada.

  10. thiago disse:

    Discordo do amigo acima que diz que isso é um mero chute como se fazia na decada de 80 onde se achava que hoje teriamos robos fazendo as tarefas domesticas.

    Pra começar, hoje temos sim robos fazendo viersas tarefas. Ok, talvez não como esperavam, mas chegaremos lá!

    E outra, tudo isso que foi postado no blog, ja acontecem hoje em dia, só não estão disponiveis a todos. Ou seja, não é um mero chute do que pode vir a acontecer, é baseado em fatos.

  11. thiago disse:

    Discordo do amigo acima que diz que isso é um mero chute como se fazia na decada de 80 onde se achava que hoje teriamos robos fazendo as tarefas domesticas.

    Pra começar, hoje temos sim robos fazendo viersas tarefas. Ok, talvez não como esperavam, mas chegaremos lá!

    E outra, tudo isso que foi postado no blog, ja acontecem hoje em dia, só não estão disponiveis a todos. Ou seja, não é um mero chute do que pode vir a acontecer, é baseado em fatos.

  12. Leo de Carvalho disse:

    Também acredito que este tipo de situação não irá demorar muito.
    Já podemos ter supercomputadores em casa. As famosas GPUs(placas de vídeo) são poderosos dispositivos de computação para resolver diversos tipos de problemas além da computação gráfica e estão ao alcance de todos por R$ 300. Talvez, num futuro próximo, seja possível fazer fazer a leitura do nosso genoma em desktop. Aguardo ansioso por isto.
    t+…

  13. Leo de Carvalho disse:

    Também acredito que este tipo de situação não irá demorar muito.
    Já podemos ter supercomputadores em casa. As famosas GPUs(placas de vídeo) são poderosos dispositivos de computação para resolver diversos tipos de problemas além da computação gráfica e estão ao alcance de todos por R$ 300. Talvez, num futuro próximo, seja possível fazer fazer a leitura do nosso genoma em desktop. Aguardo ansioso por isto.
    t+…

  14. Homero disse:

    Mas temos robos fazendo trabalho doméstico!
    Não em todas as casas, e não muito em países pobres, mas no Japão há todo tipo de robo, para todo tipo de trabalho. Um portão eletrônico, que abre para que entre com o carro, é em alguma medida, um robo (especializado, mas robo), aspiradores de pó inteligentes, que andam pela casa e sabem reconhecer o caminho e mudar seus processos internos de acordo, também.
    E robos de companhia para idosos já estão sendo colocados em casas no Japão, e robos que atendem pessoas e levam medicamentos em hospitais, sem mencionar os milhares de robos nas fábricas.
    Sim, há promessas de futuro que não se cumprem, mas parecem ser em muito menos número que as que se cumprem (o ditado, se for possível, será feito, quase não tem excessões). Até o quase onipresente em ficção científica e em previsões de futuro carro voador está quase sendo produzido em linha de produção!
    O mapeamento genético individual, muito mais simples e muito mais fácil de ser implementado (depende apenas de aumento de velocidade em tecnologias que já existem, e em mercado de massa) deve chegar logo, pelo menos nos países mais ricos.

  15. Homero disse:

    Mas temos robos fazendo trabalho doméstico!
    Não em todas as casas, e não muito em países pobres, mas no Japão há todo tipo de robo, para todo tipo de trabalho. Um portão eletrônico, que abre para que entre com o carro, é em alguma medida, um robo (especializado, mas robo), aspiradores de pó inteligentes, que andam pela casa e sabem reconhecer o caminho e mudar seus processos internos de acordo, também.
    E robos de companhia para idosos já estão sendo colocados em casas no Japão, e robos que atendem pessoas e levam medicamentos em hospitais, sem mencionar os milhares de robos nas fábricas.
    Sim, há promessas de futuro que não se cumprem, mas parecem ser em muito menos número que as que se cumprem (o ditado, se for possível, será feito, quase não tem excessões). Até o quase onipresente em ficção científica e em previsões de futuro carro voador está quase sendo produzido em linha de produção!
    O mapeamento genético individual, muito mais simples e muito mais fácil de ser implementado (depende apenas de aumento de velocidade em tecnologias que já existem, e em mercado de massa) deve chegar logo, pelo menos nos países mais ricos.