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Escrito por • 01/03/2012

fabricar e prover TICs: aqui?

e se você estivesse, no brasil, no negócio de "fabricar" coisas? sim, aqueles objetos que a gente, literalmente, manipula. há um grande mercado, de 200 milhões de consumidores potenciais. ávidos por novas soluções para quase qualquer coisa. porque ainda há muito a ser "feito" por aqui. mas… o quê?

bem, boa parte das coisas inovadoras que usamos foi criada pelos suspeitos usuais: os EUA, japão, coréia e alguns países da europa. ninguém deve se lembrar de algum produto [ou serviço] inovador que é usado em larga escala, aqui, e que foi criado [ou feito, ou fornecido] por um país da américa latina.

e ninguém ignora que a china [imitando taiwan], depois de decidir que faria isso, se tornou a fábrica do mundo. especialmente quando se trata de TICs, qualquer "coisa" que seja ou tenha a ver com tecnologias de informação e comunicação. ninguém vê ou usa um celular alemão. tampouco desenhado lá. houvesse, seria feito na china. mas não, usamos smartphones e tablets criados nos EUA [apple, motorola, microsoft, amazon], na finlândia [nokia], canadá [blackberry], coréia [samsung, LG] e taiwan [htc]. a china, que era só a fábrica do desenho dos outros, está no brasil com a ZTE, e pode ter bem mais gente na área em pouco tempo. quase por milagre, a positivo tem um tablet no mercado, o YPY.

e o que se fabrica aqui? desde a reserva de mercado da década de 80, o brasil é um mercado [semi-]fechado. os impostos para se importar qualquer produto de TICs são tão altos que não vale a pena trazer nada de fora. e o tal do custo brasil, reverso da moeda da barreira de entrada, faz com que quase tudo que é produzido aqui não seja competitivo no mercado mundial. isenção de impostos para quem investe em inovação no país, por outro lado, não tem sido suficiente para criar [tampouco fabricar…] qualquer coisa brasileira que tenha chances no mercado mundial.

como se não bastasse, não há um serviço em rede [numa web de serviços globais] brasileiro de classe mundial. algo que fosse "feito" aqui e, daqui, provido para o mundo. que emeio você usa? onde fica? as chances são que, mesmo para coisas elementares como emeio, uma vasta maioria use algum serviço global de informaticidade para atender necessidades pessoais e corporativas associadas a sistemas de informação. e não há nenhum sinal de que isso vá mudar, como provam os serviços de google e da microsoft, faceBook, iTunes, twitter, tumblr, airBNB, salesforce, steam, app markets, em suma, uma longa lista que só aumenta, quase todo dia. conhece ifttt?

a longa lista de serviços citada acima vem toda dos EUA. não há um só serviço web de classe mundial que venha da europa. ou de qualquer outro lugar do planeta. os chineses, via baidu, poderão desafiar este status quo muito em breve. enquanto isso, só fabricamos aqui os produtos de TICs protegidos pelas nossas múltiplas barreiras de entrada e saída, ao mesmo tempo em que consumimos cada vez mais informaticidade vinda de fora e, quando nos sentamos para pensar o futuro de tais coisas, invariavelmente somos levados a planejar o passado.

imagecomo assim? há décadas que a discussão sobre o futuro das TICs no país gira em torno da balança comercial, do fato que o déficit, lá, só faz crescer, como mostram os gráficos ao lado. fora 2009, ano que se seguiu à última grande crise mundial, o déficit cresce pelo menos 20% por ano. nada mais natural, considerando que a demanda nacional por soluções de computação, comunicação e controle está muito longe de ser atendida. e como os produtos do setor evoluem de forma difícil de ser imaginada em outras facetas da economia, deve-se supor que tal demanda é estrutural e não conjuntural, temporária. e o que fazem os estrategistas de plantão? olham pro gráfico, descobrem que as barras vermelhas de importação estão cheias de chips, tablets, smartphones e… numa atitude típica da década de 50, resolvem que o país tem que produzir tais insumos e produtos aqui. e só para o mercado interno, pois sabem que não seremos competitivos em outros mercados, sem que sejam feitas as reformas que todos sabem que têm que ser feitas para reduzir o custo e a complicação brasil.

em 1993, paulo bastos tigre já dizia que

Competir no mercado de produtos eletrônicos de massa tem se tornado cada vez mais difícil para empresas nacionais, principalmente no mercado de equipamentos tecnologicamente sofisticados de amplo e crescente consumo pessoal… A competição nestes mercados se caracteriza pelo rápido ritmo de inovação e redução de preços implicando na necessidade de grande capacitação e articulação tecnológica dos fabricantes. O sucesso competitivo também requer investimentos em larga escala não só no processo de fabricação como também em distribuição, marketing e serviços.

de lá pra cá, ficou mais difícil competir. ou, face à internet, ficou muito mais fácil, se você tiver produtos e serviços globalmente competitivos. ao fim e ao cabo, este é o verdadeiro problema da estratégia brasileira de e para TICs. ao invés de investir, de forma estrutural e no longo prazo, para criar produtos e serviços de classe mundial, que poderiam entrar do lado certo da balança comercial, tratamos o problema de forma conjuntural e no muito curto prazo, tentando mitigar o resultado da balança comercial, repetindo a velha receita da substituição das importações.

a política para o setor [e seu modelo de incentivos fiscais] não vai mudar tal estado de coisas de forma significativa, nem mesmo o preço local, como é o caso recente do iPhone 4 produzido no brasil. a zona franca de manaus [de onde é mais caro mandar um contêiner pra são paulo do que na china], em permanente embate com o resto do brasil, só complica o cenário e dispersa nossa energia numa luta interna e sem qualquer futuro.

fabricar produtos de TICs ou prover, daqui, serviços de TICs para o mundo requer investimento em criatividade, inovação e empreendedorismo de classe mundial, resolvendo problemas bem maiores e mais complexos que "manter viva a chama da indústria nacional" que atinge, quando dá, o mercado local. ainda por cima, pouco foi feito, nas últimas décadas, para criar uma indústria de capital empreendedor, no brasil, que corra o risco de criar, aqui e com gente daqui e de fora, os tais produtos e serviços "de classe mundial".

todo o resto, incluindo a "absorção de tecnologia" de montadoras mundiais instaladas no país, não esconde a pura e simples falta de competitividade brasileira em TICs, resultado de nossa incapacidade histórica de enfrentar os problemas muito difíceis de política, estratégia e investimento nacionais.

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0 Responses to fabricar e prover TICs: aqui?

  1. Arnaldo R. Barbalho Jr. disse:

    Olá Silvio

    Muito bem escrito o seu artigo. Esse seu parágrafo final é a coroa do artigo. Ele serve também para todos os bens e serviços de elevado valor agregado.

    O Brasil continua um país cartorial, de economia muito pouco aberta, com punição tributária absurda e com verdadeiro abismo sócio-cultural e, principalmente, educacional. A libertação dos escravos ainda não ocorreu.

    Isso é que nos tem impedido de entrar para o clubinho da esquina.

    []’s

    Barbalho

  2. Eder disse:

    Como nosso país só funciona a ciclos de 4 anos, qualquer coisa a longo prazo fica comprometida, vide educação. É uma pena, pois criatividade no nosso país não seria o problema.

  3. Paulo Nasc disse:

    Caro professor Meira: em se tratando de um artigo pós-folia de maracatú, galo da madrugada, bacalhau do batata, pordõe a maledicência, mas é um chute na verilha. Fica entendido que: o desenvolvimento é uma viagem com mais náufragos do que navegantes. E mais: o perigo no Brasil é sempre nossa infinita capacidade para a fantasia (Copa do Mundo está aí) e porque as tentativas de inovação técnica, desde o século XIX nos engenhos de açucar, estavam de antemão fadadas ao fracasso. É o Brasil tem jeito não.

  4. Excelente artigo!

    Num país onde grande parte da elite e os mandatários – políticos e religiosos – praticamente obrigam a população a viver numa espécie de obscurantismo medieval, fica mesmo imensamente difícil resolver qualquer problema, seja em que área ele existir.

    Abs.

  5. Fernando disse:

    Meira, gosto muito dos seus artigos. Vale ressaltar que o Skype, algo que não devemos ignorar, pois é um dos grandes, vem da Europa, mais precisamente da minúscula Estonia. Já pesquisaste sobre os incentivos à inovação praticados por lá? Vale a pena o exemplo: lá uma empresa pode ser aberta em 18 MINUTOS. Abraço!

  6. Valter disse:

    Qualquer início texto, parágrafo, pós ponto final e nomes próprios devem começar com letras maiúsculas.
    Siglas (TIC, por exemplo) devem ter seu significado esclarecido. Se for em outra língua, deve ter sua tradução.

    Apenas o básico do texto jornalístico.

    Desisti de ler o artigo.

  7. Jose Berardo disse:

    Professor Silvio,

    Muito bom o artigo, mas me permita fazer alguns questionamentos.

    O Brasil não inova e não fabrica TI em comparação com o cenário mundial não apenas por falta de incentivo à pesquisa.
    Claro que somo deficitários nesse ponto, mas a grande questão é que somos meramente mercado consumidor internacional.
    À época do comentário do professor Tigre, tínhamos “apenas” uma indústria escassa e uma falta de investimento em qualquer coisa a médio e longo prazo dada à frágil gestão econômica.
    Mas foi justamente nessa época de intensa privataria que vimos nossa infraestrutura ir para as mãos de conglomerados estrangeiros. Alie isso à nossa “abertura” ingênua (pra não dizer mal intencionada) aos mercados estrangeiros. Já fomos colônia, somos descendentes de escravos e o posto mais avançado que chegamos foi o de consumidores. Aliás, usuários, um termo um pouco mais pejorativo de consumidores, afinal clientes devem ser respeitados, usuários ou usam ou … usam.

    Como é que vamos investir em inovação se toda a nossa indústria de ponta tecnológica é de fora? Nosso setor automotivo não tem uma montadora nacional relevante, nossas pesquisas químicas e farmacêuticas são “controladas” por laboratórios europeus e americanos, nosso setor de telecomunicações só tem uma grande empresa totalmente nacional, mas é completamente avessa à inovação (e à ética, e à moral, etc, etc).

    Quem vai financiar o verdadeiro investimento em inovações no Brasil? Somente o governo? Que governo? O que virou estado omisso (FHC) e depois estado cabide (Lula)?

    Os preços dos produtos e serviços de tecnologia no Brasil são exorbitantes, mas o mais curioso é que já seriam sufocantes mesmo se a carga tributária fosse razoável. Se pegarmos os números do ex-presidente da Telebras (à época secretário do Ministério do Planejamento, durante a campanha pela reativação da estatal), Rogério Santanna, é notório que já teríamos uma das tarifas mais caras de Internet do mundo mesmo se não houve um único centavo pago em impostos. O mesmo podemos dizer dos combustíveis. Façamos os cálculos com os impostos, retiremos todos eles, ainda teríamos um preço extorsivo para um país “auto-suficiente”.

    Em outras palavras, vivemos no país consumidor do mundo, que nesse tempo de crise dos mercados desenvolvidos e do alpinismo social chinês, temos a obrigação de balancear o saldo negativo interno deles.

    Qual o melhor lugar do mundo pra se escoar o excesso de produção de tablets? Que país do mundo tem pessoas dispostas a pagar mais caro por um carro fabricado no próprio país do o mesmo importado por outro? Ainda por cima, com o povo somente achando que é culpa de impostos. Só impostos? Será que esse carro pra ser exportado teve toda sua cadeia produtiva isenta de algum imposto que só foi cobrado na hora de vender localmente?Será que o outro país, o tal importador também não faz nenhuma barreira protecionista ao seu mercado local cobrando imposto de importação?

    É interessante a gente ver campanhas de redução de impostos patrocinadas pelas mesmas empresas que remetem lucros recordes para suas devidas sedes na Espanha, Alemanha, EUA, Itália, etc.

    Não acho que pagamos poucos tributos não, ainda somos passivos ao ponto de além disso tudo pagar a maior carga tributária do mundo e com um dos piores índices de retorno.

    Mas é que o problema não está só na má gestão pública. Empresas brasileiras de destaque são instituições financeiras, afinal qualquer economia que quer se estruturar tem que investir em seu setor financeiro, mas até nisso nós exageramos e viramos “usuários” deles (muitos estrangeiros também).

    Nossa balança comercial se salva por causa de commodities agrícolas. Lá eu acredito que exista investimento em pesquisa e inovação. Me corrija se eu estiver errado, mas o Brasil inova e investe em tecnologia nas linhas de produção de grãos. Por que não faz o mesmo com TIC? Porque nosso mercado interno é refém (usuário) das empresas estrangeiras nesse setor.

    Quais as sedes das empresas que mais investem em inovação no CESAR? Qual o percentual de investimento privado brasileiro no CESAR?

    Você acha que temos alguma chance de virarmos lideres em inovação e tecnologia dominados pelo mercado externo dessa forma?
    Como poderemos ser fabricantes de TIC, sem ao menos termos uma infraestrutura de comunicação nacional. Até o México seria capaz de fazermos voltar a enviar cartas em vez de emails.

    O mercado internacional está em crise e ele sempre vai nos querer como consumidores (digo, usuários) e nunca como concorrentes.

    Qual seria nosso rumo? O da China? O da Coréia? Ou vamos continuar vendo as cyber-Pintas, Ninas e Santas Marias nos saquearem?

  8. Romano disse:

    Um exemplo que bem demonstra o problema de custos: o Reino Unido acaba de lançar um “hardware” de baixo custo para ensinar as pessoas a programarem.

    Embora tenha levado seis anos de desenvolvimento e com o objetivo de alavancar este segmento por lá, aonde está sendo produzido? Não pense muito… Na China. Será que a Rainha está cobrando muitos impostos de seus súditos? Ou a China é que tem um “modelo” perverso de mercado?

    Seja como for, o Brasil é um negócio da China. Ou não?

    “The Raspberry Pi computer goes on general sale”
    29 February 2012 Last updated at 06:17 GMT
    http://www.bbc.co.uk/news/technology-17190918

    A credit-card sized computer designed to help teach children to code has gone on sale for the first time.

    Supporters hope the machines could help reverse a lack of programming skills in the UK.

    “It has been six years in the making; the number of things that had to go right for this to happen is enormous. I couldn’t be more pleased,” said Eben Upton of the Raspberry Pi Foundation which is based in Cambridge.

    Massive demand for the computer has caused the website of one supplier, Leeds-based Premier Farnell, to crash under the weight of heavy traffic.

    The Raspberry Pi Foundation says it has already produced thousands of the machines, using a Chinese manufacturer.

    It had originally hoped to produce the devices in the UK – “we want to help bootstrap the UK electronics industry” the group wrote in a blog post – but that turned out not to be possible at the right price.

  9. linu estorvo disse:

    Caro Silvio Meira,

    Este seu artigo têm, relativamente à muitos outros articulistas, poucos comentários; mas como a pertinência, a oportunidade, a gravidade e sapiência contidos no seu artigo sâo em alto grau, os comentários também guardam a proporção, sendo, na sua maioria, muito pertinentes.

    Valeu!!!

  10. otimo o artigo; mas o maximo è o comentario do valter, que ainda não se deu conta de como as coisas mudam rapidamente; está ainda falando em regras jornalisticas de pontuação, majusculas… ilario

    Sr Valter, o Sr Meira está aderindo ao acordo ortografico de 2020!!

  11. Olá! Caros Comentaristas! E, Silvio Meira!
    Nosso estrangulamento continua na FORMAÇÃO EDUCACIONAL. Em especial, nas áreas de física, química, biologia e matemática, igualmente, em ciências exatas, em geral. Nossos currículos são tendentes aos grandes discursos de impacto. Abrangem a exacerbação da verborragia. Começam falhando na educação infantil e atingem os graus mais elevados.
    Envolvem professores/as e alunos/alunas e enorme falta de laboratórios para teste e um pensar agir autônomo. O eventual aluno/a inventivo, arrojado sofre logo os constrangimentos dos pares e professores/as. Torna-se o indivíduo “indisciplinado/a” segundo os conceitos de NORMALIDADE aplicados nas instituições escolares em geral.
    Um exemplo simples: Nosso colega comentarista VALTER, acima, pela desistência anunciada, demonstra o que ocorre com o aluno/a que se atreve a olhar o problema-questão de outra maneira. Maneira INFORMAL, até na forma de colocar. Logo é chamado a se comportar dentro do quadrado ou sequer será LIDO ou compreendido!
    Talvez, só talvez, se o Bill Gates fosse formado em uma Universidade, a MICROSOFT não existiria? Pois, construiu-a apenas com o Segundo Grau ou equivalente nos EUA. Essa era a formação do BILL GATES à época!
    É óbvio que todo o restante argumentado é importante e relevante, entretanto, o salto de qualidade que desejamos, dependerá necessariamente, de educação fundamental e média mais APRIMORADA e que seja APROPRIADA pelo estudante.
    Palavra chave: EDUCAÇÃO, EDUCAÇÃO APLICADA! OPINIÃO!

  12. Arthur disse:

    Sílvio, concordo com o diagnóstico: não adianta dar incentivos para indústria de mercado interno pensando apenas na balança comercial. A indústria automotiva brasileira é um bom exemplo disso, pagamos anualmente cerca de 100 bilhões de reais em ‘custo brasil’, ALÉM DO REAL CUSTO dos veículos, para manter cerca de 130 mil empregos que se perderiam caso TODOS os carros vendidos no Brasil fossem importados (nem todos se perderiam, na verdade, só os das fábricas mas não os das concessionárias/revendas nem os das oficinas). Também não adianta dar incentivos para a concentração local criando artificialmente uma injustiça interna ao país (como ocorre na zona franca). Só vale a pena dar incentivos para indústrias capazes de competir internacionalmente e de resto o mercado deve ser aberto aos estrangeiros (sem impostos extorsivos que acabam pesando no bolso dos brasileiros e não dos fabricantes estrangeiros).