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Escrito por • 25/08/2008

filas, hospitais e [falta de] informação

segundo uma crença muito bem estabelecida no poder central, o problema da saúde, no brasil, é a falta de recursos. tanto que criaram um imposto que deveria servir só pra investimentos e custeio da saúde [a extinta cpmf] e, apesar do aumento da arrecadação federal [em dezenas de bilhões de reais por ano…] mesmo sem cpmf, estão tentando criar a coisa de novo, com outro nome. ou seja, imposto pra saúde só se for cobrado pra saúde mesmo; se não for, é desviado pra outra coisa…

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mas veja a foto acima, tirada em um celular, em movimento, hoje, às 07:27h, de uma fila gigantesca [centenas de pessoas!] à entrada de um dos maiores hospitais da região metropolitana do recife. a fila, que compartilha um grande número de cidadãos entre um dia e outro, está lá todo dia, todo mês, todo ano. sexta passada, no rádio, uma senhora dizia [chorando] que havia saído de casa às quatro da manhã para acampar na entrada do hospital e que, "na vez dela", não havia mais fichas para atendimento. o que ela não sabia é que, desde a madrugada, pela simples análise de sua posição na fila, o hospital já sabia que "não haveria ficha".

até porque a foto e a fila não têm nada a ver com a capacidade do sistema de saúde. nenhum sistema, de saúde ou não, público ou privado, pode ser desenhado e construído para tratar picos de demanda como se eles fossem regime permanente. o custo seria insuportável para qualquer base de receita. como todo mundo que está na fila permanece lá por horas a fio, em pé, dificilmente será o caso de que todos estes potenciais pacientes sejam graves ou agudos. o problema, aí, é de gestão, pois confundiu-se, no mesmo lugar, o acesso à informação sobre o serviço [há vagas, hoje?] e o serviço propriamente dito.

o problema da fila, de fato, é de gestão de informação. hospitais têm capacidade de atendimento; tal capacidade deveria ser administrada por um sistema de gestão de informação capaz de reservar tempo [e, por conseguinte, espaço, por tipo de atendimento, em clínicas] que fosse capaz de distribuir, a priori e longe do hospital, senhas para quem quisesse ver o médico ou fazer um exame qualquer. isso pode ser feito com software e sistemas de informação que estão disponíveis hoje, em muitas cidades do brasil e em muitos serviços públicos.

ao invés de sair de sua periferia distante para o hospital e passar horas na fila, ao custo de duas passagens de ônibus, alimentação e, principalmente, tempo perdido para a pessoa e o sistema, o cidadão poderia ir numa lanhouse e, por menos de um real, reservar uma posição de atendimento. e isso no pior caso: um investimento em políticas públicas de inclusão digital [como também vem acontecendo em muitas cidades] faria com que as pessoas só tivessem que ir até o ponto público de acesso a internet mais próximo e entrar num sistema de reservas do serviço de saúde.

nada do que se diz acima é genial e muito menos original. está tudo ai, esperando para ser usado, para desafogar o sistema de saúde ou qualquer outro. mas é preciso pensar de forma diferente do que se faz hoje. é preciso pensar que toda empresa, sistema ou serviço [que funciona, hoje] é definido pelo software usado para torná-lo realidade. quer ver? a fila do hospital poderia se repetir nos aeroportos se as empresas aéreas não tivessem um sistema de reservas e check-in, com lista de espera. o colapso de transporte aéreo que sofremos, algum tempo atrás, derivou justamente da venda de muito mais passagens [reservas de vagas a bordo de aviões] do que a real capacidade de voar pessoas entre pontos x e y. e os aeroportos, por uns dias, ficaram iguais aos hospitais públicos…

no caso dos aeroportos, o caos se transformou em notícia diária, horária, de todas as rádios, TVs, jornais e da internet. a conjunção de clamor público e ação de órgãos reguladores, apoiadas por pressão de Estado, fez com que o caos aéreo fosse resolvido em alguns meses. pois nos hospitais o caos é diário. médicos e assistentes em permanente stress face ao monte de gente à porta, gente desesperada ao sol e chuva do lado de fora mas… infelizmente, sem meios de transformar seu caos particular em clamor coletivo, em ação dos reguladores, em pressão do e no Estado. nos hospitais, como nas empresas aéreas, a solução se encontra na gestão eficiente e eficaz de informação sobre o sistema.

a pergunta que deveríamos fazer é: se conseguimos resolver o problema nos aeroportos, porque não fazemos o mesmo nos hospitais? eu tenho um chute. podem até tentar me provar que não, mas acho que a resposta a esta pergunta tem uma relação muito forte com o poder aquisitivo dos participantes dos dois caos: nos aviões, voam ministros, governadores, deputados, senadores, prefeitos, empresários, jornalistas, médicos, engenheiros, advogados, delegados, juízes… as classes alta e média em geral e… uns muito poucos pobres, quando as passagens ficam muito baratas, muito raramente.

no caos dos hospitais, ao relento, os pobres e desassistidos. os sem voz. o brasil sem formação e sem informação, sem direitos, condenado a ficar, por uma vida a fio, na fila. por pura e simples incapacidade, de quem estar do lado de cá, de atacar o problema com ferramentas que existem e estão à disposição de todos.

 

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0 Responses to filas, hospitais e [falta de] informação

  1. Novamente esbarramos na vontade política, pois tecnologia temos de sobra.A custo baixo, poderia se usar sms, visto que celular todo mundo tem, para confirmar presença ou mesmo obter informação sobre atendimento. Outra coisa é descentralizar, muitas vezes postos de saude podem resolver, só iria para hospital encaminhado por um posto de saude ou em casos graves. O problema é no Brasil sempre se acha que é o problema é falta de verba, quando o problema é falta de gestão.

  2. Concordo !!!
    Se a imprensa fizesse com hospitais e escolas públicas a cobertura que fez com as filas dos aeroportos a qualidade dos serviços melhoraria rapidamente.

    Abraço e força com seus posts relevantes

    Roberto

  3. Fila em hospitais? Visite o nosso site e veja o que 20 voluntários estão fazendo há mais de quatro anos em dois hospitais em João Pessoa!

    http://www.sorrisodeesperanca.bl10.com