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Escrito por • 13/11/2010

flusser: o mundo codificado

quem primeiro me falou de vilém flusser foi h. d. mabuse, grande amigo, diretor de arte do c.e.s.a.r e uma das cabeças mais inquietas que conheço. mabuse me emprestou [ou doou, pelo tempo que está comigo] “writings”, editado por andreas ströl, traduzido para o inglês por erik eisel, coletânea do autor que muitos –não sem razão- consideram um outro, e talvez mais amplo, elegante e preciso, mcLuhan.

flusser não tinha qualquer formação acadêmica; nascido em 1920, veio para o brasil no começo dos anos 40, voltou para a europa quando se abriam os 70 e faleceu num acidente de automóvel no princípio dos 90. para o que poderia ser um pequeno resumo de quatro páginas de sua vida e obra, clique neste link.

ainda não li ou entendi flusser a ponto de participar de discussões acadêmicas sobre seu pensamento e influência. mas o modo não-acadêmico do próprio flusser escrever criou pequenos e autocontidos escritos que podem ser lidos e entendidos por qualquer um. pra dizer a verdade, há entendimentos de mundo que são quase imediatos, e que podem mudar completamente a forma de observar e entender as coisas… quando se leva em conta o que flusser escreveu há décadas. e bem antes de processos que nós hoje identificamos como forças e vetores de algumas das maiores mudanças do mundo.

se fosse possível tirar 4 frases dos “writings”, e isso da parte que trata de códigos e comunicação [porque o texto vai até o brasil visto por flusser e o desenho das cidades, no mundo…] claro que como resultado de uma certa [e minha] visão de mundo, bem que elas poderiam ser…

1. comunicação [humana, inclusive] é um processo artificial, que depende de símbolos, com os quais se constrói códigos. [p. 3, 1973/74].

2. as propriedades físicas dos símbolos influenciam decisivamente a estrutura dos códigos. a estrutura da mensagem reflete mais o caráter [físico] de seus símbolos do que a estrutura do universo que [pretende] comunicar [p. 15, 1986/87].

segundo flusser, a sentença 2 [precedida do entendimento da frase 1] está bem acima de e explica o famoso “o meio é a mensagem” de mcLuhan. mas não só: quer dizer que, de forma ainda mais ampla, a mudança da estrutura da mídia, isto é, de sua semiótica [sintaxe, semântica e praxis], muda a própria estrutura de percepção de realidade. hanke decodifica este tema de forma simples neste link.

3. sempre que se descobre algum código, pode-se inferir a presença humana [na sua construção] … nossa ignorância sobre novos códigos não deveria ser surpreendente; levou séculos para que os escritores descobrissem que “escrever” significava “contar histórias”. até agora, ainda estamos usando a TV para “contar histórias”. será que a TV é um meio para “contar histórias”?… [pp. 37, 39, 1978].

para flusser, o receptor de TV [dos de outrora, não conectados] tem pouco a ver com “storytelling”; passivo, atinge um estado quase religioso enquanto recebe um fluxo de informação. tal tempo e dispositivo, parece, estão com os dias contados.

a ideia de código era preciosa para flusser e usada em larga escala nas suas palestras, aulas e textos. em particular, os símbolos e códigos que foram usados para construir as linguagens lineares que usamos para descrever o mundo representam, diretamente, formas de imaginação:

4. …a civilização pode ser entendida como uma tentativa de explicar imagens [imaginação ou visualização]; isso é [usualmente] tentado abstraindo imagens através de textos em linguagens naturais; tal possibilidade de crítica discursiva não é radical o suficiente e outra, mais profunda, é possível, talvez mandatória: deve-se analisar as imagens e, para tal, é preciso codificá-las e processá-las; neste nível de abstração, é possível tratar formas e estética puras e descobrir a verdadeira expressão comunicada pelas imagens [pp.110-116, 1990].

como resumo de todo um ensaio de flusser sobre uma “nova imaginação”, o parágrafo acima seria reprovado na redação do ENEM; até porque o código que uso aqui diverge da norma culta da língua que é exigida por lá.

mas dê um desconto e, juntando 1, 2, 3 e 4 e levando em conta que flusser discute e propõe, a partir daí, tecnocódigos, ou linguagens artificiais [em oposição às naturais], como a forma de imaginar e não apenas de programar [sistemas de informação], tecnocódigos como maneira de descrever mais precisamente o mundo, processo este que seria mediado não mais em termos de conversações em voz humana, mas digitalizado e calculado por algoritmos… pense: se flusser estiver mesmo com a razão, quais são as consequências? para os humanos e para nossa “visão de mundo”?…

e… já que você não se perdeu e chegou até aqui, o que tudo isso tem a ver com o mundo cada vez mais algoritmico ao nosso redor, incluindo a rede, a web, as redes sociais todas e este smartphone aí na sua mão?

será que uma parte relevante da nossa imaginação já não foi capturada pelos tecnocódigos de flusser?… será? e daí? e daqui pra frente?…

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12 Responses to flusser: o mundo codificado

  1. Querido professor Sílvio Meira,

    excelente texto! não é por acaso que vc e mabuse foram dois dos caras mais importantes pra minha jornada.

    esse texto corrobora o que venho tentando dizer ultimamente: faz bem aprender a programar pra poder atuar criticamente nesse mundo novo. a impressão que dá é que quem programa é mais ouvido (!?).

    acho que quando se usa um software sem saber como ele funciona estamos agindo como que assistindo TV de novo…

    abraço forte pra vc e mabuse.
    jjR

  2. Querido professor Sílvio Meira,

    excelente texto! não é por acaso que vc e mabuse foram dois dos caras mais importantes pra minha jornada.

    esse texto corrobora o que venho tentando dizer ultimamente: faz bem aprender a programar pra poder atuar criticamente nesse mundo novo. a impressão que dá é que quem programa é mais ouvido (!?).

    acho que quando se usa um software sem saber como ele funciona estamos agindo como que assistindo TV de novo…

    abraço forte pra vc e mabuse.
    jjR

  3. chicao disse:

    afff

  4. chicao disse:

    afff

  5. Carlos disse:

    Puro lixo isso.

  6. Carlos disse:

    Puro lixo isso.

  7. Jair disse:

    Sem citar Flusser, [de Souza, 2005] já fala da construção de códigos e linguagens através da mídia computacional. A engenharia semiótica considera um sistema computacional como um meio para a comunicação do conhecimento (ou lógica de negócio) através dos códigos das linguagens de programação e interfaces de usuário. O que vemos na tela de um computador ou smartphone é resultado de um ato comunicativo dos designers e programadores expresso com os códigos de ícones, cores, widgets, palavras, sons, etc. e tudo o mais que possa ser um signo para alguém.

    de Souza, C. The Semiotic Engineering of Human-Computer Interaction. MIT Press, 2005.

  8. Jair disse:

    Sem citar Flusser, [de Souza, 2005] já fala da construção de códigos e linguagens através da mídia computacional. A engenharia semiótica considera um sistema computacional como um meio para a comunicação do conhecimento (ou lógica de negócio) através dos códigos das linguagens de programação e interfaces de usuário. O que vemos na tela de um computador ou smartphone é resultado de um ato comunicativo dos designers e programadores expresso com os códigos de ícones, cores, widgets, palavras, sons, etc. e tudo o mais que possa ser um signo para alguém.

    de Souza, C. The Semiotic Engineering of Human-Computer Interaction. MIT Press, 2005.

  9. alexandre a moreira disse:

    Silvio
    Substitua LINGUAGEM/ESQUEMATIZAÇÃO/”FORMA” por CÓDIGO e veja como este texto de história da arte de 1960 se aproxima desta questão.Aliás todo o capítulo trata da persepção e como a codificamos. Vale uma olhada para ver as relações. Muito interessante sua Blogada

    -Estilos,asiim como LINGUAGENS, diferem na sequência de articulação e no número de questões q ao artista é permitido fazer; e tão complexa é a informação que nos chega do mundo visível que nenhum quadro jamais conterá tudo.Isto não devido a subjetividade da visão, mas a sua riqueza.Onde o artista tem de copiar um produto humano, ele pode, claro, produzir um fac-simile indistinguivel do original,O falsificador de notas só tem sucesso em esconder-se num certo periodo do estilo.
    Mas o que nos interessa é que o retrato correto, como o mapa que funciona, é o produto final numa longa estrada de “ESQUEMATIZAÇÃO E CORREÇÃO”. Não é um retrato fiel de uma experiência visual, mas uma construção fiel de um modelo de relações.
    Nem a subjetividade da visão ou a volupia das convenções será necessária para nos levar a negar que um modelo como este pode ser construido no grau de acuidade que se requisitar.O que é claramente decisivo aqui é a paralvra “requisitar”.A FORMA de uma representação não pode estar divorciada da sua proposta e dos requisitos da sociedade em que ela ganha valor.
    E. H. Gombrich (Art & Illusion)- parte 1 – os limites do gosto

  10. alexandre a moreira disse:

    Silvio
    Substitua LINGUAGEM/ESQUEMATIZAÇÃO/”FORMA” por CÓDIGO e veja como este texto de história da arte de 1960 se aproxima desta questão.Aliás todo o capítulo trata da persepção e como a codificamos. Vale uma olhada para ver as relações. Muito interessante sua Blogada

    -Estilos,asiim como LINGUAGENS, diferem na sequência de articulação e no número de questões q ao artista é permitido fazer; e tão complexa é a informação que nos chega do mundo visível que nenhum quadro jamais conterá tudo.Isto não devido a subjetividade da visão, mas a sua riqueza.Onde o artista tem de copiar um produto humano, ele pode, claro, produzir um fac-simile indistinguivel do original,O falsificador de notas só tem sucesso em esconder-se num certo periodo do estilo.
    Mas o que nos interessa é que o retrato correto, como o mapa que funciona, é o produto final numa longa estrada de “ESQUEMATIZAÇÃO E CORREÇÃO”. Não é um retrato fiel de uma experiência visual, mas uma construção fiel de um modelo de relações.
    Nem a subjetividade da visão ou a volupia das convenções será necessária para nos levar a negar que um modelo como este pode ser construido no grau de acuidade que se requisitar.O que é claramente decisivo aqui é a paralvra “requisitar”.A FORMA de uma representação não pode estar divorciada da sua proposta e dos requisitos da sociedade em que ela ganha valor.
    E. H. Gombrich (Art & Illusion)- parte 1 – os limites do gosto

  11. […] a sociedade está se dividindo, cada vez mais, entre os que programam e os que são programados. entre os que entendem os códigos e os que estão apenas sujeitos a eles. o que quer dizer que –apesar de todas as dificuldades do sistema educacional- há que se fazer […]

  12. […] a sociedade está se dividindo, cada vez mais, entre os que programam e os que são programados. entre os que entendem os códigos e os que estão apenas sujeitos a eles. o que quer dizer que –apesar de todas as dificuldades do sistema educacional- há que se fazer […]