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Escrito por • 23/02/2010

há como aprender com “aperitivos informacionais”?

pergunta de tony karrer no learning circuits blog: como aprender em um mundo de aperitivos informacionais? a pergunta vem da aparente constatação de que as pessoas têm cada vez menos tempo –e atenção- para processar grandes quantidades de informação [refeições informacionais] e, ao invés, parecem se contentar com aperitivos, pequenas quantidades de informação [information snacks], em tempo mais real, menos processadas e quase sempre esquecidas ao passar do tempo.

tal constatação vale para pelo menos uma classe de pessoas que lê este blog: sempre que algum texto daqui é chamado na página principal do TERRA, um número de indivíduos se dana a fazer comentários sem ter lido o conteúdo. vão da chamada de capa aos comentários, sem escala. seria este o povo que “não aprende” ou para o qual, se tentamos responder a pergunta de karrer, deveríamos descobrir um ou mais métodos de aprender através de aperitivos informacionais?…

há evidências de um novo tipo de gente por aí. uma delas mostra que jovens que passam quarenta ou mais horas [por semana!] em vídeo games parecem sofrer mudanças mensuráveis nas ondas cerebrais ligadas aos processos de “prestar atenção”. resultado? sérias dificuldades de engajamento em aulas de uma, duas horas… ou de passar a manhã conectado com o professor, a turma, a leitura, o exercício.

tudo bem que o mundo está muito mais em tempo real do que já foi um dia. ao mesmo tempo, há muito mais informação disponível, nos mais variados estilos e formatos. e a atenção é o recurso cada vez mais escasso, até por causa de tantos games interessantes que ainda não jogamos. resultado? será que deveríamos gastar tanto tempo para entender o que o autor queria dizer num texto tão longo? por que não, direto da chamada, ir aos comentários? afinal, a chamada é um aperitivo da classe “twitter”, algumas poucas palavras e [talvez] uma imagem que já diz “muito”.

exemplo recente, aqui mesmo no blog? este post, sobre estupidez parcial contínua, terminava num parágrafo sobre celulares em aviões comerciais nos céus do brasil…

não custa nada lembrar que em breve teremos internet e celulares em todos os aviões mesmo aqui no brasil; espera-se que os pilotos, pelo menos, estejam prestando atenção –contínua- às coisas certas…

e o resultado, ao invés de um debate sobre estupidez parcial contínua –ou celulares nos aviões- foi uma cacofonia desordenada, com as raras exceções habituais, como quase sempre é o caso dos comentários em qualquer blog. até parece que as pessoas ligam os dedos antes dos olhos e estes, sem ligar o cérebro.

voltando a karrer, uma classe de respostas certamente deve passar pelo fato de que estamos em uma zona de transição: os mecanismos que usávamos para nos informar e gerar conhecimento estão mudando em muito grande velocidade. toda criança de 7, 8 anos sabe “pesquisar” na rede e vai achar alguma resposta, lá, para qualquer pergunta que o professor lhe passe como “dever de casa”. a tal resposta pode ser ótima, ruim, mais ou menos… para o aluno, pouco importa. pergunta feita, respondida pela rede.

o que pode mudar este cenário, hoje? primeiro, professores, alunos, gestores e pais precisam entender que num regime de abundância de informação o conhecimento não mais reside na resposta e sim na pergunta. se a pergunta tem uma resposta óbvia, na rede, a resposta é a da rede. segundo, que é preciso criar oportunidades de aprendizado baseadas em problemas que as pessoas encontram no seu dia-a-dia, real ou imaginado. sem isso, perguntas serão apenas perguntas e qualquer resposta servirá.

enquanto o sistema olhar para os aprendizes como meros respondedores de perguntas, eles terceirizarão a resposta para a rede. o que é, por sinal, óbivo, a ponto da dinamarca estar autorizando estudantes a fazer provas usando a internet. significativamente, chat, SMS e emeio estão proibidos, já que trazem um outro cérebro para ajudar na resposta.

a rede, todos os seus repositórios e sistemas [como as redes sociais] representa a maior oportunidade de mudança dos processos educacionais desde gutemberg. aliás, desde a academia, considerando que a maioria dos ambientes educacionais prescinde dos mecanismos de busca e reflexão usados na escola de platão. o grande problema é como vamos sair deste grande dilúvio e caos informacionais para um conjunto de ambientes que conduza a um aprendizado mais eficiente, eficaz e situado entre as demandas do mundo ao redor do aprendiz.

talvez seja preciso, pra começar, reaprender a aprender; o fundamental, nos primeiros anos de escola, tem que passar a ser o estabelecimento dos métodos e processos pelos quais o indivíduo passa a descobrir, por si só, o que não sabe e, a partir daí, como chegar a fontes confiáveis para dirimir suas dúvidas ou, ele próprio, achar respostas para perguntas que ainda não têm resposta. isso só poderá ser feito aumentando em muito a qualidade da educação em todos os níveis mas, ainda mais, nos primeiros anos do aprendizado.

pense num problema grande, complexo e importante, para ser resolvido por todos, em todos os lugares. vai levar décadas até fazermos alguma coisa perto disso. até lá, os alunos continuarão achando [e, em boa parte, com razão] que a escola não tem “nada a ver” e que jogos, especialmente em rede, são muito mais interessantes. o que já é uma saída, pois jogos podem ser ambientes e ferramentas educacionais de alta efetividade… mesmo que pareçam apenas, para alguns, “aperitivos informacionais”.

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0 Responses to há como aprender com “aperitivos informacionais”?

  1. Mauro Alex Rego disse:

    Fui um jovem educado nesse contexto descrito: games e aulas expositivas. E ainda hoje sofro com essa “ansiedade” de responder a uma pergunta (ou de entender um texto) sem antes digeri-lo.

    Quando, ano passado, tive a oportunidade de dar aula em um curso superior de Design, percebi essa “velocidade” em muitos estudantes: observação superficial dos princiais tópicos do slide e objetividade nos desafios para se obter a nota.

    A educação deve ser centrada no estudante: deve se utilizar dos elementos da sua cultura e, principalmente, decodificar os seus processos cognitivos de forma a aplica-los em sala de aula. As TED Talks e mini documentários do youtube funcionaram muito bem com os meus estudantes.

    Em um trecho do documentário “A Folha que Sobrou do Caderno” (doc. sobre educação de design no Brasil) fala-se um pouco sobre a necessidade de envolver o aluno nesse processo de pensar.
    http://www.boanaestudio.com.br/blog/a-folha-que-sobrou-do-caderno/

  2. rafael disse:

    Concordo quase que totalmente com o texto, mas não penso que a dita impaciencia com textos grandes vem de agora. Pode até ter se agravado, mas não creio que a grande massa humana nos seculos passados apreciavam ler grandes textos ao inves de pequenos.

    Mas uma pergunta, esse estilo do texto, de não por letras maiusculas e com alguns erros de gramática é proposital ou acidental? Preferia que fosse um texto mais correto formalmente, porque achei meio ruim ler um texto longo só com letras minúsculas…

  3. Paulo Nasc disse:

    Muito bem contextualizado a questão do excesso de informação. É incerto que rumo tomará os acontecimento relacionados à educação e o próprio estilo de vida que nos será possível alcançar. Vale então, para desanuviar o panorama um legítimo “aperitivo” de boa procedência – Claude Lévi Strauss: “A história pode nos levar a qualquer lugar, sob a condição de que saiamos dela.”
    A saida, por favor, onde fica a saída?

  4. Emerson Espínola disse:

    O que posso falar é que muita gente que escreve precisa de um raciocínio mais estruturado. Quando o escritor começa a escrever de forma desestruturada, o leitor (pelo menos eu) perde a paciência em ler o texto, pois procura a resposta que parece insistir em fugir dele.

    Quando você lê um texto e pensa consigo: o que esse parágrafo tem a ver com o anterior? Pode ser um indicativo de que o texto não está bem escrito. Para o autor pode ser que esteja, pois o gap que ficou entre o parágrafo atual e o anterior está na sua cabeça, mas o leitor não necessariamente tem esse conteúdo e sente o gap bastante.