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Escrito por • 12/11/2008

inovação aprendendo com… pirataria?

pode ser, pode ser. quase certamente sim. recentemente, neste blog, tratamos dos números da pirataria no mundo [e no brasil], e vez por outra temos falado de luta entre o lado de lá [do modelo fechado de propriedade intelectual] e o lado de cá [dos modelos flexíveis, ou abertos, de copyright]. desta vez vamos falar do mesmo assunto de uma forma, digamos, mais radical: o que pirataria tem a ensinar pra inovação?… visto por um outro ângulo, lutamos contra os piratas ou aprendemos com eles?

pirate-cover.gifeste texto trata de uma conferência de matt mason, autor de the pirate’s dilemma, livro em que ele… tells the story of how youth culture drives innovation and is changing the way the world works. It offers understanding and insight for a time when piracy is just another business model, the remix is our most powerful marketing tool and anyone with a computer is capable of reaching more people than a multi-national corporation… ou seja, onde se historia como uma cultura jovem e de jovens muda os processos de inovação e por onde se muda os modelos de negócio do mundo… e onde se propõe a idéia de que pirataria é só mais um modelo de negócios, onde remix é um dos mais poderosos instrumentos de marketing e onde qualquer um com um computador [nota: computador, hoje, é o mesmo que computador ligado à rede] é uma multinacional.

dito isto, tomara que a APCM não peça à justiça pra tirar este post do ar… certamente não estamos tratando, aqui, de apologia do crime organizado. e muito menos do crime, puro e simples. a associação anti-pirataria cinema e música revelou, recentemente, ter retirado do ar, apenas em 2008, 45 mil links [via remixtures…] e se orgulha muito disso. só que, se a gente acreditar nas teses de mason [e de quase todos os usuários da internet, talvez] a APCM pode estar dando um monte de tiros nos pés de seus associados e representados. ou, por outro lado, está simplesmente adiando a morte de um modelo de negócios, para mídia, que está… morto. enterrado, talvez.

sem mais delongas, o que mason disse na poptech2008? [o inglês dele tem tradução livre minha, logo após. veja os sete mandamentos… abaixo].

1. If you want to beat pirates, copy them. If pirates are adding values to your customers, it’s an example of market failure. Look at it as an opportunity to learn and do better. quer derrotar a pirataria? copie os piratas. os piratas [jogos "originais" para PS2 a R$10, com nota e garantia!] estão adicionando valor à clientela, num clássico exemplo de falha no mercado; aprenda com os piratas e faça melhor.

2. Good business is the best art. Quoting Andy Warhol, Mason notes that the way we rebel as a society has changed. The way we kill bad ideas is to change them. Music industry: take note. negócios são uma forma de arte; arte é rebelião; as novas formas de rebelião envolvem mudança, nos levam mudar o que não está funcionando, porque os meios para tal estão [especialmente no caso de mídia] à nossa disposição. de cada um e todo mundo, aqui e agora. inclusive dos big businesses, mas eles estão perdendo tempo com o passado ao invés de construir o futuro.

3. The art of storytelling is changing because of abundance. Today, it’s about letting people be part of the conversation, and letting them tell stories themselves. a arte de contar histórias mudou de uma vez por todas; hoje, por abundância de meios de expressão, cada um está contando [mais de uma] as suas. o grande negócio, hoje, é trazer as pessoas pra dentro da história, pra que elas nos agreguem a sua história… e vice-versa.

4. Never let the legal department ruin a good remix without talking to marketing first. When their legal teams kill YouTube video mash-ups of your product, they’re doing you more harm than good. cuidado com os advogados; em caso de dúvida sobre os seus, ligue para ronaldo lemos e pergunte o que ele acha. se seu departamento legal está tirando coisas do ar no youTube, pode apostar que o tiro é no seu pé. ah, sim: antes de ligar pro ronaldo, pergunte pros seus advogados se eles ouviram falar de "performance"; você paga seus advogados por performance e não por direito autoral.  não se toca o CD ou DVD deles defendendo um caso parecido com o seu no tribunal. eles têm que ir lá in vivo… raciocinar em tempo real, falar bonito, ter deferência e paciência com suas excelências e coisa e tal.

5. Abundance is better than advertising. When Novartis started giving their leukemia drug away to poor people in Thailand, they not only thwarted the pirates, they got a rep as a socially responsible company — advertising they could never have managed to afford. abundância é a melhor propaganda e muito melhor do que propaganda pura, simples e antiga. ninguém diz isso abertamente, mas pirataria é, há muito tempo, parte do modelo de negócio de varejo de todo tipo de software. quer ver? pergunte a bill gates; windows e office piratas são os maiores adversários de linux e open office…

ran.jpg

6. Some good experiences will always be scarce. Hollywood claims it’s being ravaged by pirates, but they’ve had several blockbuster summers. The experience in the theater is not the same as on TV, and people will still pay for that difference if it’s good enough. cinema é muito melhor do que TV e cobra ingresso; cinema é performance, DVD pirata pode ser cópia… mas qual é a maior tela que você pode ter, em casa, pra assistir RAN, de kurosawa? a cena de cavalaria da foto acima precisa de uma tela de milhares de polegadas pra dizer o que kurosawa queria transmitir… e pra vê-la, como tal, vamos pagar um ingresso de cinema. tomara que a projeção seja muito boa, senão quero meu dinheiro de volta.

7. In an economy based on abundance, your business model needs to be a virtuous circle. “Heroes,” one of most pirated tv shows on web, now has revenue streams — from itunes to publishing, to integrated ads, to t-shirts — that reinforce each other. em economias baseadas em abundância, seu modelo de negócios tem que ser um círculo virtuoso. entregue grátis aqui pra ganhar em performance ali, lance sua música em guitar hero, faça comerciais, se vire. acabou o tempo de ganhar a vida deitado em casa, como um nababo, ouvindo as moedinhas pingando no porquinho. já viramm o modelo de micro-comerciais embutidos no CQC? sejamos criativos…

claro que nem tudo o que mason diz se aplica a tudo o que fazemos. mas uma boa parte faz muito sentido e, entre estas, a que faz sentido mesmo é olhar ao redor e ver quais dos nossos modelos de negócio estão sendo vaporizados porque estamos falhando em um ponto muito simples: agregar valor aos consumidores e usuários, entregando qualidade no ponto de venda ou na casa do camarada. lembrando que a definição de qualidade é o que o cliente quer pelo preço que ele pode pagar. se algum modelo de negócios entregar isso na nossa frente, bate o nosso.

bons tempos os do gramophone, hein? mas pra quem?…

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0 Responses to inovação aprendendo com… pirataria?

  1. Essa conversa, instigante, remete ao trabalho interessantíssimo feito pelo Ronaldo Lemos & cia. sobre os modelos de negócio no tecnobrega do Pará. Há um livro publicado há pouco e um relatório mais antigo disponível no overmundo: http://www.overmundo.com.br/banco/pesquisa-o-tecnobrega-de-belem-do-para-e-os-modelos-de-negocio-abertos

  2. Gustavo A. Soares disse:

    Realmente esse assunto é bem instigante. E pra mostrar que o Matt Manson aprendeu com a pirataria, é o consumidor que da o preço para baixar o livro dele em seu site.

  3. Os Pirata disse:

    Francamente, uso programas piratas desde o meu 386, que já tinha um DOS 6.22 e Windows 3.11 piratão mesmo.
    Copiava fitas dos LP’s que eu não tinha, e inclusive havia uma loja no interior de minas, que eu frequentava, que cobrava um preço módico pra gravar uma coletânea em fita de qualquer dos LP’s presentes na loja.
    Ainda não inventaram um sistema de segurança que não pudesse ser burlado. Se o homem fez, o homem desfaz.
    Só resta rezar pra algum deus prover a nós um sistema de segurança onipotente, onipresente, e onisciente e oni-tudo-o-mais…
    Ou encarar a realidade… torrent, e-mule, multiply… Viva a pirataria!

  4. ALTAMIR LUIZ DEMORI disse:

    SERA MESMO QUE ALGUEM ESTA PERDENDO ALGUMA COISA COM A PIRATARIA?

  5. renato andrade disse:

    Se Deus não cobra direitos autorais pela reprodução humana, nem de outras “mercadorias” ou “produtos” por Ele criados, qual a base para a existência de reserva de direitos?

  6. Mauro Márcio Serra Silva disse:

    Todo mundo quer dar lição de moral. Mas falta moral.
    Os piratas de antigamente, os corsários, eram financiados pela Inglaterra. A Amazônia é assaltada todos os dias, saqueada na sua biodiversidade. E por pessoas de olhos azuis. Levam aranhas até nas calças, mas levam. São piratas de toda ordem, os que mais pregam contra ela. Vejam só o que é a globalização, em última análise? Pirataria das bravas!

    E como um povo pobre de um país explorado reverte a situação?

  7. vG disse:

    na minha opinião é a Nike mesmo que fabrica seus próprios tenis falsificados, assim como a industria fonográfica, eles ganham muito mais pois não pagam impostos. Piratas do mundo uni-vos!, antes que que o gato coma o canário.

  8. Os Pirata disse:

    Então, Mauro,
    É isso mesmo… Os mesmos Ingleses que financiaram todos esses corsários que povoam os filmes do Jack Sparrow são piratas de nascença…. A própria Inglaterra foi tomada por esses nórdigos de maneira criminosa, pilhando, matando e destruindo todo um povo e cultura. A bem dizer, toda a geopolítica européia é demarcada por atos de pirataria. Com a queda do Império Romano, no séc. V, esses germânicos se aproveitaram e ocuparam todas as regiões européias fragilizadas com a falta de qualquer administração.
    Então vem eles, numa hora dessas, falar contra pirataria… Devolvam o ouro dos índios! Paguem pelos séculos de exploração, e então a gente conversa…

    Long live piracy!

  9. Gustavo Araújo Soares disse:

    Na super interessante desse mês veio uma entrevista com o autor desse livro, bem interessante!

    A matéria da capa da revista tb é muito boa, falando da enorme qnt de informações que temos que lidar hj em dia, falta de tempo e ansiedade…É um tema interessante até pra Silvio Meira colocar um post =]

  10. Bakunin disse:

    Muito oportunos os comentários sobre a materia.

    A indústria fonográfica não paga direitos a Beethoven, Mozart e pretendem proteção para sua pirataria.

    De fato, a maioria dos produtos piratas são feitos pelos próprios fabricantes como forma de não pagar impostos.

    Sobre os piratas da Somália eu digo que são os próprios donos do petróleo que fomentam estes sequestros. Lembrem-se, o barril chegou a custar $150 e agora custa $60. Interessa vende-lo a este preço ?

    Vocês sabem para onde vão os remédios com data de validade vencida? Aposto que viram remédios genéricos ou troca-se a embalagem e manda novamente para as farmácias.