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Escrito por • 17/03/2014

inovação: em xeque?

joseph stiglitz, prêmio nobel de economia, acha que há um enigma a ser resolvido quando se considera o efeito de inovação no PIB. segundo ele, mais de um, de fato. stiglitz sabe que o assunto é polêmico, principalmente quando diz que o tipo de inovação que vem do silicon valley não aparece nas estatísticas econômicas de forma clara e que seu impacto na vida das pessoas não é muito evidente [na melhor das hipóteses] e pode ser ruim, no pior caso, em função do desemprego causado pelas ondas de inovação.

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pois… olhe para o diagrama acima: a onda de inovação de sistemas em rede é uma espécie de terceira onda de inovação em TICs, e acontece no topo das revoluções de eletrônica digital e da combinação de software e redes de computadores. em conjunto, as três são o principal motor do silicon valley e de lá pro mundo, e parte essencial de processos de inovação em qualquer cenário. coisas como facebook, kindle, AWS, azure, google, skype, twitter, instagram, whatsApp e android, só pra citar poucos, são sistemas em rede. a onda de inovação de sistemas em rede começou de forma muito primária lá no princípio da internet comercial, há uns 20 anos, “pegou” depois da crise da internet do começo dos anos 2000 e se tornou parte do dia a dia de muita gente a partir do advento dos smartphones contemporâneos, em 2007. daqui até o fim da década, é bem provável que a maior parte da população mundial tenha um dispositivo em rede que pode ser classificado como “smart” e, nele, acesso a serviços que, há cinco anos, eram privilégio de comparativamente poucos, se existissem. este é o cenário indicado pelos dois quadrantes superiores e pelo centro do diagrama abaixo, que é explicado neste link.

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o professor stiglitz, quando ainda estamos no começo da internet das coisas [e de tudo], está procurando o impacto das três ondas de inovação digital no PIB. o departamento de comércio dos EUA diz que a noção de PIB foi uma das grandes invenções do séc. XX. mas é claro que PIB não é uma medida ideal, nem tudo pode ser medido pela produção de alguma coisa diretamente mensurável em receitas e [ou] capital. claro que stiglitz sabe disso. ainda assim, quer ver o silicon valley, na verdade o sistema global de inovação em e com TICs, nas estatísticas de crescimento. tal pressa, de querer resultados agora, lembra robert solow lá atrás, em 1987, vendo “computação em tudo, menos nas estatísticas de produtividade”.

boa parte da revolução das TICs, pra quem acredita numa, depende de pessoas: imagevem da mudança de métodos, processos, do entendimento de novos artefatos e sistemas para habilitar comportamentos, na vida pessoal e corporativa. como é de se esperar, isso demanda atenção, tempo e competências cognitivas que já existem… ou não. quanto menos houver, mais tempo vai se levar para que o impacto de TICs [informaticidade, no primeiro diagrama deste texto] seja notado. mas os analistas têm pressa. e parecem ignorar que inovações como eletricidade levaram muito tempo para causar impacto significativo na economia e sociedade, como mostra o gráfico ao lado, de chad syverson. note que o efeito de eletricidade na produtividade é muito similar ao de informática, na economia americana, nos primeiros 40 anos. nos dois casos, infraestruturas de grande porte e alto custo tiveram que ser desenhadas, instaladas e entendidas –e utilizadas apropriadamente- para que seu efeito se fizesse sentir. em 1882, thomas edison dizia ter atingido tudo a que tinha se proposto; trinta e cinco anos depois, a SEARS publicava anúncios estimulando as pessoas a “usar eletricidade para mais do que luz”, com o objetivo de vender eletrodomésticos. revoluções sempre levam tempo, porque as pessoas não mudam de uma hora para outra e porque seus “sistemas” levam muito tempo para, além de úteis, se tornarem econômicos, confiáveis e resilientes. coisa difícil de atingir, em quase qualquer cenário, quase sempre.

quase pra terminar, o anúncio abaixo é de 1892, dez anos depois de edison ter “feito tudo”. pois… em 1900, eletricidade era 25 vezes mais cara do que gás, na inglaterra, e apenas 7 vezes mais eficiente. você trocaria o segundo pelo primeiro?… a menos dos early adopters, e com muito dinheiro, quem trocaria?… pois é.

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veja, no gráfico abaixo, como foi que a história da iluminação se desenrolou no reino unido, com a luz elétrica passando a gás perto do meio do século passado, uns 60 anos depois de edison ter “feito tudo”. leva tempo… muito tempo. se a gente imaginar as possibilidades dos próximos 30, 50 anos de aplicações das novas gerações de TICs nos mais variados cenários econômicos e sociais, talvez vejamos mudanças radicais em muito mais atividades humanas. algumas delas, muitas delas, talvez, deixarão de existir, como discutimos no texto deste link, em função do impacto combinado de grandes volumes de dados, aprendizado de máquina e robótica [móvel]. e o resultado vai ser muito mais dramático do que a curva de uso de eletricidade para iluminação aí embaixo, professor stiglitz. é só esperar pra ver…

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2 Responses to inovação: em xeque?

  1. inovação disse:

    Ainda não li o artigo do economista prêmio Nobel, mas eu sugiro uma medida indireta de influência de TICs no PIB [ou qq que seja]: desliguem a internet por, digamos…, um ano. O que aconteceria com os PIBs?!

  2. […] pois… olhe para o diagrama acima: a onda de inovação de sistemas em rede é uma espécie de terceira onda de inovação em TICs, e acontece no topo das revoluções deeletrônica digital e da combinação de software e redes de computadores. em conjunto, as três são o principal motor do silicon valley e de lá pro mundo, e parte essencial de processos de inovação em qualquer cenário. coisas como facebook, kindle, AWS, azure, google, skype, twitter, instagram, whatsApp e android, só pra citar poucos, são sistemas em rede. a onda de inovação de sistemas em rede começou de forma muito primária lá no princípio da internet comercial, há uns 20 anos, “pegou” depois da crise da internet do começo dos anos 2000 e se tornou parte do dia a dia de muita gente a partir do advento dos smartphones contemporâneos, em 2007. daqui até o fim da década, é bem provável que a maior parte da população mundial tenha um dispositivo em rede que pode ser classificado como “smart” e, nele, acesso a serviços que, há cinco anos, eram privilégio de comparativamente poucos, se existissem. este é o cenário indicado pelos dois quadrantes superiores e pelo centro do diagrama abaixo, que é explicado neste link.  […]