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Escrito por • 01/02/2013

insônia no silicon valley? sei não…

Desde a semana passada, há muita gente sem dormir entre ‘cisco e angeles. é que o presidente da telecom italia, franco bernabè, decidiu declarar guerra ao digital, em rede, representado por, como não poderia deixar de ser, empresas âncoras do silicon valley como google e faceBook.

a telecom italia, ex-estatal italiana de telecom sob imensa pressão do estado e da iniciativa privada para conectar –de verdade– o país sede da empresa, tem uma das piores infraestruturas de internet da europa.

no momento, se discute nada menos do que um spin off da rede física da empresa para um operador nacional de infraestrutura de conectividade, capaz de investir para ampliar e qualificar a rede, fornecendo-a como base para quem estivesse no mercado de conectividade para o consumidor final. e faz todo sentido. os cabos de internet parecem cada vez mais [economicamente] com a rede de eletricidade. na  sua cidade não há três redes independentes de eletricidade, há?  a gente nem sabe quem produz a eletricidade que usa, mas ela vem por um único conjunto de fios. e a evolução das redes e seus insumos complica, cada vez mais, a competição entre redes físicas universais. então, no caso da italia, como em muitos outros países, há um só operador de infraestrutura física –privado, monopolista- e a conectividade do país, essencial para sua competitividade, fica nas mãos deste, digamos, negócio.

o presidente da telecom italia é contra a ideia de haver um operador nacional de conectividade. há um, no brasil, para o sistema de eletricidade. o ONS não opera rede alguma, mas coordena e controla um sistema interligado de geração e transmissão e tem a obrigação de manter a qualidade no presente e planejar o futuro. é de lá que vem boa parte da sanidade nacional na área de energia, quando  um setor essencial e de investimentos longos é tratado por políticas zigue-zague.

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é possível e desejável, especialmente em países que têm internet muito ruins como a itália [e o brasil?] haver operadores nacionais para a internet, quer lógicos [ONS é um exemplo] ou físicos, que operam mesmo o sistema, como se quer na itália. e isso tem a ver com infraestrutura física de rede ser, cada vez mais, uma utility, um serviço público como… você adivinhou, eletricidade, água e esgoto.

isso mesmo. o que não é verdade, e está bem longe dela, é o pensar que se eu, tele, sou uma infraestrutura que parece com eletricidade… então todas as empresas “da internet” têm que ser reguladas como eu, tele.

aí é onde mora o perigo: o presidente da telecom italia e um monte de coleguinhas, nas teles e nos governos, querem ver empresas como google e faceBook reguladas da mesma forma que o setor de telecom [daí o guerra ao digital], como se isso fosse “a” solução para as teles. nem pensar. a solução de jogar todos, os que estão dando certo [empresas digitais…] e os que os que não estão [as teles e seus 30 anos de atraso] no mesmo balaio vai matar um monte de bons negócios e não resolverá nenhum problema das teles.

o setor elétrico é um dos mais conservadores entre as infraestruturas. as leis fundamentais são as mesmas há décadas, em alguns casos séculos, as tecnologias não têm como uma lei de moore e o espaço regulatório –onde estaria boa parte da inovação- parou no tempo em muitos lugares. na holanda, você escolhe quem fornece sua energia, entre os muitos geradores; o operador local só faz a entrega e é, claro, remunerado por isso. aqui, poderia ser igual, não? ou melhor. mas não…

mas voltemos às teles. qual seria o equivalente? na internet, a informaticidade é gerada globalmente, a partir de qualquer lugar. pra você, pouco importa se google está no silicon valley ou taperoá. foi isso que conectou todo mundo e possibilitou serviços globais ao custo de acesso local. esta lógica faz parte da internet desde o começo. a eletricidade, ao contrário, sofre uma perda considerável no transporte entre um ponto e outro. por isso, quanto mais perto a geração estiver do consumo, melhor… o que inviabiliza você, na sua casa [hoje] comprar energia produzida na dinamarca. até porque a rede daqui não está conectada à de lá.

e qual é o problema das teles, quando pensam em regular a internet ao seu modo? é que há muita gente poderosa, lá, vinda do setor financeiro, industrial e  outros menos votados… que gostaria de ter os lucros de google, salesforce e até da apple, que nem é uma empresa “de internet” e sim de dispositivos. ora, se querem ter os lucros destas empresas, porque não correm os riscos que seus empreendedores e investidores correram? é muito fácil ficar por trás de infraestrutura monopolista e regulada e querer lucros de quem está no mercado aberto, competindo com deus e todo mundo. seria o mesmo das empresas de eletricidade lutarem por uma parcela dos lucros das fábricas de lâmpadas, TVs, computadores e provedores de internet. afinal de contas, tudo isso é intensivo em eletricidade, não é?

só que eletricidade é infraestrutura. e as teles não são negócios de internet, mas de infraestrutura de conectividade, sobre a qual estão os serviços e as aplicações que se apresentam a nós, usuários, como “a rede”. não adianta querer nos confundir e dizer que é tudo a mesma coisa, porque não é não. a torradeira de pão de lá de casa só “usa” eletricidade, é uma aplicação, não tem que pagar adicional à celpe por ser usada toda manhã; pra isso, eu já pago a conta de luz…

google, senhor bernabè, também está lá em cima da hierarquia da rede, é como se fosse uma “torradeira de bits”. é uma aplicação. assim como skype. aliás, falando em skype, primeira aplicação global que pôs à prova o modelo de comunicação de teles como a telecom italia… porque seus laboratórios não fizeram algo parecido, e bem antes?

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eu acho que sei a resposta. enquanto havia uma galera, distribuída no mundo todo, pensando em como diminuir os custos de transação de coisas simples como usar a rede para que as pessoas, em qualquer ponto do planeta, pudessem se comunicar a custo zero –além do que pagam por conectividade– os engenheiros da sua empresa estavam, sim, propondo a mesma coisa, como forma de competir com as empresas “de internet”. mas a diretoria, protegendo um modelo de negócios analógico, sem proteção possível contra uma rede digital global, de conexão global a preço local, disse não à engenharia. agora é tarde. não sei se tarde demais, mas é tarde. chegou a hora do exame e… cadê o dever de casa?

enquanto isso, skype passou de 40 bilhões de minutos de uso por mês e detém mais de 1/3 de todos os minutos de chamadas internacionais

teles como a telecom italia vão continuar com o discurso de regular a internet, aí incluídas as torradeiras de bits. e vão ter apoio de muita gente nos governos, que talvez não tenha coisa melhor a fazer a não ser construir o passado, de novo. aqui no brasil, se a gente não se ligar –no assunto, literalmente- é capaz de uma telecom italia conseguir alguma coisa. porque no silicon valley está todo mundo dormindo muito bem. capaz até de ser porque ninguém sequer sabe, lá, o que anda dizendo o presidente da telecom italia…

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