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Escrito por • 30/04/2012

internet: travando inovação?…

neal stephenson é autor de ficção científica. ou melhor, ele escreve sobre uma realidade quase presente. deve-se ler quase, aqui, de pelo menos três maneiras: no tempo [está pra chegar], na geografia [qualquer dia destes estará na sua] e na experiência [estamos para viver o que ele descreve a qualquer momento]. o meu predileto ainda é SNOW CRASH [e o metaverse, de 1992, inspiração até para google earth, segundo uns] mas REAMDE, de 2011, quase mil páginas de mundo virtual e concreto se interpenetrando agora, no nosso tempo, sempre faz pensar e repensar as possibilidades de transação entre o abstrato e o concreto. e em muito mais cenários do que as interações entre o que se convenciona rotular "realidade" e T’Rain, o MMORPG que causa, e onde se passa, boa parte da ação do livro.

entrevistado recentemente para technology review, stephenson revelou sua preocupação com a falta, hoje, de "grandes ideias" e expectativas, como as que levaram ao [e derivaram do] programa espacial americano. e o “culpado”, por um lado, seria a internet. segundo ele, o impacto da rede é tamanho que a humanidade corre o risco de ficar nela e suas consequências por uma geração inteira, digerindo suas oportunidades, tecnologias, usos, riscos, problemas… e por aí vai. por outro lado, stephenson acha que muito pouco de verdadeiramente revolucionário está sendo tentado agora, pois se espera por alguma nova tecnologia [ou resultado científico] que possibilite um avanço de porte, para um novo estado de coisas.

e há o contexto social e econômico a considerar: stephenson diz [e é verdade] que a indústria espacial não consegue mudar de patamar porque as seguradoras não conseguem propor modelos alternativos para operações de  risco desconhecido. nos negócios da rede, isso tem [e é feito em] "rede": empreendedores, startups, angels, VCs, etc. nos outros negócios, não é tão fácil, especialmente quando o custo de fazer o beta [como lançar um foguete] está na região do bilhão de dólares. vai ver, a rede tem algo a dizer sobre isso também, nem que seja financiar os projetos: elon musk, fundador de payPal, é o cara por trás da spaceX, que tem por plano trazer o "preço do quilo em órbita" de cerca de dez mil para perto de mil dólares. se der certo, é um feito. diminuir o valor de quantidades físicas em uma ordem de magnitude em uma ou duas décadas é coisa do outro mundo.

de volta à rede: dezessete anos depois de se tornar comercial e à disposição das empresas, ainda estamos vendo a primeira parte da transição destas para um novo ambiente de negócios realmente sustentado pela internet. a absorção de qualquer nova tecnologia e seus serviços pelos ambientes de negócio leva tempo, como foi o caso da eletricidade. e as empresas, nas transições, vão gastar muito dinheiro com escolhas erradas, ou com tecnologias de vida curta, até que as plataformas de longo prazo se estabeleçam de verdade.

hoje, ninguém tem mais dúvida de que software está se tornando serviço e que empresas como salesforce e amazon [os serviços web da empresa de bezos] são parte da equação que vai prover informaticidade para as empresas. este é um conceito antigo [de 2006…] mas precisa de rede "mesmo": como vamos ter informática como serviço, com todos os processos e informação providos por agentes externos ao negócio [pense gmail e dropbox do ponto de vista pessoal], se ainda não dá pra confiar na rede de verdade? a velocidade média de download, no brasil, é de pouco mais de 100kbps. é pouco, depois de duas décadas de rede.

a rede é infraestrutura e, para ser apreendida de fato, precisa ser universalizada. em cobertura, qualidade e quantidade. e isso não está acontecendo na velocidade esperada, porque boa parte do que tem que ser feito para tal depende de políticas públicas, como dependeu a eletricidade. a maior parte dos efeitos colaterais do programa espacial americano, de teflon a cirurgia robótica, eram dispositivos que poderiam ser comprados ou usados individualmente, portanto de espalhamento mundial quase imediato, dependente apenas do poder aquisitivo e educação para uso. a rede é de certa forma infraestrutura pura, e a primeira verdadeiramente global, escrita nas mesmas linguagens e protocolos.

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para muitos países e regiões econômicas, especialmente os mais pobres, lentos e fechados, vai levar tanto tempo para entender e se apropriar dos efeitos da rede que, quando chegarem, vai ser como sair de uma idade média. e, aí, vão descobrir que a próxima revolução das redes, a das redes da vida, já terá começado há muito tempo e, de novo, será muito tarde. pela mesma razão que seus cidadãos e empresas não estão no grupo que está, ao nosso tempo, melhor aproveitando os benefícios da internet como plataforma de e para inovação e negócios.

mesmo que stephenson entenda que está tudo muito lento… a distância entre os que estão na e em rede e os que estão fora dela é astronômica. a inovação em rede talvez esteja mesmo devagar –ou abaixo do que deveria ser- para os que têm rede, mas ainda nem acontece para os que dela estão isolados ou quase. a divisão digital do passado recente é econômica e social hoje [como nunca deixou de ser]. e mais grave, pois quem está em rede participa de sociedades e mercados mais amplos.

pra quem quiser  escrever uma novela steam-clock-retropunk a partir daí, este pode ser um bom argumento. é só por as mãos à obra. literalmente…

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