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Escrito por • 26/08/2011

nos EUA, o fim da indústria? e aqui?

este post, de fim de tarde de sexta, não é nem análise nem reflexão sobre coisas complexas que rolam no nosso mundo virtual e no substrato concreto que o sustenta, mas uma pergunta.

será que –hoje- as partes, peças, componentes e dispositivos da indústria de TICs [tablets, laptops, projetores, smartphones…] são feitos na china, taiwan, coréia e vizinhanças porque é mais barato fazer por lá ou porque não sabemos [mais] fazer estas coisas aqui?…

ligue os links a seguir pra se perguntar e refletir no fim de semana.

a amazon deve anunciar seu primeiro tablet rodando android nos próximos dois meses. e tem que ser antes do natal, e deverá ser uma máquina bem conectada com os serviços da amazon, incluindo armazenamento e talvez outros serviços na nuvem, coisa que a empresa de jeff bezos sabe fazer muito bem. mas, pra passar no teste de mercado e sobreviver, o tablet da amazon vai ter que vender muito, senão morrerá rápido, como mostra o exemplo da HP e seu touchPad, que chegou há pouco tempo, e já sumiu, tendo seu momento de glória exatamente na liquidação de despedida. e, claro, ninguém nem se lembra do KIN, o smartphone da microsoft, que nem –por assim dizer, apareceu. foram só algumas semanas de quase nenhuma venda [isto é, sem vender alguns centenas de milhares por semana, na partida] e… fim.

pois bem. como [quase] tudo o que é vendido no maior mercado do mundo, o amazonTablet não será feito nos estados unidos. em tempos de crise profunda na economia americana, com os níveis de emprego mais baixos das últimas décadas e até gente perguntando se a noção clássica de "emprego" ainda faz sentido, a pergunta que [lá] eles estão fazendo é… será que [mesmo que fosse competitivo em custo] o kindle, os iPads e o amazonTablet poderiam ser fabricados nos EUA?

a resposta, numa série de steve denning para a forbes, é que não. a capacidade de desenho, projeto e construção associada a indústrias inteiras foi transferida, por decisões tomadas ao longo de duas ou mais décadas, para o oriente. líderes empresariais, contadores, economistas, investidores, administradores, consultores… em suma, um monte de gente que deveria estar vendo muito mais do que, pura e simplesmente, os custos diretos de um produto e sua fabricação desconstruiram, paulatinamente, a indústria americana a ponto de, hoje, a tela do iPad ser essencialmente "estrangeira".

denning cita uma lista parcial de "indústrias inteiras" que sumiram do solo americano, vinda deste artigo de pisano e chih:

“Fabless chips”; compact fluorescent lighting; LCDs for monitors, TVs and handheld devices like mobile phones; electrophoretic displays; lithium ion, lithium polymer and NiMH batteries; advanced rechargeable batteries for hybrid vehicles; crystalline and polycrystalline silicon solar cells, inverters and power semiconductors for solar panels; desktop, notebook and netbook PCs; low-end servers; hard-disk drives; consumer networking gear such as routers, access points, and home set-top boxes; advanced composite used in sporting goods and other consumer gear; advanced ceramics and integrated circuit packaging…

vale a pena ler cada um dos quatro textos de denning. lendo, ou depois de ter lido, talvez valha a pena fazer umas perguntas sobre a situação aqui no brasil: 1. que gerações de indústrias já perdemos [neste nosso tempo]? 2. quais delas, no médio e longo prazo, têm maior potencial de futuro global? 3. em quantas destas temos [pré]condições humanas e materiais para tornar o país, aqui, competitivos em seus mercados, em quanto tempo? 4. e, daqui até lá, vamos fazer o que para remediar o problema de não sermos competitivos?

noutros tempos, fazer e responder tal tipo de perguntas equivalia a criar políticas industriais, coisa que parece estar mais fora de moda por aqui do que ir de polainas à praia. tomara que isso esteja mudando e que nós não estejamos confiando nosso futuro apenas a uma fábrica da foxConn a fazer, aqui, produtos [baratos?…] da apple e similares. pode ser o pior dos mundos. pois até nos EUA, o país do mercado livre, muita gente pensa que é hora de criar –lá- uma política industrial coerente e de longo prazo.

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0 Responses to nos EUA, o fim da indústria? e aqui?

  1. Adolfo Neto disse:

    Pois é, Nassim Taleb já havia falado sobre isso em “O Cisne Negro”: temos que aprender com a Natureza. A Natureza gosta de redundância (temos dois rins, dois olhos, dois ouvidos…). A Natureza não gosta de super-especialização, super-eficiência. É preciso ter gordura para queimar…

  2. Adolfo Neto disse:

    Pois é, Nassim Taleb já havia falado sobre isso em “O Cisne Negro”: temos que aprender com a Natureza. A Natureza gosta de redundância (temos dois rins, dois olhos, dois ouvidos…). A Natureza não gosta de super-especialização, super-eficiência. É preciso ter gordura para queimar…

  3. Marconi Arruda disse:

    Dizem as más línguas que o baixo custo de produção no oriente (= china) deve-se a subemprego e exploração em geral. Assim que a economia melhorar na Europa e nos EUA (porque até lá ninguém deve falar nada…), as pessoas devem se recusar de compactuar com este tipo de exploração. Se o BR conseguir diminuir aqui os seus custos, podemos abocanhar grande parte deste $$$ mercado. Entretanto, temos também que formar técnicos e engenheiros aos montes. Será que iremos conseguir? Tomara. Eu estou otimista.

  4. Marconi Arruda disse:

    Dizem as más línguas que o baixo custo de produção no oriente (= china) deve-se a subemprego e exploração em geral. Assim que a economia melhorar na Europa e nos EUA (porque até lá ninguém deve falar nada…), as pessoas devem se recusar de compactuar com este tipo de exploração. Se o BR conseguir diminuir aqui os seus custos, podemos abocanhar grande parte deste $$$ mercado. Entretanto, temos também que formar técnicos e engenheiros aos montes. Será que iremos conseguir? Tomara. Eu estou otimista.

  5. Eratostenes disse:

    Esta questão – a empresa está em que território – ainda está muito nebulosa. Após a globalização, há correntes que defendem o conceito de que não há mais fronteiras e, portanto, território passou a ser irrelevante. Outras não pensam assim. Mas, com a crise global na economia, seus resultados apontaram para sabermos qual delas tem razão.

  6. Eratostenes disse:

    Esta questão – a empresa está em que território – ainda está muito nebulosa. Após a globalização, há correntes que defendem o conceito de que não há mais fronteiras e, portanto, território passou a ser irrelevante. Outras não pensam assim. Mas, com a crise global na economia, seus resultados apontaram para sabermos qual delas tem razão.

  7. Silvio:

    Construir uma base industrial em tecnologias de ponta e esforço de décadas. A inconsistência das políticas públicas no Brasil reduz muito a chance de sucesso de nossas programas industriais. Esta inconsistência decorre do chamado “pragmatismo responsável” que domina a gestão da economia brasileira desde os anos Itamar. Esse pragmatismo repudia o uso do investimento público como elemento de política industrial. Dinheiro público é só para construir escolas, hospitais e viadutos. E também para alguns convênios convenientes. Para investir em tecnologia de retorno a longo prazo, nem pensar.

    O INPE acompanha a mais de duas décadas o crescimento da indústria espacial chinesa. É impressionante constatar na prática a importância da estratégia de longo prazo na construção sistemática de uma base industria.

    O primeiro satélite meteorológico chinês, lançado em 1988, durou uma semana. Hoje eles estão lançando 20 satélites por ano. Mesmo assim, ainda não alcançaram a qualidade que os EUA tinham no seu auge do programa espacial. Até hoje, o satélite de sensoriamento remoto mais duradouro da China foi o CBERS-2 (feito junto com o Brasil) que funcionou por cinco anos e meio. Por contraste, o LANDSAT-5 (satélite americano equivalente) foi lançado em 1984 e funciona até hoje, 27 anos depois. Os chineses sabem avaliar bem a distância tecnológica que separa a China de 2010 da NASA de 1980. Mas trabalham duro para superar os americanos. Tem dinheiro, vontade politica, engenheiros dedicados.

    Enquanto isso, o Brasil patina. O INPE não recebe investimentos significativos em recursos humanos do governo há 20 anos. O programa espacial faz opções de curto prazo. É mais importante comprar tecnologia de fora do que ter paciência e perseverança de investir na indústria nacional de alta tecnologia.

    Se Deus existisse e eu fosse conselheiro Dele, obrigaria aos gestores públicos brasileiros ficar internados por seis meses na China conhecendo as estratégias nacionais dos chineses antes de assumir cargos de responsabilidade no Brasil. Mas só o Diabo existe…

    Abraços
    Gilberto
    (de volta de minha segunda viagem à China em 2011)

    • srlm disse:

      gilberto… este fim de comentário…

      Se Deus existisse e eu fosse conselheiro Dele, obrigaria aos gestores públicos brasileiros ficar internados por seis meses na China conhecendo as estratégias nacionais dos chineses antes de assumir cargos de responsabilidade no Brasil. Mas só o Diabo existe…

      …deveria ser LEI em países-de-curto-prazo-e-mandatos como o brasil.

      parabéns e grato pela contribuição à discussão.

  8. Silvio:

    Construir uma base industrial em tecnologias de ponta e esforço de décadas. A inconsistência das políticas públicas no Brasil reduz muito a chance de sucesso de nossas programas industriais. Esta inconsistência decorre do chamado “pragmatismo responsável” que domina a gestão da economia brasileira desde os anos Itamar. Esse pragmatismo repudia o uso do investimento público como elemento de política industrial. Dinheiro público é só para construir escolas, hospitais e viadutos. E também para alguns convênios convenientes. Para investir em tecnologia de retorno a longo prazo, nem pensar.

    O INPE acompanha a mais de duas décadas o crescimento da indústria espacial chinesa. É impressionante constatar na prática a importância da estratégia de longo prazo na construção sistemática de uma base industria.

    O primeiro satélite meteorológico chinês, lançado em 1988, durou uma semana. Hoje eles estão lançando 20 satélites por ano. Mesmo assim, ainda não alcançaram a qualidade que os EUA tinham no seu auge do programa espacial. Até hoje, o satélite de sensoriamento remoto mais duradouro da China foi o CBERS-2 (feito junto com o Brasil) que funcionou por cinco anos e meio. Por contraste, o LANDSAT-5 (satélite americano equivalente) foi lançado em 1984 e funciona até hoje, 27 anos depois. Os chineses sabem avaliar bem a distância tecnológica que separa a China de 2010 da NASA de 1980. Mas trabalham duro para superar os americanos. Tem dinheiro, vontade politica, engenheiros dedicados.

    Enquanto isso, o Brasil patina. O INPE não recebe investimentos significativos em recursos humanos do governo há 20 anos. O programa espacial faz opções de curto prazo. É mais importante comprar tecnologia de fora do que ter paciência e perseverança de investir na indústria nacional de alta tecnologia.

    Se Deus existisse e eu fosse conselheiro Dele, obrigaria aos gestores públicos brasileiros ficar internados por seis meses na China conhecendo as estratégias nacionais dos chineses antes de assumir cargos de responsabilidade no Brasil. Mas só o Diabo existe…

    Abraços
    Gilberto
    (de volta de minha segunda viagem à China em 2011)

    • srlm disse:

      gilberto… este fim de comentário…

      Se Deus existisse e eu fosse conselheiro Dele, obrigaria aos gestores públicos brasileiros ficar internados por seis meses na China conhecendo as estratégias nacionais dos chineses antes de assumir cargos de responsabilidade no Brasil. Mas só o Diabo existe…

      …deveria ser LEI em países-de-curto-prazo-e-mandatos como o brasil.

      parabéns e grato pela contribuição à discussão.

  9. Alexandre Porfírio disse:

    Como se não batasse toda a força industrial da china, agora também em superiorida tecnológica…

  10. Alexandre Porfírio disse:

    Como se não batasse toda a força industrial da china, agora também em superiorida tecnológica…

  11. Claudio disse:

    Não sabia que o USA estava assim, então o distrito industrial do Mundo é a China, os outros países apenas importam e fabricam a caixa (gabinete) e colocam sua LOGO.

  12. Claudio disse:

    Não sabia que o USA estava assim, então o distrito industrial do Mundo é a China, os outros países apenas importam e fabricam a caixa (gabinete) e colocam sua LOGO.