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Escrito por • 27/05/2014

o brasil é do tamanho da…

rússia e malásia. um pouco menos ou pouco mais. e isso quando a medida é o fluxo de conhecimento para dentro e fora do país, como parte das trocas globais. os tamanhos relativos são mostrados no gráfico abaixo e dizem muito sobre o estado de coisas em que estamos. o brasil é só um pouco maior do que a suécia [que tem 1/20 de nossa área e população, e 1/4 do PIB], menor do que a irlanda e bem menor do que cingapura [que só tem 1/12.000 de nossa área e 1/40 da população]. e eu e você poderíamos dizer que tudo seria uma beleza se não estivéssemos na era do conhecimento e da informação, onde a apple, por exemplo, fabrica suas “coisas” em qualquer lugar [literalmente, inclusive no brasil] mas o resultado, que não é criado pela fabricação mas pela “criação” de coisas… fica nos EUA. simples assim. e quem é que está no canto mais alto, mais à esquerda da imagem?… seguido de quem?… pois é.

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a china descolou dos países emergentes, é claro. a índia tem software e serviços associados de classe mundial, mas fica quase só por aí, o que é muito pouco face ao tamanho do país e ao potencial de seus 1.2 bilhões de habitantes. todas as trocas globais dependem de troca de informação, e não é de hoje. a imagem abaixo mostra o crescimento anual de cada classe de trocas nos dez anos entre 2002 e 2012, com um aumento de 52% a.a. no volume de dados e comunicações que trafega entre os países.

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batendo numa tecla muito gasta –mas ainda não entendida por muitos políticos e governantes- a digitalização dos  fluxos de comunicação e o estabelecimento de novas formas de conectividade, do começo da internet pra cá [os últimos 20 anos], é a base de uma nova onda e radical de globalização. novos produtos e serviços, novas formas de definir, encomendar e entregar velhos produtos e serviços, serviços completamente digitais e globais, que substituem produtos e serviços que eram essenciais antes da rede redefinem mercados e mudam –às vezes destroem- cadeias de valor antes imaginadas eternas. como os correios: o velho negócio de carregar cartas de papel entre endereços físicos já foi quase totalmente substituído por novas formas de conectar e interagir que, em quase toda geografia, vem de fora. olhe o gráfico abaixo. nesta onda, alguns correios se redesenham; outros, não. como o nosso.

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e olhe para serviços: já em 2005, mais da metade de todos as trocas globais de serviços tinha mediação digital. os 63% de 2013 devem corresponder a quase todos os serviços que podem ser intermediados digitalmente, em função de possibilidades tecnológicas correntes e limites [legais, regulatórios e outros] à virtualização em cada país. no longo prazo, até porque o resto do mundo vai se conectar, é provável que as barreiras à globalização diminuam e muito mais mercados se abram para provedores do mundo inteiro. a imagem abaixo mostra como o fluxo global de dados cresceu entre 2008 e 2013, mas também como continua centrado nos EUA, por tudo o que já se sabe. ainda mais, parte do planeta está bem menos conectada do que deveria e não deixa de ser muito significativo o fato de que a conexão américa latina – EUA serve muito mais para nós consumirmos o que lá se produz, digital e físico e para os EUA intermediarem nossas transferências digitais com o resto do mundo. não se deve esquecer, ao olhar para a imagem abaixo, que o fluxo US-LA é como se fosse um download de coisas pelas quais pagamos [serviços digitais, muitos, de emeio a redes sociais e software corporativo como serviço] combinado com um upload de coisas pelas quais eles não pagam… como textos, imagens, vídeos, interações pessoais e em muitos casos corporativas… armazenadas e processadas em serviços globais que ficam em sua maioria [quase totalidade?…] nos EUA.

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todos os gráficos anteriores vêm do relatório global flows in a digital age, do mcKinsey global institute. vale a pena ler, vá lá. de resto, o brasil não é um país muito internacional, pelo menos se a medida for a porcentagem de usuários de faceBook que têm pelo menos 10% de amigos fora de seu país. será que nossos 4%, estáveis de 2011 a 2014, dizem que não estamos fazendo novos relacionamentos [fora do país, nas e por causa das redes sociais], e que [chute!] estes 4% já eram parte de nossas redes sociais [offline] de antes de faceBook?… talvez valesse a pena estudar esta coisa a sério. levando em conta que 3.2% da população global é migrante e que só 7% de nascidos no reino unido mora em outro país, isso é pouco [ou não?] pra explicar porque 32% dos súditos da rainha têm amigos no mundo inteiro e, principalmente, porque a porcentagem cresceu tanto em 3 anos? pra fazer contas, saiba que 0.7% dos brasileiros natos vive fora do país.

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nas comparações entre países, o brasil nunca é ajudado por análises de ambientes de negócios como o índice global de liberdade econômica da heritage foundation, onde estamos em 114o lugar, logo abaixo de honduras e benin e acima de belize e butão. no cenário atual, à exceção de investimentos para servir o mercado local, não dá pra pensar que alguém vai criar, localizar ou manter serviços digitais globais no brasil. na imagem a seguir, mostra-se parte do índice da heritage. como você pode ver, não são os EUA que estão lá no topo, e eles vêm caindo; o canadá está atraindo empresas que gostariam de se instalar nos EUA mas encontram dificuldades, ou empresas americanas que começaram a achar os EUA complicados demais… e olha que eles estão menos de 5 pontos, no índice, abaixo dos EUA, e estão do lado [e falam a mesma língua, etc…]. nós estamos quase 20 pontos abaixo no índice, não falamos nada parecido, e moramos longe. a grécia e a índia estão a pouco mais de um ponto de distância do brasil; uma saindo de uma crise monumental e tentando se reescrever como parte da europa e outra saindo de décadas da mesma política e prometendo um outro futuro a seus muito habitantes. qualquer mudança minimamente significativa fará qualquer um dos dois [e muitos outros] passar o brasil num susto, e nós vamos levar, no passo de cágado atual, décadas para sermos globalmente competitivos a ponto de conseguirmos criar e manter novos negócios inovadores de crescimento empreendedor –de classe global, e em e com TICs-, no brasil. pena.

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mas… e sempre há um mas… você e eu poderíamos dizer que, se a batalha é de índices, é só a gente procurar o índice apropriado. no happy planet index estamos à frente [31o lugar] da frança e japão [47 e 48o lugares]. a etiópia está num distante 103o lugar, à frente dos EUA, no centésimo quarto lugar. coitados dos americanos. a vida, lá, deve ser um inferno, pelo menos do ponto de vista do equilíbrio entre as pessoas e sua terra. quem sabe eles levam a burocracia e complicações da gente e, de repente, tudo ficará às mil maravilhas. sei não…

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o happy planet index é um índice de sustentabilidade da vida no país e não da felicidade das pessoas. este é um outro índice, totalmente diferente. nele, como você vê abaixo, nós não estamos à frente dos EUA, mas da frança e alemanha. estamos atrás da venezuela, mas os dados são de antes do atual caos por lá. mas… –você diria- o que importa é que estamos à frente dos argentinos. pelo menos até a copa…

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resumo da ópera? lá naquele primeiro gráfico, o das trocas globais intensivas em conhecimento, temos que evoluir rapidamente. os dez anos que começam agora são fundamentais para tal. o brasil precisa acordar, sair correndo atrás [reconhecendo que está muito atrasado] e aproveitar os insumos e oportunidades globais deste momento e dos próximos poucos anos. porque o estado de coisas da conectividade global está se firmando e vêm aí duas outras revoluções, a da robótica e a da genética. com seus índices, claro. tomara que, neles, o brasil não seja tão pequeno ou distante como está, hoje, nos índices da economia e sociedade da informação.

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5 Responses to o brasil é do tamanho da…

  1. Não há como refutar as suas palavras, elas são baseadas em fatos concretos. O problema e colocar representantes que, tendo superado a tentação de sempre querer ganhar com o nosso atraso, entendam e consigam fazer entender (de verdade), o avanço que esse tipo de atualização na gestão do nosso país pode provocar. O caminho é completamente outro do que vemos nas propostas fracas e completamente desgastadas da ‘direita’ e da ‘esquerda’ que andam gritando nos megafones enferrujados da nossa política. Salvo algum ‘milagre’, vai demorar.

  2. Fernando disse:

    Pois é Silvio, já estamos atrasados e ainda aparece gente em Brasília com esse tipo de ideia em 2014:
    Lei que Proíbe a aquisição de publicações gráficas de procedência estrangeira pelos órgãos públicos governamentais das esferas federal, estaduais e municipais.

    http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=609467

    Remar já é ruim, remar na contra-corrente é pior ainda :s

  3. Marcelo disse:

    Olá Silvio,
    Acho interessante a ideia de olhar os índices, mas também é importante entender como eles são produzidos. Afinal, podem sintetizar informações a partir de uma perspectiva que pelas fontes – me pareceu a americana – sem considerar o contexto de cada país. De qualquer forma, partindo das comparações que você colocou, pensei em algumas questões.
    Inicialmente, acredito que o fluxo de informação não dependa somente de empreendimentos ou serviços inovadores, mas também da existência de consumidores ou utilizadores. Sem contar a infraestrutura, a qual não recebe o investimento adequado e os serviços dela advindos são vendidos a muito caros. Ou seja, também precisamos avançar na infraestrutura e na utilização de internet em geral, tanto para comprar produtos e serviços quanto para troca informações com o governo ou outras pessoas.
    Em segundo, o fluxo internacional de informação poderia ser diferente em um futuro próximo. P projeto de lei do marco civil da internet, no intuito de diminuir a dependência em relação aos EUA, tentou criar a base legal para instalação de data-centers no Brasil, mas foi vencido por outros interesses. Acredito que se esse item tivesse sido aprovado, os gráficos do fluxo internacional de dados se modificariam significativamente nos próximos anos. Ademais, as trocas internacionais também dependem da integração do país com outras nações, como, por exemplo, os acordos comerciais sul-sul que foram celebrados nos últimos anos.
    Por fim, a ideia de atribuir uma categoria reificada “o brasil precisa acordar” não esclarece quais atores precisam trabalhar para mudarmos essa situação. Primeiramente, as teles precisam oferecer uma infraestrutura adequada a preços razoáveis. Em segundo, o governo deve prover mais condições dos cidadãos utilizarem a internet, isso vai além da tecnologia, mas principalmente renda e educação. Acredito que estamos avançando nesse sentido com os programas de renda mínima, com a recuperação da renda dos trabalhadores e com o recém aprovado PNE que vai dirigir 10% do PIB para educação. Junto de tudo isso, também temos que criar condições para inovação e adoção de tecnologia nos negócios, no governo e no terceiro setor.

  4. Márcia disse:

    Olá, prof.Sílvio! Como vai?
    Gostei muito do que disse sobre Novas profissões, novas possibilidades no CPFL. Por favor, é possível me indicar a fonte da pesquisa onde os líderes foram perguntados sobre o que os fazem líderes?