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Escrito por • 23/06/2009

o caso do jornalismo –e a [des]regulamentação das profissões-meio [1]

aproveitando a decisão do supremo sobre a inexigibilidade de diploma para exercício das profissões de jornalismo, este blog publica uma série de textos sobre o tema, tratando o problema mais geral: que profissões deveriam ser regulamentadas? e que outras, especialmente no caso brasileiro, deveriam ser desregulamentadas? a seguir, nosso primeiro capítulo. vários outros vão aparecer aqui nos próximos dias: sintonize.

uma semana depois do supremo garantir a inexigibilidade do diploma para o exercício das profissões associadas às formações de jornalismo, os lados envolvidos na disputa deveriam estar começando a se preparar, como o caso exige, para enxergar o futuro.

uma semana depois, estamos no tempo da missa de sétimo dia dedicada a parente querido, mas que sofria –muito- de doença terminal e a quem todos consideram que “descansou”, depois de longa e tenebrosa enfermidade. talvez seja este o estágio atual da discussãos sobre o finado diploma como requisito para se exercer a profissão de jormalista..

até porque nunca –até a ditadura- se exigiu diploma para que alguém estivesse jornalista no brasil. jornalismo, no passado, era tratado como um “estar” e não como, depois da ditadura, um “ser” regulamentado, alguém que passa por um processo de “diplomação” que o torna jornalista.

imagina-se que a lei que regulamentou a profissão foi repelida com veemência pelos que, à época, praticavam jornalismo; pois que era uma intromissão do regime em um sistema que estava estabelecido e há tempos articulado pelos seus próprios meios e o governo –especialmente o militar, interessado em tutelar tudo o que tivesse a ver com informação- não tinha que meter seu indesejável bedelho no assunto.

o status quo da época levou um choque e reagiu bravamente. mas algumas décadas de vigência das novas –agora velhas- regras foram suficientes para criar um novo status quo, que reage, hoje, ao fim da exigência do diploma para o exercício da profissão. claro que a reação contra as novas regras –ou a falta delas- não é homogênea. jornalistas como juca kfouri [veja declaração de juca aqui] e luís nassif [que fala sobre o assunto aqui], só para citar dois expoentes da profissão, nunca viram sentido em diploma ou formação específica em jornalismo como requisito essencial para ser um profissional da área. muito menos pra ser um bom profissional da área.

mas há uma linha de argumentação a favor da exigência do diploma que revela uma sociedade majoritariamente sintática [de aparência, símbolos], gente que parecia estar fazendo jornalismo “pelo” diploma e porque o diploma [e não o conhecimento…] garantia uma “reserva de mercado” para o exercício profissional e a renda correspondente. isso ao contrário do que seria de se esperar de um regime semântico [de valores, significados] embutido numa economia do conhecimento, onde estamos agora, e onde vale quem sabe e faz, na prática, na hora, sob demanda. que nem cantador em desafio.

no caso de jornalismo, por força de liminares, os diplomas já não eram exigidos há muito tempo; a decisão do supremo só, aparentemente, pôs uma lápide sobre o assunto. mesmo assim, muita gente que queria a continuidade do “diploma” está em estados que variam de revolta a desamparo, com alguns insinuando que, ao mudar suas expectativas de retorno de investimento no “diploma”deveria o Estado indenizá-los pelo desperdício. fosse esse o caso, o dos direitos [naturais] ad aeternum, congelar-se-ia a sociedade, definitivamente, e nada mais mudaria.

imagine que tal imutabilidade estivesse conosco há 200 anos: hoje, como resultado, haveria um rei no brasil, portugal seria um departamento ultramarino, teríamos escravos por todo lado, açoitados e negociados em público, e as mulheres [e de resto quase toda a população] estariam excluídas dos processos sociais… situações que foram mudadas, em boa parte, graças a jornalistas [sem diploma] libertadores e abolicionistas… que foram parte essencial do processo de mudança das regras e renovação do tecido social.

mas é muito difícil raciocinar claramente sobre mudanças, principalmente em termos do cenário mais amplo, quando nos sentimos atingidos em direitos que achamos nossos e fundamentais. mudar, inovar, evoluir, é a essência do humano; assim nos parece a todos. e isto parece ser ainda mais verdade quando somos os agentes da mudança e os “mudados” são terceiros, de preferência quartos, com os quais não tenhamos qualquer relação. eles, afinal de contas, estavam no tempo e lugares errados. quando nós somos os mudados… aí é o fim do mundo. e nossos “direitos”, afinal?

breve, neste mesmo blog e comentários, a sequência desta discussão. aguarde. e assine nosso RSS pra estar a par do que vai acontecer aqui.

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0 Responses to o caso do jornalismo –e a [des]regulamentação das profissões-meio [1]

  1. Eduardo disse:

    Na discussão sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo, os jornalistas contrários ao fim da exigência deixaram de lado um de seus princípios profissionais fundamentais: fidelidade aos fatos.

    http://fcarvall.blogspot.com/2009/06/casa-de-ferreiro-espeto-de-pau.html

  2. Eduardo disse:

    Na discussão sobre o fim da obrigatoriedade do diploma de jornalismo, os jornalistas contrários ao fim da exigência deixaram de lado um de seus princípios profissionais fundamentais: fidelidade aos fatos.

    http://fcarvall.blogspot.com/2009/06/casa-de-ferreiro-espeto-de-pau.html

  3. Oi Sílvio.

    Acho que em sua análise, falou citar os argumentos de grandes jornalistas a favor da exigência do diploma, como o Jâniio de Freitas (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2106200906.htm)

    Embora eu não negue nem a importância da meritocracia nem da necessidade de se flexibilizar os currículos para se adequar às demandas atuais de profissionais mais versáteis, eu acho que a longo prazo, o que vai acontecer é que irá prevalecer o ensino do jornalismo como uma habilidade puramente técnica, em detrimento da formação humanística tradicional que é dada ao curso, pautanto por exemplo em questões importantes como a história do jornalismo (que fomenta o senso crítico) e ética.

    Eu não acho que o jornalismo é como o curso de estatística, onde o profissional de estatística simplesmente perdeu sentido pq médicos e marqueteiros tb fazem estatística. Eu acho que embora os jornais impressos estejam em decadência e os blogueiros em ascenção, isso não tira a importância de uma boa formação para quem pratica o jornalismo de verdade, ainda mais considerando o importante papel da imprensa para a cidadania.

    Convido-o a tentar analisar o ponto dos que defendem o diploma além do simples estereótipo corporativista de que se trata de uma “reserva de mercado” e que vc reflita que a proposta da lei veio dos sindicatos patronais, interessados em flexibilizar a mão de obra. Ora, se jornalistas profissionais já são mal pagos, o que se pode esperar que seja intenção senão de poder contratar gente ainda mais barata para poder redigir as notícias cada vez mais vãs de fofocas e outras amenidades?

    Pq cá entre nós, nos grandes veículos, nunca foi problema colocar não-jornalistas como colunistas especializados (seja o Drauzio Varela, seja o José Sarney). A lei vai impactar é nos pequenos veículos, que se antes eram forçados a manter um jornalista responsável que consistiria um esforço mínimo de profissionalismo, agora não terá restrição nenhuma a empregar os tradicionais sobrinhos, piorando ainda mais o nível da imprensa.

    E eu não acho que é pq a imprensa vai mal que não se deve tentar reverter a situação. A web traz o jornalismo ao âmbito participativo, mas a web é uma nova mídia, não uma mudança de demanda. As pessoas continuarão precisando de jornalismo profissional, mesmo que a mídia mude e a indústria se reconfigure. Se fosse prá gente desistir de tudo o que está em crise, que desistíssemos da educação também, especialmente do ensino médio.

    • srlm disse:

      lk: trata-se de uma serie, vai ter uns seis textos, por ai; continue lendo… vamos repassar um bocado de coisas e eu vou chegar na tentativa regulamentacao da profissao de analista de sistemas, ora em curso no senado…

  4. Oi Sílvio.

    Acho que em sua análise, falou citar os argumentos de grandes jornalistas a favor da exigência do diploma, como o Jâniio de Freitas (http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2106200906.htm)

    Embora eu não negue nem a importância da meritocracia nem da necessidade de se flexibilizar os currículos para se adequar às demandas atuais de profissionais mais versáteis, eu acho que a longo prazo, o que vai acontecer é que irá prevalecer o ensino do jornalismo como uma habilidade puramente técnica, em detrimento da formação humanística tradicional que é dada ao curso, pautanto por exemplo em questões importantes como a história do jornalismo (que fomenta o senso crítico) e ética.

    Eu não acho que o jornalismo é como o curso de estatística, onde o profissional de estatística simplesmente perdeu sentido pq médicos e marqueteiros tb fazem estatística. Eu acho que embora os jornais impressos estejam em decadência e os blogueiros em ascenção, isso não tira a importância de uma boa formação para quem pratica o jornalismo de verdade, ainda mais considerando o importante papel da imprensa para a cidadania.

    Convido-o a tentar analisar o ponto dos que defendem o diploma além do simples estereótipo corporativista de que se trata de uma “reserva de mercado” e que vc reflita que a proposta da lei veio dos sindicatos patronais, interessados em flexibilizar a mão de obra. Ora, se jornalistas profissionais já são mal pagos, o que se pode esperar que seja intenção senão de poder contratar gente ainda mais barata para poder redigir as notícias cada vez mais vãs de fofocas e outras amenidades?

    Pq cá entre nós, nos grandes veículos, nunca foi problema colocar não-jornalistas como colunistas especializados (seja o Drauzio Varela, seja o José Sarney). A lei vai impactar é nos pequenos veículos, que se antes eram forçados a manter um jornalista responsável que consistiria um esforço mínimo de profissionalismo, agora não terá restrição nenhuma a empregar os tradicionais sobrinhos, piorando ainda mais o nível da imprensa.

    E eu não acho que é pq a imprensa vai mal que não se deve tentar reverter a situação. A web traz o jornalismo ao âmbito participativo, mas a web é uma nova mídia, não uma mudança de demanda. As pessoas continuarão precisando de jornalismo profissional, mesmo que a mídia mude e a indústria se reconfigure. Se fosse prá gente desistir de tudo o que está em crise, que desistíssemos da educação também, especialmente do ensino médio.

    • srlm disse:

      lk: trata-se de uma serie, vai ter uns seis textos, por ai; continue lendo… vamos repassar um bocado de coisas e eu vou chegar na tentativa regulamentacao da profissao de analista de sistemas, ora em curso no senado…

  5. Alan disse:

    Leonardo,

    se a formação profissional faz tanta diferença na qualidade do jornalista, não vejo motivos para chorar o leite derramado, porque os diplomados conquistarão, com méritos e com larga vantagem, o mercado de trabalho.

  6. Alan disse:

    Leonardo,

    se a formação profissional faz tanta diferença na qualidade do jornalista, não vejo motivos para chorar o leite derramado, porque os diplomados conquistarão, com méritos e com larga vantagem, o mercado de trabalho.

  7. Alan disse:

    Digo, formação superior em vez de formação profissional.

  8. Alan disse:

    Digo, formação superior em vez de formação profissional.

  9. jb disse:

    O jornalista Mauro Santayana, diz que jornalismo se não aprender faze-lo em três meses não se aprende mais.

  10. jb disse:

    O jornalista Mauro Santayana, diz que jornalismo se não aprender faze-lo em três meses não se aprende mais.

  11. Alan

    me parece óbvio que um sujeito que tenha passado 5 anos de sua vida estudando o assunto seja teoricamente o mais qualificado mesmo

    mas aí, como vc me explica que a lei tenha vindo dos próprios empregadores?

    ainda, todo mundo sabe que o mercado de jornalismo é péssimo e que os salários são ruins. Como vc espera que a lei atraia as mentes mais brilhantes para as redações dos jornais?

    ou será que a lei não vai servir é prá colocar a Ana Hickman como âncora de telejornal?

    quem eles estão querendo contratar para escrever a notícia que vc lê?

  12. Alan

    me parece óbvio que um sujeito que tenha passado 5 anos de sua vida estudando o assunto seja teoricamente o mais qualificado mesmo

    mas aí, como vc me explica que a lei tenha vindo dos próprios empregadores?

    ainda, todo mundo sabe que o mercado de jornalismo é péssimo e que os salários são ruins. Como vc espera que a lei atraia as mentes mais brilhantes para as redações dos jornais?

    ou será que a lei não vai servir é prá colocar a Ana Hickman como âncora de telejornal?

    quem eles estão querendo contratar para escrever a notícia que vc lê?

  13. interfaces_tr disse:

    teste

  14. interfaces_tr disse:

    teste

  15. Relator discute em chat projeto sobre crime pela internet – quinta-feira – 25/06/09 – 10 horas

    Proposta a ser votada na Câmara tem muitos pontos polêmicos, segundo especialistas. Temor é de que a nova lei a ser aprovada interfira na privacidade das comunicações online e na liberdade de acesso aos conteúdos.

    http://www2.camara.gov.br/internet/homeagencia/materias.html?pk=136692

  16. Relator discute em chat projeto sobre crime pela internet – quinta-feira – 25/06/09 – 10 horas

    Proposta a ser votada na Câmara tem muitos pontos polêmicos, segundo especialistas. Temor é de que a nova lei a ser aprovada interfira na privacidade das comunicações online e na liberdade de acesso aos conteúdos.

    http://www2.camara.gov.br/internet/homeagencia/materias.html?pk=136692

  17. Alan disse:

    Leonardo, os sindicatos servem para reinvidicar melhores condições de trabalho de uma determinada classe. A classe de jornalistas não acabará, muito menos seu sindicato.

  18. Alan disse:

    Leonardo, os sindicatos servem para reinvidicar melhores condições de trabalho de uma determinada classe. A classe de jornalistas não acabará, muito menos seu sindicato.

  19. Fernando Rodrigues disse:

    Ler o artigo e os comentários me leva a pensar, os brasileiros possuem inteligência suficiente para diferenciar sindicalismo de regulamentação? Infelizmente, me parece que não.

    Aqui se costuma culpar a ferramenta (regulamentação) pelo mau uso dela (corporativismo). Conselhos não são sindicatos. Aqui ainda irão proibir as picaretas pelo seu uso indiscriminado em assassinatos, mas os picaretas continuarão cada vez mais fortes, agora sem qualquer necessidade de conselho.

    • srlm disse:

      fernando,

      pode haver conselho [e sindicato] sem diploma e até sem formação [superior ou não] específica; jornalismo é uma área MEIO; veja meu post de amanhã. acho que REGULAR, no brasil, se confunde muito com diploma. e temos que SEPARAR isso… quanto mais rapido, melhor…

  20. Fernando Rodrigues disse:

    Ler o artigo e os comentários me leva a pensar, os brasileiros possuem inteligência suficiente para diferenciar sindicalismo de regulamentação? Infelizmente, me parece que não.

    Aqui se costuma culpar a ferramenta (regulamentação) pelo mau uso dela (corporativismo). Conselhos não são sindicatos. Aqui ainda irão proibir as picaretas pelo seu uso indiscriminado em assassinatos, mas os picaretas continuarão cada vez mais fortes, agora sem qualquer necessidade de conselho.

    • srlm disse:

      fernando,

      pode haver conselho [e sindicato] sem diploma e até sem formação [superior ou não] específica; jornalismo é uma área MEIO; veja meu post de amanhã. acho que REGULAR, no brasil, se confunde muito com diploma. e temos que SEPARAR isso… quanto mais rapido, melhor…

  21. Afonso disse:

    É de estranhar que jornalistas desdenhem da exigência do diploma para permitir o exercício profissional se hoje, praticamente, em qualquer instância, este documento é solicitado, senão em formação plena, mas através de certificados de conclusão de cursos de curta duração.
    Considerando este critério válido, qualquer profisssão estará sujeita a ponderações desta natureza, a começar pela área de saúde, cujos cuidados são oferecidos em inúmeras modalidades alternativas, tornando o curso regular de medicina algo perfeitamente opcional.
    Quanto à existência de um jornalismo especializado, nada a declarar. Mas o exercíco e prática ligados a uma empresa de comunicação merecem uma regulamentação específica não somente pelos aspectos qualitativos quanto à sua formação ética e cultural, mas pelo amparo profissional que oferece que, de outro modo, não encontrará seu lugar.
    Ao meu ver esta medida leva a que a atividade jornalística além de perder a característica básica de classe profissional, permite que aventureiros e pessoas motivadas somente por questões circunstanciais, se envolvam com ela.
    Lastimável num País que tem uma dívida cultural gigantesca com seu povo.

  22. Afonso disse:

    É de estranhar que jornalistas desdenhem da exigência do diploma para permitir o exercício profissional se hoje, praticamente, em qualquer instância, este documento é solicitado, senão em formação plena, mas através de certificados de conclusão de cursos de curta duração.
    Considerando este critério válido, qualquer profisssão estará sujeita a ponderações desta natureza, a começar pela área de saúde, cujos cuidados são oferecidos em inúmeras modalidades alternativas, tornando o curso regular de medicina algo perfeitamente opcional.
    Quanto à existência de um jornalismo especializado, nada a declarar. Mas o exercíco e prática ligados a uma empresa de comunicação merecem uma regulamentação específica não somente pelos aspectos qualitativos quanto à sua formação ética e cultural, mas pelo amparo profissional que oferece que, de outro modo, não encontrará seu lugar.
    Ao meu ver esta medida leva a que a atividade jornalística além de perder a característica básica de classe profissional, permite que aventureiros e pessoas motivadas somente por questões circunstanciais, se envolvam com ela.
    Lastimável num País que tem uma dívida cultural gigantesca com seu povo.

  23. Gustavo Junior Alves disse:

    Vejo tantos comentários dizendo que então a medicina não precisa ser regulamentada. A regulamentação não impede a prática de charlatanismo, como a acupuntura e a homeopatia. Conselho não é sinônimo de proteção ao consumidor e sim reserva de mercado.

  24. Gustavo Junior Alves disse:

    Vejo tantos comentários dizendo que então a medicina não precisa ser regulamentada. A regulamentação não impede a prática de charlatanismo, como a acupuntura e a homeopatia. Conselho não é sinônimo de proteção ao consumidor e sim reserva de mercado.