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Escrito por • 31/12/2009

o fim do ano e dos jornais…

warren buffet, aquele que tem um toque de midas para investimentos, já foi um grande fã da indústria da notícia e botou seu dinheiro [e de seus investidores] em jornais. mas isso foi há muito tempo. recentemente, o oráculo de omaha disse que não investiria em nenhum jornal, sejá lá a que preço fosse. pra ter uma ideia do contexto de tal declaração, veja o gráfico abaixo, do SAI.

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o emprego, nos jornais americanos, regrediu meio século, para menos da metade do seu auge na década de 80. o gráfico acima mostra dados de ninguém menos que o BLS, o bureau of labor statistics, responsável oficial pelos números de emprego nos estados unidos.

no brasil, estamos pra reviver o diploma obrigatório para o emprego [não necessariamente o trabalho] de jornalista. imagina-se que haverá muitos concursos e vagas na mídia oficial, porque o mercado do que se costumava chamar de mídia, especialmente jornais, não parece lá estas coisas.

para se ter uma idéia do futuro do jornalismo, e descartando a possibilidade de patrocínio, as contas do marketWatch apontam para uma renda média de US$0.02 por pageview, dos quais se acredita que 25% seja overhead. sem levar em conta os custos de infraestrutura para disseminação e conectividade, um jornalista que espere ter uma renda de US$40K por ano teria que ter 11.000 pageviews por dia de trabalho [ao redor de 250 por ano].

a conta não fecha nem em jornais de renome mundial como o new york times, segundo o marketWatch: o NYT teve 145M pageviews em novembro, o que dá menos de 4.000 pageviews por dia para cada um de seus 1.250 jornalistas. nos EUA, US$40K não é um grande salário; mesmo assim, se nem o pessoal do NYT chega perto de 11.000 pageviews por dia, lá, imagine aqui, onde nem banda pra isso temos, ainda.

no longo prazo, a menos que alguma coisa muito diferente esteja para acontecer, vai valer o princípio de pareto, a conhecida lei dos 80-20: 20% dos noticiários em rede terão 80% da disseminação e conectividade e 20% dos textos terão 80% dos pageviews. o resto irá para a lata de lixo da história, será escrito de graça, terá patrocínio de alguma forma… mas deverá estar fora do centro da economia da rede.

o que não significa que não será feito: um grande número de boas [e independentes] fontes de informação começa a ser financiado por grupos de interesse que querem ver certos pontos de vista debatidos abertamente. este é o caso de www.oeco.com.br, talvez o melhor conteúdo ambiental brasileiro, inicialmente patrocinado pela fundação avina e hoje pela fundação hewlett.

mas oEco não é um jornal, nem quer ser; tampouco é mídia oficial, nem cobra diploma de jornalista pra quem colabora com o site. oEco está situado depois da crise da imprensa escrita, falada e televisada. e pode ser um dos bons laboratórios pra se entender o futuro dos noticiários brasileiros.

pra fechar o ano, um jornal muito antigo: abaixo, o facsimile da primeira página do primeiro diário de pernambuco, de 1825, primeiro jornal da américa do sul e ainda imprimindo, diariamente, na assaz populosa cidade do recife. clique na imagem para vê-la em alta definição; vale a pena. e note que, lá no começo, se tratava de um “diario de annuncios”… exatamente o que vem sendo transferido, dia após dia, para a internet.

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0 Responses to o fim do ano e dos jornais…

  1. Paulo Pina disse:

    Feliz Ano Novo Professor!

  2. Silvio, seu artigo ficou ótimo.

    Minha leitura, não.

    Quando chega a parte do fac simile, que não posso chamar de final, eu fico esperando um final, uma amarração clássica, aquela onde os jornalistas clássicos colocam sua opinião como verdade absoluta, bem como Platão fazia.

    Seu artigo é um convite ao diálogo, como Sócrates fazia, e eu, ainda e muitas vezes, não me permito dialogar com figuras tão brilhantes.

    Parabéns pelo artigo, parabéns pela produção.

    Quero poder dialogar mais com vc em 2010.

  3. Não ver quem não quer.

    Feliz 2010!

  4. Charles disse:

    Muito me estranha o título de seu texto.
    Em minha região, nunca se viu tantos jornais surgirem como nos últimos anos!!!
    Internet? Será mesmo que ela já é acessível a toda população?
    Será que o povo, em sua maioria, pode adquirir modens de banda larga e pagar provedores, que muitas vezes seus preços nem condizem com suas velocidades?
    Na minha região, os jornais circulam gratuitamente, ou ao menos, em preços acessíveis, trazendo as mais relevantes notícias da cidade e adjacências.
    Isso porque estou falando da realidade do Brasil. Imaginemos só se falássemos de Honduras, por exemplo.
    Portanto, entendo que os jornais irão perdurar muitos séculos, cada vez mais fortalecidos, para a tristeza dos meios de comunicação concorrentes. Entendo também que Internet é algo futurista, que não condiz com a atual realidade. Algo muito parecido com as cenas do filme Star Trek.

  5. Silvio, apesar de ter entendido a conta do MarketWatch, tenho uma dúvida com relação ao seu ponto de vista: você acha inviável que uma agência de notícias ou produtor de conteúdo cobre do consumidor?

    Eu penso que, com esta proliferação de veículos gratuitos, blogs amadores e infomediários, o volume de lixo na internet é tão grande que a curadoria e o aval de um veículo com credibilidade só aumenta de valor. Dê uma olhada no caso da revista inglesa Monocle. Que só faz crescer nos últimos anos.

  6. Paulo Nasc disse:

    Excelente artigo professor Meira. Tudo com elevado padrão de qualidade silviomeirense. Oportuníssimo esse novo endereço para ser frequentado, o OECO. Ecoou legal. Material de primeira, esse artigo de C.C. “Mata Branca Está em Brasa”. Porém, e sempre tem um porém, o Celso articulista é, digamos, o Celso e o, vá lá, o senador, jogam com a mesma camisa, no mesmo time? (Valha-me Deus) lá se foi a credibilidade.