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Escrito por • 07/04/2010

o livro digital e seus direitos de leitor

parece que os livros digitais vão começar a ser um mercado, de verdade e em breve. a amazon está lá, a sony também, assim como a barnes & noble e agora a apple, trazendo seus fanáticos consumidores para a cena do livro digital. sim, e há um monte, dezenas, de xing-ling-readers, pelo menos meia dúzia dos quais tem aspirações a ser a hyundai do livro digital. mas há que se lembrar que o “reader”, o dispositivo que fica na sua mão, é só uma pequena parte da solução. ou uma grande parte do problema, você escolhe.

claro que ninguém sabe, a esta altura do campeonato, o que vai acontecer com o livro digital; aliás, este foi o tom das discussões do primeiro congresso internacional do livro digital, CILD, que rolou em são paulo semana passada; este blog esteve na conversa e os slides da palestra estão neste link.

_meira congresso livro digital marco 2010 sao paulo 01_Cleo Velleda-IO (2)

este blog já discutiu, mais de uma vez, o livro digital e sua economia: mais recentemente, falamos sobre a chegada da pirataria digital à literatura, coisa que está para acontecer de várias e muito efetivas formas. num artigo correlato, reproduzimos um grande texto de nelson motta sobre as mudanças que o universo digital impingiu ao mercado de música, onde nelsinho deixa claro que, do ponto de vista de conteúdo e informação musical, a descentralização do poder e da capacidade de “produção”, resultados diretos da digitalização em rede… “pulverizou a informação e transformou um céu de poucas estrelas muito brilhantes em novas constelações e galáxias”. ao invés de poucos e “grandes” artistas, muitas, pequenas e grandes, possibilidades. como diria clay shirky, haja filtro.

pois é; de um jeito ou de outro, vem aí o livro digital e, com ele, a aplicação da lei de zucker ao mercado literário. jeff zucker, CEO da NBC/U, disse um dia quea revolução da informação é a transformação de dólares analógicos em centavos digitais”. troque o contexto geográfico e moeda dele pelos nossos e você vai ter uma idéia do que já acontece aqui na música e vídeo e acontecerá em breve na literatura. este. aliás, foi um de meus slides no CILD, reproduzido abaixo.

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mas isso é o mercado e, de uma forma ou de outra, ele vai se resolver. e este post é só sobre um dos temas mais quentes ao redor dos livros digitais, que eu passei quase ao largo na minha apresentação no CILD: quais são os direitos do leitor do livro digital? tipo… se você compra um livro [e paga por ele…] e, de repente, ele é recolhido pelo editor ou por ordem judicial, a sua cópia digital é recolhida? sim ou não? se sim, você é reembolsado? se o seu leitor for o kindle, a resposta é sim; e se for o iPad? a apple é mais radical e faz, e estará fazendo censura prévia de conteúdo, já para bater o centro. mais radicalmente, se um golpe de estado proíbe um livro que você tem [e certamente, leu] e resolve ir atrás dos leitores, os ditadores conseguem seu nome e endereço do fornecedor do seu livro? sim ou não?…

literalmente, o controle que a amazon e a apple querem exercer sobre seu modelo de livro digital é mais uma tentativa, em tempos de rede, de retornar o poder para o centro. aposto, pelas mais variadas razões, que não vai funcionar. e, pra não ficar só na aposta, aponto para e traduzo, aqui, parte de um texto da electronic fronteir foundation, a EFF, sobre livros digitais e os direitos dos leitores, que aponta oito principais crivos de sanidade para seu leitor digital. ah, lembre-se: seu leitor está em rede; ele não é um mero dispositivo e sim um sistema, tem um monte de software dentro e por trás dele e, não por acaso, troca dados sobre seus hábitos de leitura no mínimo com quem lhe vendeu o conteúdo.

vamos ver o crivo da EFF, que faz perguntas muito importantes sobre este novo mercado; ao lê-las, tenha em mente que estamos falando sempre de um sistema, cuja ponta visível é um dispositivo digital que mostra conteúdo e faz, ou deveria fazer, muito mais. e parte do problema é exatamente por aí: quanto deste mais é de nosso interesse e está sobre nosso controle?

1. seu e-reader [como um todo, serviço incluído] respeita sua privacidade? será que o sistema limita o envio de informação sobre o que você está lendo? e deixa você controlar a informação que ele coleta e envia [para outros sistemas] sobre você?

2. seu leitor lhe diz o que está fazendo? ou seja, mesmo que esteja enviando seus dados para o mundo, você sabe disso? seu leitor permite investigar se ele está vazando informação sobre você para algum ouvinte externo?…

3. o que acontece às adições feitas por você [comentários, anotações…] aos seus livros digitais? você é o dono e guardião delas, podendo controlar quem e como tem acesso às mesmas?

4. você é o dono do livro que lê ou só alugou ou licenciou o mesmo? você pode emprestar seu e-book? pode revender? seu livro pode ser editado ou deletado pelo vendedor por alguma razão?…

5. seu e-book é resistente à censura? quão fácil é tirar os livros dos leitores em função de alguma decisão de governo, justiça ou outra qualquer? os seus livros, “no” leitor, são controlados por uma entidade única, sujeita a pressão política ou qualquer outra, que venha a implicar na censura aos seus e-books como consequência?

6. seus livros digitais são “protegidos” por algum tipo de DRM [gestão de direitos digitais]? como DRM limita seu uso do livro? seu livro digital, em particular, só “funciona” no seu dispositivo atual? o que acontece se você trocar de dispositivo? vai ter que comprar seus livros “de novo”?…

7. sua escolha de “sistema” de livro digital promove o amplo acesso ao conhecimento? os autores podem, ou não, usar licenças do tipo creative commons ou doar o material ao domínio público? em que condições?

8. um particular sistema de livros digitais promove ou inibe a competição e inovação? ao comprar um sistema, você casa para sempre com um tipo de leitor e um formato de livro? seu provedor de literatura digital depende de ou promove acordos que limitam a competição?…

muitas boas perguntas, muitas delas sem nenhuma resposta de nenhum dos sistemas hoje no mercado, o que as torna um ponto de partida para a especificação de um conjunto de alternativas futuras, interoperáveis e transparentes, dos sistemas que realmente queremos usar.

de qualquer forma, as nossas esperanças de não perder o controle sobre nossas vidas e hábitos, da periferia para o centro e mesmo no confuso cenário atual, são muitos: alguém hackeou o iPad logo no primeiro dia e abriu as entranhas da coisa pra gente mexer no que quiser, correndo o risco que quiser. esta vai ser uma longa luta da comunidade, na periferia, contra os provedores, no centro, que querem ter nas mãos cada um dos nossos bits e, quem sabe, neurônios.

não é por acaso que o título da minha palestra era… literatura digital: o passado recente e o futuro próximo, vistos de um presente confuso… pois ainda falta muita, muita definição, padrões e, quem sabe, regulação, além de muito tempo e recursos investidos em tentativas, erro e aprendizado, até que a coisa toda fique mais ou menos normal, daqui a alguns anos, uma década, quem sabe. até lá, trate tudo deste mercado experiência.

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0 Responses to o livro digital e seus direitos de leitor

  1. Bruno Bezerra disse:

    Uma realidade verdadeiramente confusa e que levará alguns anos até pegar um prumo razoável, enquanto isso… vamos lendo e virando as páginas no sossego do livro convencional.

  2. Bruno Bezerra disse:

    Uma realidade verdadeiramente confusa e que levará alguns anos até pegar um prumo razoável, enquanto isso… vamos lendo e virando as páginas no sossego do livro convencional.

  3. Pedro Daltro disse:

    Não é a primeira vez que olho para uma foto sua e penso ser o Clay Shirky.

    Abs e parabéns pelos posts.

  4. Pedro Daltro disse:

    Não é a primeira vez que olho para uma foto sua e penso ser o Clay Shirky.

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  5. Aparecido Araujo Lima disse:

    Sílvio, algupem saberia me dizer como vai ficar os trabalhadores neste processo de produção do livro digital?
    Aguardo
    Abs
    Cido

  6. Aparecido Araujo Lima disse:

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  7. rui pereira disse:

    Prezado Silvio

    Venho acompanhando seu trabalho , sobretudo no projeto OJE e gostaria de manter um contato para que , se for de seu interesse , possamos fazer um convênio ( ou algo similar) junto a UERJ ( Universidade do Estado do Rio de Janeiro ).
    Sou professor da UFRJ , mas estou desenvolvendo projeto na área de divulgação científica na UERJ.
    Do mesmo modo , se possível , gostaria de obter mais informações sobre o projeto OJE.

    Atenciosamente

    Rui Pereira

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    Atenciosamente

    Rui Pereira

  9. Weslley Silva Torres disse:

    Olá! Muito legal o post, mas eu estava pensando a respeito e você não acha que antes da gente fazer essas perguntas listadas por você, a gente deveria perguntar se as pessoas vão deixar de ler um livro impresso para ler um e-book… O que você acha? As pessoas fariam esta troca, livro convencional por livro eletrônico?

    Atenciosamente

  10. Weslley Silva Torres disse:

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  11. Putz, excelente post! #duca

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  21. Romano disse:

    Muito interessante o “post” de Paulo Colelho sobre SOAP. O que me fez lembrar que devemos a muitos pela explosão do uso da internet.

    Vejamos: a IBM concebeu o PC e liberou para todo mundo copiá-lo. A Microsoft, com o lema de um computador em cada casa, popularizou o PC. Como? Vendendo Windows? Não, “fechando os olhos” (?!) para a pirataria caseira. Depois que dominou o mercado, começou alianças com fabricantes de “hardware” para instalá-lo em fábrica e ganhar com isso. Foi a melhor forma de “combater” a pirataria, já que o mercado estava dominado.

    Um exemplo que talvez justifique essa linha de raciocínio seja o OS/2. Um excelente S.O. que não vingou porque não houve pirataria suficiente. Enquanto isso o Linux, livre, começou a dar trabalho.

    Quando a internet chegou a ponta já estava toda preparada, cheia de PCs e usuários ávidos por, finalmente, encontrar um utilidade para suas máquinas.

    Voltando um pouco antes da internet, todo tipo de artefatos anti-pirataria foi tentado pela indústria de software, inclusive usando chaves de “hardware”. Até que o DoD resolveu que não compraria mais qualquer “software” protegido. E a pirataria continuou, pricipalmente nos EUA.

    Um exemplo: um compilador pascal custava US$250,00, mas poucos estavam dispostos a pagar por isso. Quando a empresa baixou o preço para U$S25,00, venderam mais de 25 milhões de cópias! Claro. Quem não ia querer uma, além de legal, com suporte, documentação e tudo o mais?

    Faz ou não sentido esse “modelo de negócios” descrito pelo Paulo Coelho?

    E a SOPA vai esquentar ou vai esfriar de vez até ficar intragável?

    p.s.: essa é uma avaliação e não um incentivo a pirataria.

  22. Romano disse:

    Muito interessante o “post” de Paulo Colelho sobre SOAP. O que me fez lembrar que devemos a muitos pela explosão do uso da internet.

    Vejamos: a IBM concebeu o PC e liberou para todo mundo copiá-lo. A Microsoft, com o lema de um computador em cada casa, popularizou o PC. Como? Vendendo Windows? Não, “fechando os olhos” (?!) para a pirataria caseira. Depois que dominou o mercado, começou alianças com fabricantes de “hardware” para instalá-lo em fábrica e ganhar com isso. Foi a melhor forma de “combater” a pirataria, já que o mercado estava dominado.

    Um exemplo que talvez justifique essa linha de raciocínio seja o OS/2. Um excelente S.O. que não vingou porque não houve pirataria suficiente. Enquanto isso o Linux, livre, começou a dar trabalho.

    Quando a internet chegou a ponta já estava toda preparada, cheia de PCs e usuários ávidos por, finalmente, encontrar um utilidade para suas máquinas.

    Voltando um pouco antes da internet, todo tipo de artefatos anti-pirataria foi tentado pela indústria de software, inclusive usando chaves de “hardware”. Até que o DoD resolveu que não compraria mais qualquer “software” protegido. E a pirataria continuou, pricipalmente nos EUA.

    Um exemplo: um compilador pascal custava US$250,00, mas poucos estavam dispostos a pagar por isso. Quando a empresa baixou o preço para U$S25,00, venderam mais de 25 milhões de cópias! Claro. Quem não ia querer uma, além de legal, com suporte, documentação e tudo o mais?

    Faz ou não sentido esse “modelo de negócios” descrito pelo Paulo Coelho?

    E a SOPA vai esquentar ou vai esfriar de vez até ficar intragável?

    p.s.: essa é uma avaliação e não um incentivo a pirataria.

  23. Romano disse:

    Enquanto isso:

    “Anti-Piracy Victory: NinjaVideo Founder Sentenced to 14 Months in Prison”
    Published: January 20, 2012 @ 3:33 pm

    http://www.thewrap.com/media/column-post/anti-piracy-victory-ninjavideo-founder-sentenced-14-months-prison-34639

  24. Romano disse:

    Enquanto isso:

    “Anti-Piracy Victory: NinjaVideo Founder Sentenced to 14 Months in Prison”
    Published: January 20, 2012 @ 3:33 pm

    http://www.thewrap.com/media/column-post/anti-piracy-victory-ninjavideo-founder-sentenced-14-months-prison-34639