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Escrito por • 06/09/2011

o livro, o digital e o autor

lá em maio de 2009, que em termos da evolução do mundo digital é quase na idade média, este blog publicou um texto {pirataria [digital] chega à literatura [de uma vez por todas} que começava assim:

que o suporte físico para áudio e vídeo está com os dias contados, não é novidade pra ninguém. a mudança do suporte físico [analógico] para o virtual [em rede, digital] desestruturou uma indústria secular, que havia começado com o gramophone da vovó. em alguns anos, a velha indústria de áudio e vida será só história, nada mais.

a pergunta que temos que fazer, agora, é: será que chegou a vez da mesma transição na literatura?

o texto de 2009 foi escrito um ano depois do lançamento do kindle 2 e quase um ano antes do lançamento do iPad. nossos hábitos mudam tão rapidamente que há fortes indícios de que seis meses de disponibilidade do iPad aumentaram a pirataria de livros em 20%. radical.

estudo de nielsen sobre o uso de tablets, readers e smartphones e os novos hábitos das pessoas e seus dispositivos no primeiro trimestre de 2011…

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…mostra que 57% dos usuários de tablets [e 61% de quem usa leitores digitais] estão brincando com os ditos na cama e que o tempo de uso destas plataformas…

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,,,passa pelo leito com grande intensidade: 21% do uso total de tablets se dá por lá, bem como 37% do uso de leitores. uma boa parte deste tempo era, quase certamente, ocupada por livros de papel em passado nem tão remoto assim.

e a mudança ainda nem começou, porque a ecologia de livros digitais é recente e sofre, em sua infância, de problemas básicos associados a padrões, formatos e implementações, de socialização, de modelos de negócio e por aí vai. ainda estamos longe da possibilidade, por exemplo, de alguém escrever um livro e de outro, sobre o texto original, escrever e vender comentários e considerações.

o livro virtual ainda é apenas digital e muito limitado. a vasta maioria não passa de representações digitais estáticas do material impresso, e de qualidade inferior ao que as melhores editoras e gráficas pode fazer. mas vamos lembrar a indústria do livro impresso começou assim há uns 500 anos… e deu no que deu: os monges copistas tiveram que arranjar outra coisa para fazer.

imagine, em alguns anos, o livro digital, interativo, conectado e social. reflita sobre as novas economias que deverão surgir sobre esta nova plataforma. e pense no tamanho da mudança.

mesmo antes disso, olhe resumo abaixo [feito por james bradley] de uma intervenção de ewan morrison no festival do livro de edinburgh…

…the transition to ebooks will be rapid, that the same pressures from piracy and consumer behaviour that have reshaped the economics of other industries will drive book prices down to levels which are incapable of supporting authors, and that this in turn will lead to the fairly rapid collapse of the economy of advances and royalties that has sustained professional writers.

morrison diz que… haverá uma transição célere para o livro digital, que as mesmas pressões da pirataria e comportamento do consumidor que remodelaram a economia de outras indústrias vão derrubar os preços dos livros a níveis em que será impossível sustentar autores e que isso, por sua vez, levará ao rápido colapso da economia de antecipações e royalties que mantém, há décadas, autores profissionais.

uma versão bem mais longa e conectada do argumento de morrison está neste link, onde ele diz que o processo de transição de papel para digital [e o fim do "escritor" como conhecemos] está acontecendo neste quarto de século.

não é preciso ser nenhum vidente para prever mudanças radicais na indústria do livro frente à magnitude da mudança na ecologia de criação, publicação e distribuição [ou seria socialização?…] do que era, no passado, o impresso. muita coisa vai mudar, e talvez muito mais do que os mais radicais, entre nós, podemos imaginar agora. e a mudança vai afetar a todos, incluindo os autores [e leitores] e não apenas as editoras, livrarias e bibliotecas.

pense numa biblioteca daqui a 100 anos. uma biblioteca que não tenha tomos históricos. antigamente [isto é, hoje] as pessoas iam até lá, pessoalmente, principalmente porque havia, lá, material ao qual elas não tinham acesso em casa [ou, mais recentemente, na rede]. ao passo em que toda a literatura se tornar digital e conectada… qual será o novo [ou novos] papel da biblioteca? ponto de encontro cultural? clube literário? centros de pensamento e reflexão? talvez todos estes e muitos outros mais. mas uma coisa é certa: seja qual for o lugar das bibliotecas daqui a 100 anos, elas terão muito menos papel, mofo e traças.

o texto de morrison é considerado apocalíptico por muitos. eu acho que não. trata-se de um diagnóstico de uma situação real, pintado com tintas fortes. quem se preparar para enfrentar o pior provavelmente se dará muito bem no novo contexto e aproveitará suas consequências. quem ficar esperando que o passado resista ao futuro, ao contrário, sofrerá as consequências.

o futuro nunca espera e nem deixa de acontecer porque discordamos dele. quando vem, o futuro sempre tem razão. no caso do livro, o digital, interativo, social é o futuro óbvio. e está bem mais perto do que o quarto de século de morrison: boa parte dele vai acontecer nesta década.

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0 Responses to o livro, o digital e o autor

  1. Bruno Bezerra disse:

    Já que o universo digital, interativo e social é o futuro do livro… o autor, mais do que o próprio leitor, deve mergulhar de cabeça, corpo e alma nesse mesmo universo.

    Não custa nada lembrar: independente de tudo… sem autor não existe livro. Mas… fora do universo digital, interativo e social, o livro pode resumir, inviabilizar e até fazer sumir… um autor e sua obra.

  2. Bruno Bezerra disse:

    Já que o universo digital, interativo e social é o futuro do livro… o autor, mais do que o próprio leitor, deve mergulhar de cabeça, corpo e alma nesse mesmo universo.

    Não custa nada lembrar: independente de tudo… sem autor não existe livro. Mas… fora do universo digital, interativo e social, o livro pode resumir, inviabilizar e até fazer sumir… um autor e sua obra.

  3. Marcos Rocha disse:

    A constante da vida é a mudança. Até aqui nada de novo em termos de tecnologia, Há que se refletir sobre o que se encontra na internet, lembrando que esta proporcionou uma facilidade de acesso imensa, mas nem sempre a qualidade dos textos e informações são adequdas.
    Quanto aos autores, acredito que como a terceira lei de Newton recomenda, tudo tem que estar em equilíbrio, o que acontecerá inivitávelmente, e quanto aos aspecto da qualidade, cada vez mais será necessário mentes pensantes e quiça mentes brilhantes para nos oferecer obras primas.
    O ser humano é adaptável, os escritores são meio camaleões, agora a indústria editorial… esta não estou bem certo. Mas a transição está ai!

  4. Marcos Rocha disse:

    A constante da vida é a mudança. Até aqui nada de novo em termos de tecnologia, Há que se refletir sobre o que se encontra na internet, lembrando que esta proporcionou uma facilidade de acesso imensa, mas nem sempre a qualidade dos textos e informações são adequdas.
    Quanto aos autores, acredito que como a terceira lei de Newton recomenda, tudo tem que estar em equilíbrio, o que acontecerá inivitávelmente, e quanto aos aspecto da qualidade, cada vez mais será necessário mentes pensantes e quiça mentes brilhantes para nos oferecer obras primas.
    O ser humano é adaptável, os escritores são meio camaleões, agora a indústria editorial… esta não estou bem certo. Mas a transição está ai!

  5. Cristina disse:

    Muito interessante o post. As definições atuais de livro e de artigo científico estão inegavelmente atreladas ao suporte físico que permitiu esses conceitos por séculos: o papel. Essas definições são baseadas em páginas. Ora, o conceito de página perde sentido no meio digital. Por exemplo, um “livro” digital pode conter vídeos, jogos, músicas, além de imagens interativas. Não faz sentido falar em páginas. Não tem sentido restringir o novo conceito às limitações do livro impresso. Por isso o livro terá um fim, devido à inadequação de seu próprio conceito ao ambiente digital. Vale o mesmo para artigo científico.

    Quanto à autoria, os autores de documentos digitais deverão ganhar por hora trabalhada e não por item vendido. A produção será feita por equipes e não por indivíduos.

    A biblioteca atual será um museu, dos mais interessantes, sem dúvida.
    Mas a nova biblioteca, aquela com conteúdo digital, existirá? faz sentido?

  6. Cristina disse:

    Muito interessante o post. As definições atuais de livro e de artigo científico estão inegavelmente atreladas ao suporte físico que permitiu esses conceitos por séculos: o papel. Essas definições são baseadas em páginas. Ora, o conceito de página perde sentido no meio digital. Por exemplo, um “livro” digital pode conter vídeos, jogos, músicas, além de imagens interativas. Não faz sentido falar em páginas. Não tem sentido restringir o novo conceito às limitações do livro impresso. Por isso o livro terá um fim, devido à inadequação de seu próprio conceito ao ambiente digital. Vale o mesmo para artigo científico.

    Quanto à autoria, os autores de documentos digitais deverão ganhar por hora trabalhada e não por item vendido. A produção será feita por equipes e não por indivíduos.

    A biblioteca atual será um museu, dos mais interessantes, sem dúvida.
    Mas a nova biblioteca, aquela com conteúdo digital, existirá? faz sentido?

  7. Adolfo Neto disse:

    Eu acho que ainda existe um bom espaço para livros contendo somente texto. Nem todos são semi-alfabetizados que precisem tanto assim de vídeos e fotos. 🙂

  8. Adolfo Neto disse:

    Eu acho que ainda existe um bom espaço para livros contendo somente texto. Nem todos são semi-alfabetizados que precisem tanto assim de vídeos e fotos. 🙂

  9. Stella disse:

    Olá sr. Silvio, tudo bem? Meu nome é Stella Dauer, sou ebook evangelist e editora do site Revolução e-book. Adorei o seu texto, e gostaria de saber se posso publicá-lo no site, com seus créditos e link para esse post, caso queira. E, caso se interesse mais pelo assunto de ebooks, pode ficar a vontade também para escrever mais vezes para o site.
    Aguardo retorno
    Obrigada desde já
    Stella

  10. Stella disse:

    Olá sr. Silvio, tudo bem? Meu nome é Stella Dauer, sou ebook evangelist e editora do site Revolução e-book. Adorei o seu texto, e gostaria de saber se posso publicá-lo no site, com seus créditos e link para esse post, caso queira. E, caso se interesse mais pelo assunto de ebooks, pode ficar a vontade também para escrever mais vezes para o site.
    Aguardo retorno
    Obrigada desde já
    Stella

  11. Silvio Roberto disse:

    Morrisson disse que não será possível sustentar os autores. Entendo que não será possível sustentar os intermediários – editoras e livrarias – pelo menos não na forma atual.

    Cada autor será seu próprio editor e livreiro. Os leitores serão os revisores e avaliadores de conteúdo. E, claro, co-autores, em muitos casos.

    Silvio.

  12. Silvio Roberto disse:

    Morrisson disse que não será possível sustentar os autores. Entendo que não será possível sustentar os intermediários – editoras e livrarias – pelo menos não na forma atual.

    Cada autor será seu próprio editor e livreiro. Os leitores serão os revisores e avaliadores de conteúdo. E, claro, co-autores, em muitos casos.

    Silvio.

  13. Brincar com smartphones na cama, acordar com ele. Estou desenvolvendo um aplicatvo para as pessoas brincarem com os seus sonhos nos smartphones.
    Clique no meu nome que vc vai para o blog que fala do aplicativo.

  14. Brincar com smartphones na cama, acordar com ele. Estou desenvolvendo um aplicatvo para as pessoas brincarem com os seus sonhos nos smartphones.
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  15. Alexandre disse:

    Gostaria de registrar que li este artigo deitado em minha cama, usando um tablet. Apenas para reforçar os dados apresentados. E eu concordo com sua opinião sobre as posturas que as pessoas adotam diante dessa nova ordem que está se estabelecendo. Não entro no mérito de quem está certo ou errado. Mas cuidar para oferecer o que há de melhor ao seu público é um comportamento que representa o valor que uma indústria dá ao seu cliente (ou consumidor). Com toda essa facilidade de comunicação que já temos disponível por todo lado, por que não experimentar isso no que ainda conhecemos como livros?

  16. Alexandre disse:

    Gostaria de registrar que li este artigo deitado em minha cama, usando um tablet. Apenas para reforçar os dados apresentados. E eu concordo com sua opinião sobre as posturas que as pessoas adotam diante dessa nova ordem que está se estabelecendo. Não entro no mérito de quem está certo ou errado. Mas cuidar para oferecer o que há de melhor ao seu público é um comportamento que representa o valor que uma indústria dá ao seu cliente (ou consumidor). Com toda essa facilidade de comunicação que já temos disponível por todo lado, por que não experimentar isso no que ainda conhecemos como livros?