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Escrito por • 01/09/2008

patentes, o novo febeapá

nos tempos da ditadura militar no brasil, stanislaw ponte preta [o jornalista sérgio porto] resolveu nos dar ciência do rol de coisas estúpidas proclamadas, país afora, pelo regime e seus acólitos. era de deixar qualquer um, no mínimo, pasmo. stanislaw, o crítico, batizou sua lista de FEBEAPÁ, o "festival de besteiras que assola o país".

o rol de babaquices tinha preciosidades como a que se segue, publicada pelo jornal o povo, de fortaleza, aí pelos idos de 1966: O Dr. Josias Correia Barbosa, advogado e professor, esteve à beira de um IPM (Inquérito Policial Militar) por haver passado um telegrama para sua sobrinha Loberi, em Salvador, comunicando-lhe que a bicicleta e as pitombas tinham seguido. Houve diligências pelas vizinhanças, parentes foram procurados e outras providências tomadas. Passados dois dias, soube o Dr. Josias que o despacho telegráfico não fora transmitido porque um James Bond do DCT (Departamento de Correios e Telégrafos) estranhara os termos "bicicleta", "pitombas" e "Loberi", que "deviam ser de um código secreto".

ss-20080901000156.pngpois bem. foi-se a ditadura e a hilariedade de cenas como esta. mas não falta motivo pra riso, talvez antes da gente ter que chorar por causa das conseqüências. pra se ter uma idéia, sabe o leitor o que acaba de ser patenteado no USPTO, o poderoso registro americano de patentes e marcas? as teclas "page up" e "page down" do seu e do meu teclados!… as teclas foram associadas, na patente, às suas óbvias finalidades… é o fim do mundo. a patente foi dada à microsoft, como sendo de "um sistema e método para navegar conteúdo paginado, de página em página". não é incrível? e esta é apenas uma entre cerca de 10.000 patentes da microsoft.

de uns tempos pra cá, o USPTO começou a conceder patentes sobre [basicamente] qualquer coisa, para quem quer que faça um pedido minimamente organizado. e isso levou as grandes empresas americanas a entrar numa espiral de patenteamento de essencialmente tudo que faça parte de seus sistemas e serviços. basta lembrar que a amazon.com detém a patente do processo de compra em um só click em sites de comércio [one click shopping]. parte do problema pode vir do cerco de pequenas empresas criadas, às vezes, apenas como fachada para litígios sobre propriedade intelectual.mas o certo é que a amazon proibiu a competição de usar 1-click com base na patente e, depois, licenciou a idéia para algumas companhias [como a apple, para iTunes].

a apple detém [entre muitas outras] uma patente para leitores de notícias embutidos em browsers e a ibm, pra trucar todo mundo, pediu uma patente sobre como ganhar dinheiro com… patentes! a ibm tem cerca de 40.000 patentes e submete 10 novas solicitações por dia, chova ou faça sol, sábados, domingos e feriados. só que a coisa parece estar chegando no limite: tanto ibm como microsoft estão entre as empresas que defendem uma revisão do sistema de patentes dos estados unidos, sobre o qual o USPTO parece que perdeu o controle há pelo menos uma década, especialmente quando se trata de proteger software. deve estar difícil manter o carrossel de patentes girando, com muitas solicitações sendo feitas para manter uma paz armada entre as empresas e evitar processos vindos de gente que está no mercado apenas para achar furos nos sistemas de propriedade intelectual das grandes empresas. o USPTO tem mais de um milhão de pedidos de patente em análise…

o resultado, enquanto não se faz uma ampla revisão do sistema, é o FInPI, festival internacional de patentes idiotas, como este pedido, de google: "método e sistema para prover acesso sem fio a preço reduzido", incluindo preço zero. e você não leu errado não: google, pra não ficar atrás da competição [até que tentou…] resolveu patentear o acesso gratuito, sem fio, à internet. pode? e google tem outros 3.847 pedidos na fila, esperando análise, muitos tão idiotas como este. é mole ou quer mais? vá até o site de busca do USPTO e entre com o nome de uma companhia de sua escolha. e espere pra ver o samba do patenteador doido, imitação americana de outra criação genial de sérgio porto, o samba do crioulo idem

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0 Responses to patentes, o novo febeapá

  1. Cacthos disse:

    Isso é marketing viral da Microsoft… 😛

  2. Cacthos disse:

    Isso é marketing viral da Microsoft… 😛

  3. Jorge Alberto disse:

    Sergio Porto, o nosso Stanislaw Ponte Preta sempre será atual enquanto a humanidade atualizar as suas mancadas.

    🙂

  4. Jorge Alberto disse:

    Sergio Porto, o nosso Stanislaw Ponte Preta sempre será atual enquanto a humanidade atualizar as suas mancadas.

    🙂

  5. daniel disse:

    Só um comentário: fui ver a lista de 3800 e pouca patentes do Google e, as 5 que cliquei no inicio da lista, nao era do Google… Elas apareceram no resultado da busca porque tinham “google” em algum lugar do texto, por exemplo, fazendo referencia ao Google Earth ou ao Google Talk.

    Isso nao muda a essencia da nota: um bando de empresas tentando conseguir patentes, por mais obvias que sejam…

  6. daniel disse:

    Só um comentário: fui ver a lista de 3800 e pouca patentes do Google e, as 5 que cliquei no inicio da lista, nao era do Google… Elas apareceram no resultado da busca porque tinham “google” em algum lugar do texto, por exemplo, fazendo referencia ao Google Earth ou ao Google Talk.

    Isso nao muda a essencia da nota: um bando de empresas tentando conseguir patentes, por mais obvias que sejam…

  7. daniel disse:

    Complementando o comentario anterior, das 8300 e poucas, apenas 125 (perto de 1,5%) sao MESMO depositadas pelo Google. Procure, la na interface, por “AN/google”

  8. daniel disse:

    Complementando o comentario anterior, das 8300 e poucas, apenas 125 (perto de 1,5%) sao MESMO depositadas pelo Google. Procure, la na interface, por “AN/google”

  9. Fred Barros disse:

    O número de patentes registradas por um país é utilizado como termômetro da sua evolução tecnológica. Para se ter idéia do tamanho da importância disso até no balanço de pagamentos de qualquer país entram as remessas derivadas do pagamento de patentes a outros países. Claro, O Brasil sempre paga mais do que recebe. Patentes são importantes mas acho que algo se perdeu nesse engodo.

  10. Fred Barros disse:

    O número de patentes registradas por um país é utilizado como termômetro da sua evolução tecnológica. Para se ter idéia do tamanho da importância disso até no balanço de pagamentos de qualquer país entram as remessas derivadas do pagamento de patentes a outros países. Claro, O Brasil sempre paga mais do que recebe. Patentes são importantes mas acho que algo se perdeu nesse engodo.