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Escrito por • 12/10/2009

pelos celulares [e muito mais]… nas salas de aula

parece até comemoração do dia da criança [e do adolescente]: o observer, jornal dominical inglês, publicou neste domingo uma entrevista do secretário-geral do principal sindicato de diretores de escola do país, defendendo o fim da proibição de uso de celulares nas salas de aula.

o debate inclui um aluno que teve o celular confiscado e foi expulso da sala ao fotografar o quadro-negro ao invés de copiá-lo no caderno. segundo mick brookes, da national association of head teachers

"He broke the rules, but we need to ask why the ban was put there in the first place. We have to recognise the world that children inhabit, not expect them to leave it at the school gate."

…o garoto quebrou as regras, mas a primeira coisa a fazer é perguntar porque elas foram criadas. temos que reconhecer o mundo em que as crianças vivem, e não esperar que elas o abandonem na porta da escola. afinal de contas, por que mesmo é que se tem que “copiar o quadro”? hoje, principalmente, quando o quadro deveria estar na rede [e nem fotografá-lo com o celular deveria ser o caso]?…

mick brookes vai além, ao comentar a relação entre escola, o sistema e métodos de ensino, as tecnologias da informação e seu uso pelos alunos:

"It is very important that children have an idea of the chronology of historical events, but we expect them to know the precise dates that they happened. Why? Even historians can’t decide among themselves which dates children should learn. If children want the date of the Battle of Hastings, they will google it…" 

em tradução livre… é importante que as crianças tenham uma idéia da cronologia dos eventos históricos, mas nós [o sistema] esperamos que elas saibam as datas precisas em que tais eventos ocorreram. por que? mesmo os historiadores não chegaram a um acordo sobre as datas que as crianças deveriam aprender. e se as crianças quiserem saber a data da batalha de hastings, elas perguntam a google…

isso! brookes comenta e critica uma vasta parte do processo de aprendizado ao qual as crianças são submetidas, ainda hoje, processo este que vem dos tempos em que nem livros havia. sem textos e bibliotecas, cada um tinha que ser sua própria enciclopédia e o período escolar servia para comprimir, no cérebro do aluno, a maior quantidade possível de informação. às vezes, sem qualquer crítica ou reflexão; as coisas eram por que eram.

“aprender” deste jeito, no caso do brasil, significava saber desde a lista dos principais afluentes do amazonas, por margem [você sabe quantos e quais são? e pra que serve isso?], ao que disse goulart no comício da central do brasil e vargas, no dia do trabalho de 1951… e o problema não é só de história e geografia… por que é mesmo que ainda se ensina [como se ensina] tabuada nas escolas?

a tal da tabuada [que está embutida, e muito mais, em qualquer celular, por sinal] é ensinada como se a multiplicação não fosse distributiva. crianças que sabem muito bem quanto é 9×3 e 9×4 fazem um esforço monumental para descobrir quanto é 9×7; vai ver, os professores das primeiras séries nem desconfiam do assunto, provado há milênios.

quando eu era menino, dia da criança era tempo de cantar uma valsa de francisco alves e rené bittencourt, composta em 1952 e tornada ubíqua pelo palhaço carequinha. a canção dizia… Criança feliz, feliz a cantar/ Alegre a embalar/ seu sonho infantil/ Oh! meu bom Jesus,/ que a todos conduz/ Olhai as crianças/ Do nosso Brasil…

pelo que se vê na maior parte do sistema educacional, seus arcaísmos e tecnofobia, parece que, apesar de tão cantada, a música não foi ouvida pelo bom jesus ou nem ele, olhando as crianças de perto, conseguiu mudar o estado de coisas na escola.

ainda bem que há exceções… e uma delas está aqui em pernambuco: a olimpíada de jogos educacionais, uma tentativa em larga escala de aumentar a ludicidade do ensino e estender a escola para muito depois das paredes das salas de aula. tomara que muito mais gente [além das mais de 2.000 equipes que participaram este ano] tenha a oportunidade de, na sua escola, usar mais tecnologia, com mais liberdade, para aprender.

nisso, mick brookes está certo. e mais

"Whatever young people bring into school there is a chance that it is misused in some way… We mustn’t be Luddite about the technology that young people take for granted."

…qualquer coisa que os alunos trouxerem para a escola pode acabar sendo usada de formas não canônicas… [mas] nós não devemos ignorar as tecnologias que fazem parte da vida dos mais jovens.

até porque devemos lembrar que linguagem, qualquer uma, pode ser vista como tecnologia. pela noção e uso serem antigas, não as temos rejeitado no processo educacional, apesar do uso muitas vezes inapropriado na escola. ainda bem.

e tecnologia, no aprendizado, não precisa ser só computação [ou celulares]. que tal usar jogos pervasivos [que podem, mas não necessariamente devem, usar TICs], jogados na cidade inteira, como cryptoZoo e B.U.G.?… as aulas, escola e aprendizado ficariam muito mais interessantes, animados e, sem dúvida, mais eficientes e eficazes.

e as crianças, na escola, poderiam viver realmente mais felizes, a cantar, como na valsinha do rei da voz

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0 Responses to pelos celulares [e muito mais]… nas salas de aula

  1. andré neves disse:

    em um evento de educação alguém pergunta ao palestrante:

    celular e mp3 player atrapalham a “aprendizagem”?

    resposta:

    o que atrapalha a aprendizagem é professor ruim e aula mal preparada!

  2. claudiovany teixeira disse:

    Adorei a matéria. Tenho duas filhas adolescentes e percebo o desinteresse em algumas matérias, como por exemplo, história.
    Elas dizem que não conseguem guardar datas e alguns nomes atribuidos a eventos históricos. Acho que os professores deveriam fazer uso de todas as ferramentas disponiveis para agregar alunos e dispertar o interesse.

  3. Andrea disse:

    O que atrapalha as aulas, é a educação dos pais, pois os mesmos, colocam toda a responsabilidade da educação na escola/professores.
    A escola local de APRENDIZAGEM. EDUCAÇÃO EM CASA.

  4. Regina Coeli disse:

    Importantissima esta materia! deveria ser amplamente divulgada, pq todos nos que temos adolescentes estudando atualmente nos moldes das atuais escolas, mesmo as mais modernas e caras, enfrentamos dificuldades em faze-los se interessarem mais pelas materias e aulas, em vista do metodo e TECNOLOGIA aplicados!

  5. Marise Borba disse:

    Expressou o que eu tenho dito aos meus alunos e alunas professores, para que avancem em suas idéias e práticas. Não vêem ele que as crianças fogem da escola como o diabo da cruz, por falta de sintonia entre o que lhes oferecem e as coisas de seu tempo (tempo da crianças)! Vou trabalhar este texto em aula para que seja gerada uma bela discussão!

  6. Fabiano Alves disse:

    O modelo escolar já está ultrapassando há décadas, pra não dizer séculos. A figura passiva do aluno é um vício que não conseguimos superar, seja por parte dos professores que se acomodaram ao estilo de ensino, como por parte dos próprios alunos que foram condicionados a aceitar tal situação. Sugiro um vídeo muito bacana que complementa com algumas outras boas idéias de como deve ser o ensino no futuro: a palestra da Patrícia Konder Lins e Silva (http://videolog.uol.com.br/video.php?id=391906) diretora pedagógica da Escola Parque (http://www.escolaparque.g12.br/) realizada no Descolagem #3 em 2008.

  7. Jaqueline disse:

    Parabéns pela excelente matéria. Sou professora de informática, graduada em Licenc. em Computação e vejo de perto o dia-a-dia dos professores que ainda não conseguiram mudar seu estilo antigo de “ensinar”. Concordo plenamente que se forem oferecidas aulas com mais criatividade e usando a tecnologia que faz parte do mundo desta garotada desde antes deles nascerem, o resultado seria muito melhor. Sílvio tu me autoriza a publicar esta matéria no meu blog? Com a citação da devida fonte, é claro! Abraço!

  8. Cristina de Paula disse:

    Pertinente e atualissima a materia: Ha de discutir-se Qual EDUCAÇAO queremos para esta geraçao que nao tem o que pensar, criticar ou CRIAR….é para muitas outras opiniões. Educação é tudo!

  9. Ada Russia disse:

    Excelente a matéria! A prova que a educação escolar deve mudar é o fato de que alunos que até o final do Ensino Fundamental têm conceitos ótimos e só ótimos, ao serem testados para Ensino Médio, têm grandes dificuldades, acredito que as escolas preocuparam se apenas com o conteúdo em si, sem tentar desenvolver habilidades necessárias ao desenvolvimento intelectual. Parabéns pela matéria.

  10. Fabiula disse:

    Silvio, acho profundamente válida a discussão, mas extremamente parcial. É claro que o sistema educacional precisa de total transformação, mas não podemos esquecer q durante muitos anos o vestibular foi (e ainda é) parâmetro para o conteúdo dado nas escolas. O q vejo, hoje, são escolas se utilizando da tecnologia como jogada de marketing para obter mais matrículas, alunos (pasme!) q têm celulares espetaculares pedem para q eu deixe de enviar a lousa para seus emails pq preferem copiar. Alegam não conseguir estudar depois, tamanha é sua pradronização mental propiciada pelo velho sistema. Some-se a isso, professores q têm verdadeiro pavor de tecnologia. Acho q vivemos um período de transição entre tudo isso e devemos, todos, adaptarmo-nos o mais breve possível. Mas não se pode atribuir apenas ao despreparo de alguns professores a péssima educação atual. As universidades e a sociedade tb integram o processo, sem falar da massificação, consciente, do sujeito contemporâneo. Resumindo: o buraco é mais embaixo!

  11. Oi Silvio, como sempre otima discussão.
    Isso me fez refletir muito como será a humanidade daqui a alguns anos, será que ficaremos muito mais em casa e seremos mais sozinhos, ou , por termos mais velocidade de raciocínio e menos tempo tentando decorar poderemos ter mais tempo livre ? Acho que sua discussão pelo menos me traz a lembrança de como odiava ficar lendo aquelas porcarias para ter que decorar datas… afinal, já sabia que aquilo não me levaria a nada… pensar é mais importante que decorar…
    A tecnologia a nosso favor, a favor da felicidade da humanidade 🙂 (Pelo menos esta parte, que como eu, sempre ficou entediada das aulas comuns que temos até hoje, só decoraba…)

  12. Luiz Henrique disse:

    Por que as crianças não podem? Tenho participado de alguns eventos nos quais os marmanjos fotografam até a projeção dos slides na parede.

  13. Roberto Pontual disse:

    Sílvio, os comentários são pertinentes e, aproveitando a visibilidade na mídia do Enem e vestibulares, poderiam servir como início de uma discussão maior. As coisas que ensinamos aos nossos jovens são realmente úteis para o mundo em que irão viver?
    Tenho 50 anos, e minha filha de 18 usa o mesmo currículo que eu usei na década de 70. Qual a razão de exigir que adolescentes estudem Química, Física, Matemática e Biologia por 3 anos com tal intensidade? Imagino que cerca de 80% do que é ensinado hoje no ensino médio é inútil na faculdade e na vida. Qual a utilidade de saber a função da mitocôndria (nunca esqueci este nome) e não saber lições básicas de cidadania. Segue um link que discute o assunto de forma clara e bem humorada – vale a visita (http://www.ted.com/talks/lang/eng/ken_robinson_says_schools_kill_creativity.html).
    O uso de novas tecnologias e linguagens é apenas parte da discussão

  14. Lenne Ferreira disse:

    Muito bem vinda essa discurssão. Já está na hora das escolas repensarem seu métodos de ensino e encararem a realidade que vem se apresentando. Se faz extremamente necessária e urgente a elaboração de uma metodologia que se adeque ao universo em que os jovens estão inseridos. Como você bem colocou, eles não podem deixar seus valores culturais no lado de fora da escola.

  15. Onofre Santiago disse:

    Sílvio,
    Embora aprecie os temas que você coloca em questão, tenho a impressão que algumas vezes os seus pontos vão mais para o lado da panfletagem que para o argumento embasado:

    Dentro do contexto do uso de celular nas aulas, por exemplo, “temos que reconhecer o mundo em que as crianças vivem, e não esperar que elas o abandonem na porta da escola.” é duplamente infeliz. Por um lado, ampara-se na enganadora e ultrapassada (ainda que sempre recorrente nos discursos de “administradores de escola”) dicotomia mundo VERSUS escola. Por outro lado, defende que o celular tem que fazer parte de TODOS os lugares do mundo.

    Para piorar a situação, o artigo ainda mistura a velha questão do atraso metodológico com a defesa de ferramentas tecnológicas digitais (às quais não sou contrário) como se não fosse possível um novo modelo de educação com lápis e caneta. Isto leva o leitor a “ajoelhar no milho”: ou aceita o celular na escola ou se vê como alguém que concorda com o pior do método tradicional de ensino.

  16. Beatriz Santos- Recife disse:

    Sílvio,
    A dez anos caminho nessa rota do uso das novas tecnologias a favor da aprendizagem e sei que o pouco que uso (limites da escola pública) já faz um efeito enorme na desenvolvimento intelectual dos pequenos. Mas nem tudo pode ser absorvido na sala de aula. A tecnologia precisa ter um próposito, já utilizei celular como recurso nos textos SMS para alfabetizar. Foi “Megabyte”!!! No caso do uso dos alunos como recurso para estudo a fotografia,.. seja ela da simples cópia do quadro!
    Vale e muito a discussão….Sou a favor! E sugiro a escola inglesa de até montar uma exposição fotográfica das aulas mais interessante da escola. Muito bom….outro momento de aprenzigem ….Viva!!!

  17. Gabriela disse:

    Ótima discussão. Há que se repensar o papel da escola, e os mecanismos de aprendizagem, pois cada vez mais, crianças irão forçar isso, nascendo quase que praticamente vendo celulares e lidando com computadores de forma absolutamente natural. Para o aluno que tirou essa foto, a atitude foi a mais normal possível, já para a escola retrógrada…há um conflito de gerações, há uma falta de discussão e preparo da escola para essas novas situações. Por que não ensinar ao aluno como essas novas ferramentas podem auxiliá-lo no aprendizado, ao invés de lhe tolher a iniciativa? A escola não deve privar isso, deve, sim, orientar para que o uso da tecnologia não seja desperdiçado no fomento da aprendizagem. Houve a época em que se condenou o vídeo-game e eu vivi isso. Mas, ainda bem que minha mãe nunca me privou dos jogos, pois hoje acredito que muito da minha rapidez de raciocínio e concentração se deve aos tais joguinhos. Não punam o desconhecido, pois ele pode ser melhor do que o “conhecido acomodado”. Conheçam as novas ferramentas e orientem seus alunos a utilizá-las para aprender cada vez mais.

  18. Rosane Faria disse:

    O aluno esta coberto de razão,pois criam-se meios tecnológicos, mas os impedem de utiliza-los.Cabe ao professor se apropriar das tecnologias para facilitar sua vida e a dos alunos. Eu que sou professora de artes , cansei de usar o bluetooth para passar musicas barrocas e renascentistas para meus alunos que compartilhavam ainda mais a minha aula de artes visuais.Eles sempre usaram a máquina fotográfica do celular para registrar as pranchas dos grandes pintores famosos que eu levava nas aulas O que não dá é o aluno usar os meios tecnológicos para se ver livre das obrigações pedagógicas e para não fazer nada, e ficar perturbar os demais dentro da sala de aula.