MENU

Escrito por • 31/10/2006

Pequena receita para um Brasil digital

[Texto da série “Silvio Meira no G1”, publicado originalmente no G1, em 31/10/2006.]

Nos próximos anos, quem não tiver banda larga não terá internet. Como chegaremos lá se estamos, ainda, com apenas 10% dos brasileiros na rede?… Pode ser mais fácil do que parece, se conseguirmos seguir uma receita bem simples.

Primeiro, pegue os governos recém-eleitos e mais os prefeitos e convença-os a articular uma grande coalizão nacional em prol de escolas -todas- ligadas em banda larga, em todo território nacional, seja lá onde for, da mais remota localidade à mais sofisticada cidade. Por quê? Porque a maior e melhor parte do futuro ainda está nas escolas, que ainda por cima são pólos naturais de atração das famílias de qualquer comunidade. E porque a internet -em banda larga, nas escolas- pode ser de um incalculável valor pedagógico para aulas, experimentos, redes sociais de aprendizado e como mecanismo para pais, mestres e alunos publicarem suas histórias e lições de vida, em vídeo inclusive.

Tem mais: os laboratórios de informática das escolas deveriam estar livres para jogos, sempre que não houvesse nada mais “sério” acontecendo por lá. O uso lúdico da rede não pode ser menosprezado, pois além de incentivar o uso de informática por todos, pode ser o celeiro de talentos que revelará programadores e engenheiros de computação (pois tudo na vida é computação, como já dissemos aqui…). É só ajudar os garotos e garotas em lógica e um pouco de linguagens de programação e dar-lhes tempo. O resto eles fazem.

Daí, é só deixar os laboratórios das escolas digitais abertos 24 horas por dia, mais sábados domingos e feriados, de tal forma que a comunidade deles se aproprie e ela mesma os proteja, como parte de sua própria infra-estrutura. As escolas, os alunos, seus pais, parentes e amigos deveriam ser o centro natural de uma política de inclusão digital de muito amplo espectro.

Segundo, procure e fomente a diversidade. Tanto nas soluções para as escolas como para o resto da infra-estrutura digital da sociedade. Em todo país, em muitos estados e cidades, dezenas, talvez centenas de soluções estão sendo testadas e usadas com variados graus de sucesso. Recursos públicos, doações empresariais, trabalho de organizações não-governamentais, “lan houses” da periferia, de muito baixo custo e preço (normalmente porque informais) estão “dando um jeito” no problema de inclusão digital, na escala que seus meios permitem, sem criar, no entanto, o impacto digital nacional em que a rede serviria de mecanismo amplo de inclusão social, cultural e, certamente, econômica.

Parta destas soluções, descubra quais são replicáveis e fomente-as devidamente, de preferência olhando com mais carinho para aquelas que demonstrarem uma maior possibilidade de sustentação autônoma. Não que se queira só estas mas, uma vez identificadas e devidamente fomentadas para evoluírem por si próprias, pode-se concentrar o maior esforço e recursos públicos nas situações onde a sustentabilidade ainda está muito distante.

Olhar com carinho para as tentativas já em curso teria, também, a vantagem de premiar seus idealizadores e promotores. Incentivar soluções sustentáveis, descobrindo o que mais elas precisam para se tornar micro-empresas, teria o efeito colateral de criar, no próprio negócio de inclusão digital, inclusões econômicas em várias escalas. Ainda mais, é bem capaz de haver muitos modelos de negócio de franquias sociais, de razoável valor econômico, no meio deste negócio de inclusão digital. Não houvesse negócio no mundo digital, as empresas de telefonia não estariam tão assanhadas fazendo negócios de infra-estrutura hoje em dia.

As teles estão comprando -fazendo uso de seu tamanho, muito maior- distribuidoras de sinal de TV a cabo. Seu objetivo é ter, no mesmo pacote e conta, TV (digital, no cabo), internet e telefone (fixo e móvel). Só que TV a cabo é coisa pra muito poucos, já que não há combinação de densidade e renda, exceto em poucos centros mais ricos, que pague a conta convergente de TV, internet e telefonia. Por isso, durante muito tempo, vai ser preciso tratar convergência digital, na escala social, como um processo inclusão e não, simplesmente, como um mercado. E esta talvez seja a parte mais complicada da receita e onde o angu pode acabar em caroço.

Quase no fim da receita, temos que levar em conta TV digital. Não parece muito, hoje, mas TVD poderá ser, se usada como mecanismo de interação, além de sistema de distribuição de áudio e vídeo de qualidade, um potente aliado a levar serviços públicos e privados à sala dos espectadores, simplificando sua vida, aumentando seu raio de ação de uso de informação e criando novas e poderosas formas de inclusão digital. Para que dê certo, é preciso envolver a indústria de TV na receita, tanto do lado das emissoras quanto do lado dos equipamentos, tão cedo quanto possível, tornando públicas as especificações do sistema brasileiro e discutindo amplamente os potenciais modelos de negócio e seu fomento (sim, pois até na Itália o governo banca parte da conta de TV digital…).

Ao fim, mas não menos importante, deve-se levar em conta a criação de oportunidades para a indústria nacional. Muito se fala, há muito tempo, de política industrial por aqui, mas muito pouco se faz que possa criar -nesta história de inclusão digital- soluções nacionais de classe mundial. O mercado de informática é quase sempre global em seus padrões, dispositivos e escala. Tivéssemos a coragem de tentar, em nossa receita, coisas que pudessem resolver, de forma inovadora, problemas associados à inclusão digital que ocorrem não só aqui mas em países outros, em todo mundo, alguns até mais ricos do que o nosso, criaríamos também um mercado para a inteligência e indústria brasileira, tanto quanto fizemos em outras áreas de negócio.

Juntando tudo: escolas em banda larga, abertas a todos, são soluções sociais praticamente imbatíveis para os problemas de inclusão digital. Diversidade e sustentabilidade são itens essenciais de qualquer programa para botar o povo na rede, e a indústria e serviços, além de governos e ONGs, podem trabalhar em conjunto para apoiar os que não têm meios e transformar em negócios o que for possível. Pode não ser tudo, mas são bases muito razoáveis por onde começar um grande programa de cultura digital popular. Coisa que faz muita falta em quase todo lugar deste Brasil imenso…

Artigos relacionados

Comentários estão encerrados.