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Escrito por • 19/10/2015

é possível inovar em educação? [final]

este é o último post da série sobre a pergunta-título do acontece educação, evento do C.E.S.A.R e instituto singularidades, em são paulo. eu fui um dos responsáveis, junto com muita gente boa, pelas provocações por lá. e o evento, sabiamente, não permitiu apresentações visuais. mas eu tomei umas notas pra guiar minha fala, e é a partir delas que este texto foi escrito. eu anotei dez pontos, abordados em sequência, numa intervenção de vinte minutos. a primeira parte está neste link, a segunda neste, e a terceira neste; vá ler antes de entrar nesta aqui, senão é bem capaz de nada –aqui- fazer sentido.

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sociedades [que sobrevivem] são sistemas inovadores. melhor: sociedades que sobrevivem por um tempo são sistemas inovadores. ainda melhor: sociedades que sobrevivem, por algum tempo, foram sistemas inovadores por algum tempo. e isso se aplica para os sistemas sociais como um todo, pelo que se pode ver na história. vale até, por mais execrável que seja o exemplo, para o estado islâmico. os novos níveis de violência e horror postos em prática pelo grupo, sua mediatização e uso das redes sociais para veiculação global de conteúdo [incluindo o desenvolvimento de aplicativos de propósito específico], com o claro objetivo de criar um clima global de terror –e um sistema de dominação local baseado nele, na força e na fé- são algo raramente visto na história da humanidade. por um tempo, vai funcionar, até que os torquemadas do sistema o façam colapsar, usando as mesmas armas que o criaram e o fizeram, inicialmente, evoluir. o reino do terror, na revolução francesa, não foi diferente.

do parágrafo anterior pode-se depreender que inovação, como história, é cíclica; sim, de certa forma, é. certos padrões que fizeram sucesso em dados contextos podem ser repetidos, com efeito comparável, em outros contextos. mas não se pode generalizar, claro.

isso poderia nos levar a reescrever a primeira sentença do texto como… as sociedades que sobrevivem de forma sustentável –S3– são sistemas inovadores. mas não se trata apenas de sobreviver ou não, a história não é binária, é muito mais complexa. é isso que a próxima nota que tomei para o acontece educação, mostrada abaixo, tenta dizer e que eu vou tentar explicar logo a seguir.

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imagine que fosse possível definir um índice de sobrevivência social ISS, com nome de imposto, só pra lembrar que, seja lá onde houver se iniciado uma sociedade, alguém conseguirá montar um sistema de arrecadação de taxas para subsidiar algum tipo de [sub]sistema que, pelo menos no começo, aquela sociedade entendeu que precisava ter. isso, não por acaso, é sempre uma inovação, que faz emergir algum processo de tomada de decisão e articulação social hierárquica, por camadas, a partir de uma anarquia. nosso índice ISS, está à direita da imagem acima; a gente já chega no que ele quer dizer. primeiro, olhe pra esquerda da imagem.

num ambiente, qualquer ambiente, há um conjunto de processos acontecendo. do universo até o menor volume imaginável, há processos em curso, por maior que seja a ordem natural ou induzida das coisas por lá. a visão de mundo correspondente é a filosofia [e metafísica] de processos onde “ser” é algo dinâmico e não estático. se há processos em andamento, há informação sendo gerada. aí começa a ficar evidente o nosso índice, ISS.

quando se ignora informação, em um sistema qualquer, quando se está em um nível de inação total em relação ao que ocorre no sistema… é porque já se chegou ao fim daquele curso, ou o fim está próximo, como dizem certas seitas. o ISS de tal sistema é 0. quando a informação, os sinais de funcionamento do sistema são percebidos, mas negados, que é o que ocorre quando dados e fatos são dominados por ideias, opiniões e preconceitos, o sistema está em processo de destruição [ISS = 1], que pode ser revertida, com muito esforço. a maioria dos sistemas deste tipo são terminais e há que se considerar, ao tratá-los, se vale a pena recuperar um destes sistemas ou começar outro, do zero. quando se entende os sinais [e significados] embutidos na informação percebida no sistema, temos duas alternativas: reagir ou agir. a reação leva a um sistema tentar manter em funcionamento um conjunto de princípios e regras dos quais está se desviando [ISS = 2]. isso pode ser sustentável, por um tempo, se o contexto ao redor não estiver em mudança rápida, profunda ou as duas, combinadas. pode ser que a reação do sistema, por um tempo, consiga segurar as ações de mudança em seu contexto, qual barreira segura o curso do riacho, normalmente com algum vazamento. se houver uma enxurrada em curso…

o próximo nível de sustentabilidade [ISS = 3], de ação, tenta, como o próprio nome diz, agir perante os sinais de novas demandas internas sem mudar os princípios ou instituições, mas abrindo brechas, aqui e ali [e, quanto maiores forem as necessidades, em todo canto] para que o sistema atual consiga dar conta de demandas para o qual não foi preparado. desnecessário dizer que os responsáveis pelas ações que dão conta de fatos novos, nesse caso, estão mais ou menos fora do sistema e podem, a qualquer momento, serem responsabilizados e penalizados por isso. e isso, mais cedo ou mais tarde, acontece. mesmo quando parece sustentável, e às vezes parece muito, um sistema ISS = 3, não o é; no nosso contexto, é aquela escola “sustentada”, literalmente, por uma diretora que é também líder do grupo, que faz das tripas coração e obtém performances muito acima das do sistema. quando ela se aposenta, se não houver outro herói de plantão, a escola colapsa.

uma combinação de ISS 2+3, a operação e manutenção de um sistema, funciona muito bem quando tudo, dentro e fora do sistema, está estável e quando a performance do sistema o torna econômica e socialmente relevante e sustentável no contexto onde se encontra. se o mundo estivesse parado e o brasil nos primeiros dez lugares “do PISA”, certamente que nosso sistema educacional ainda poderia melhorar muito, mas a gente, por outro lado, poderia dizer que ele estava “funcionando bem”. não é este o caso, agora, e as chances de ser, no médio prazo, são perto de zero. temos que olhar [e planejar] para o longo prazo.

aí chegamos no ISS 4, o estágio de mudança, de evolução, num sistema, pra onde vamos por duas veredas. a primeira vem de lá de trás, do estágio de percepção, quando se pode tomar a decisão de que, por não estarmos entendendo algo, é porque precisamos mudar alguma coisa no sistema, que talvez necessite de mudanças nos seus princípios, instituições, mecanismos, para tentar entender sinais que não são inteligíveis na situação atual. a segunda é o entendimento, a partir das ações de operação e manutenção do sistema, de que é possível, e necessário, mudar princípios e instituição [quem sabe…] para mudar a performance do sistema para os novos níveis de exigência que se está descobrindo na prática.

como nada muda o tempo todo, só por mudar, até porque dá um trabalho danado pra estabelecer um sistema [incluindo a preparação das pessoas para sua operação], qualquer sistema minimamente sustentável vai operar, ao mesmo tempo, numa combinação de ISS {2,3,4}, parte reagindo às mudanças [para garantir estabilidade], noutra parte agindo sobre e com as mudanças [se tiver flexibilidade] e mudando o sistema [para sobreviver… como sistema]. um sistema não muda para evoluir, porque quer evoluir. isso dá muito trabalho e gasta muita energia. um sistema –normalmente- só muda para sobreviver. sem esse “incentivo”, as mudanças dificilmente ocorrem “por elas próprias”.

há, na imagem acima, uma observação onde se lê… nível meta: não entendemos isso|disso; ela tem a ver com a imagem abaixo, que por sua vez é uma adaptação [minha] para o conceito de ordens de ignorância, que peter armour criou para [profissionais de] engenharia de software em 2000…

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a imagem, no acontece, foi comentada no contexto do sistema educacional e das pessoas que ele forma. e não precisa de muita explicação adicional. pense num problema qualquer e se classifique de acordo com os níveis acima [agora você só tem, no máximo 4 níveis de ignorância, certo?] e você saberá como e pra que usar a classificação. a observação “sem noção” ao lado do nível 4 se refere, exatamente, às pessoas sem noção que tentam impingir sua ignorância, à força, sobre nós outros, de bares a salas de aula. às vezes fico em dúvida onde a proporção deles é maior [e mais danosa à sociedade].

a minha penúltima nota era…

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…e ela não precisa de muita discussão. se o sistema educacional graduasse pessoas com NI 0, ele resolveria o problema social, amplo, de manter o passado e operar o presente. do ponto de vista mais amplo, se todos os alunos saíssem da escola com NI 0, teríamos um sistema social ISS {2,3}, o que é necessário, mas não é suficiente. pois o que queremos, que seria necessário e suficiente, é um sistema educacional inovador, capaz de prover uma educação essencialmente inovadora, que teria como resultado…

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…a formação de pessoas que sabem e sabem fazer o que aprenderam, quando demandadas a tal, mas estão sempre desconfiados do que sabem, como se estivessem o tempo todo achando que poderiam 1. aprofundar o conhecimento que já têm [e melhorar sua aplicação prática] sobre um problema; 2. adquirir outros tipos de conhecimento sobre o mesmo problema; 3. adquirir conhecimento sobre problemas correlatos; 4. ser capaz de descartar conhecimento que não mais se aplica a um problema; 5. estar preparado para aprender sobre problemas sobre os quais nunca ouviu falar “na escola” e, por fim, 6. estar sempre desconfiado que há muito mais a saber e fazer, e que 7. o mundo [o contexto] e o próprio conhecimento estão em permanente processo de evolução.

não se trata, claro, de uma agenda trivial. e tem que ser resolvida em contexto. cada nível do sistema deveria preparar o aluno para a escadaria de dificuldades do nível seguinte. não deveria ser necessário, em nenhum sistema educacional minimamente competente [isso é “só” ISS {2,3}], revisar material do ensino médio na universidade, não no sentido de “refrescar” o material para acelerar o aprendizado… mas porque, como no brasil, os alunos chegam à universidade “sem saber” um bom número de assuntos que deveriam ter dominado no nível anterior.

voltando para o problema de uma educação verdadeiramente inovadora

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pois é. eu não vejo nenhuma outra alternativa a não ser…

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…transformando o arranjo de princípios e instituições que temos no brasil, hoje, em um sistema inovador. isso provavelmente significa mudar todo o sistema, em todos os níveis, em todos os lugares, de brasília até as menores vilas e distritos do país, passando por uma ampla rediscussão de por que e para que queremos um sistema educacional.

eu, em particular, sigo a filosofia de von foerster, para quem educação não é nem direito nem obrigação; é uma necessidade. básica, por sinal. é vacina contra um futuro sem possibilidades de desenvolvimento pessoal e social. e não é pré-definindo gasto em educação que se chega a um sistema educacional de alta performance, muito menos a um sistema educacional inovador. precisamos de um sistema capaz de atingir, na maior parte de seu tempo, a conjunção de níveis ISS {2,3,4} definimos acima, sem medo de mudar, evoluir, se reescrever, de chegar no nível 4. sem isso, é bem pouco provável que consigamos mudar atual o estado de coisas da educação no brasil.

inovar em educação –é possível. mas não só: é necessário. mas não é suficiente. é preciso muita coragem e força, determinação e persistência, trabalhar para manter e operar o que deve e pode ser mantido, o legado de alta performance, ao mesmo tempo em que se mudar tudo o mais que precisa, pode e deve ser mudado. sem isso, passaremos as próximas décadas, bem ao estilo da atual política brasileira, esperando um milagre, um messias que nos salve do precipício da ignorância. esses salvadores de povos e pátrias raramente existiram. e, mesmo que um deles nos encontre e tenha as tábuas da salvação, a história e as estórias mostram que sempre é uma verdadeira epopéia chegar a qualquer porto seguro.

olhando para o diagrama de radar [para medição de intensidade de inovação, discutido aqui] abaixo, onde se põe nos eixos o sistema educacional [princípios e instituições], o posicionamento e as ofertas do sistema e a sociedade, é bem capaz que, no brasil, estejamos precisando de uma mudança extrema em todas as direções.

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vale notar, se você não quiser entender o diagrama em detalhe, que a medida funciona como a escala richter: no nível 2, o impacto é 10 vezes maior que no 1, e assim por diante. se a mudança se situar entre os níveis 0-1… não dá para sentir nenhuma mudança; mesmo que algo tenha mudado, a percepção é de que nada mudou; entre 1 e 2, algumas coisas mudaram: é perceptível, dentro e fora de uma dimensão de inovação que está em consideração, de que houve mudanças, mas poucas, ou muito poucas; entre 2-3, para qualquer das dimensões de inovação, é certo que várias coisas mudaram; entre 3-4, muitas coisas mudaram, uma ordem de magnitude acima do que no nível anterior. por fim, o nível 4-5: aqui é onde quase tudo, senão tudo, muda e é percebido como tal.

o brasil precisa fazer algo extremo –e inovador- sobre seu sistema educacional. e agora.

olhe para um dado incidental: 32 dos nossos 40 presidentes da república tinham de 50 anos ou mais ao assumir o cargo. a idade média dos CEOs das empresas, ao assumir o cargo, é 52 anos. é quase certo que o presidente da república e os executivos de 2050 têm 15 ou mais anos, hoje, e estão passando ou já passaram pelo sistema educacional que sabemos como funciona, o que tenta ensinar e o que se aprende, de útil, para a vida, inclusive do ponto de vista ético e moral. o sistema educacional de um país projeta seu futuro no presente, o futuro das pessoas se projeta nele, agora. se os que “mandam e mandarão” no país [sem falar de nós, “mandados”] continuarem sendo formados pelo sistema educacional que temos, tanto público como privado [os dois são o sistema educacional do brasil], o que esperar da sociedade… economia… da política e do estado em que viveremos?…

inovar em educação –é possível. mais: é necessário.
muito mais: é uma questão de sobreviência –e não só competitiva, nacional.

+ + + + + fim + + + + +

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