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Escrito por • 26/05/1997

Se meu fusca falasse… com a Internet

Este foi o segundo texto de uma série publicada no Diário de Pernambuco; o original saiu no dia 26/05/1997, no Caderno de Informática. Eu escrevia numa semana e Bill Gates tinha uma coluna na outra, e o texto tinha que ser didático e entendido por leitores que, à época, nem emeio tinham -naquele tempo, a internet era discada!…
Compare, a seguir, o que se pensava sobre rede e trânsito {sem waze!} há 17 anos e agora… o texto, lembre, era para um jornal local e está permeado de referências ao Recife, que continua tão engarrafado como sempre.

Na última vez que nos encontramos, neste espaço que eu empresto pro Biu Gates semana sim, semana não, prometi falar um pouco mais sobre o tema Trânsito & Internet, especificamente num parágrafo onde dizia  “…Uma coisa bem mais radical seria dotar cada carro de um server/browser, transformar cada sinal em um server, dotado de algum sistema de medição de fluxo e contenção de tráfego e que poderia ser, também, uma base de um sistema celular digital e fazer algo como administração dinâmica de fluxo de trânsito na RMR.”

Remetendo a conversa para a realidade, um outro fabricante alemão lançou, dia destes, um carro experimental que vem fiado para a Internet e que pode ser utilizado agora. O problema é que, para que um carro qualquer possa estar na Internet e fazer uso apropriado disso para locomoção, muitas outras coisas têm que acontecer. Como, por exemplo, sinais de trânsito um pouco mais inteligentes.

Considere o problema de uma ambulância, ao redor de meio-dia, tentando vencer o Parque Amorim para levar um paciente para o Polo Médico. É provável que muitas fatalidades, na região, tenham sido causadas pela demora em alcançar o hospital e, consequentemente, o socorro. Agora imagine que a ambulância pudesse “dizer”, para o conjunto de sinais da área, o hospital para onde vai e o nível de urgência necessário.

Tal situação pode ser real em um horizonte de alguns anos, para veículos especiais como ambulância, polícia e bombeiros e poderia, em última análise, ser o caso de todos os veículos. Lá vai, então, o resumo de um sistema de suporte de tráfego urbano que possibilitaria isso e muito mais.

Primeiro, os sinais da primeira geração deste sistema já devem ter câmeras de vídeo para observar o trânsito na sua vizinhança imediata. Devem, ainda, ter uma certa capacidade de processamento local para decidir quando, por exemplo, poderiam trocar o vermelho de uma rua por verde, se no verde oposto não houvesse ninguém esperando. Só isso diminuiria muito o caos do trânsito em qualquer grande centro urbano. Aliás, a inexistência de um tal mecanismo faz com que, pelo menos no Recife, o vermelho tenha um significado mais ou menos de “pare-olhe-passe”, como nos antigos cruzamentos ferroviários…

Mas a decisão sobre abrir e fechar sinais não pode ser tomada por cada sinal individualmente, porque a cidade é uma malha, uma rede de ruas (computacionalmente, é um “grafo”, onde cada cruzamento é um “nó”, ou um ponto, e cada trecho de rua que liga dois cruzamentos é um “arco”, ou uma linha). Pode desenhar sua vizinhança que você vai ver exatamente isto. Nesta rede, quando você quer ir do primeiro jardim de Burle Marx –na Praca de Casa Forte- para o primeiro jardim de Boa Viagem, você escolhe uma rota, ou caminho, que passa por arcos e nós deste grande grafo que é a cidade. Em alguns nós há sinais, em outros não.

Para que a nossa ambulância, lá atrás, engarrafada na Ruy Barbosa ali perto do Agnes, consiga chegar o mais rápido possível na Restauração, é preciso que se abra um “caminho rápido”, preferencial, entre o ponto onde ela está e aquele para o qual ela quer ir. Para isso, temos que ter os sinais se comunicando entre si e com uma rede de computadores que acompanharia e controlaria o “trânsito” de forma dinâmica e dependente da densidade de tráfego e necessidades específicas de cada região da cidade, abrindo e fechando sinais ou conjuntos inteiros deles à medida que fosse necessário.

Assumindo que os sinais possam “ver” o tráfego que se aproxima de cada um, uma capacidade local de processamento em cada sinal poderia identificar, por exemplo, quem está “cortando” o sinal. Utilizando tecnologia existente (e dominada no Brasil, inclusive pelos pesquisadores de redes neurais artificiais do Departamento de Informática da UFPE), é possivel identificar e multar os infratores quase sem intervenção humana.

Mas isso não é nada. Se meu fusca falasse, ele estaria na Internet. Como? Imagine agora que cada veículo, daqui a algum tempo, tenha um sistema GPS (Global Positioning System), um dispositivo que diz onde você está, no planeta Terra, com erro menor que dez metros e custa, hoje, R$250. Feito em escala de produção automotiva, ou seja, dezenas de milhões por ano, custaria R$50 ou menos. Se seu carro souber a latitude e longitude onde está e puder usar isso em conjunto com um Geographic Information System (GIS) que represente a cidade, associado a uma capacidade de comunicação com o sistema de administração de tráfego da cidade, aí nós estamos conversando sobre algo ainda mais interessante.

Que vem a ser o seguinte: o sistema de trânsito da cidade SABERIA onde seu carro está a qualquer momento… A parte boa disso é que, se meu fusca cortar o sinal fechado, o próprio sinal vai multá-lo, não precisa nem da imagem: o sinal sabe que está fechado e sabe qual é o veículo infrator. Também vale para a ambulância: devidamente autorizada, ela pode sair  “abrindo sinais”  em sua urgência de chegar no hospital. A parte ruim é que, usado para o mal, o sistema pode identificar quem está onde, quando. Por exemplo, que carros estão em qual motel, a que horas. Inclusive quanto tempo passaram lá…

Vale a pena dizer que as companhias de cartão de crédito, hoje, não chegam neste nível de detalhe mas, com as maquininhas de transação on-line e os próprios cartões sendo cada vez mais usados, TODOS os dados sobre as nossas rotas de compra, incluindo até o local mais provável onde podemos estar, agora, estão armazenados em algum banco de dados. Os pros e contras de mais tecnologias da informação à disposição da Sociedade serão, cada vez mais, objeto de amplo debate público, se estivermos preparados para tal; senão, soluções que põem em risco nossa privacidade e, possivelmente, interferem em nossas vidas poderão ser impostas “por quem de poder”. Depois, será MUITO difícil reverter o processo…

Mas vamos voltar para o trânsito e encerrar o assunto, assumindo que o bem vencerá e o sistema estará, no fim, do nosso lado.

O meu fusca-ligado-na-Internet, no caso é uma Intranet da cidade, uma rede composta por todos os carros, sinais, estacionamentos, ruas e, livrai-nos meu Padim Padre Cícero, pedestres (há experimentos que tais…), pode fazer coisas do arco-da-velha: estando em casa alguma hora, posso dizer que quero ir pro Recife Antigo, pedir uma rota e reservar um lugar em algum estacionamento. Feita a negociação de caminho entre meu fusca e a cidade (o sistema de tráfego), saio de casa e, passando pelo mínimo de engarrafamentos, chego na vaga de estacionamento que me foi reservada “pelo carro” e paga diretamente por ele, sem minha intervenção, usando dinheiro eletrônico.

Falando em localizar pessoas e botálas na Internet,  sistema Active Badge, inicalmente desenvolvido pela Olivetti, pode ser usado em áreas pré-determinadas e mostrar o paradeiro de qualquer um que estiver usando a “badge”. Por exemplo, veja um que “acha” usuários da “badge” na Universidade de Kent, em Canterbury, Inglaterra, onde Diana nasceu, em http://alethea.ukc.ac.uk/utils/Welcome.html, O mecanismo é detalhado, para quem tiver base em informática e eletrônica,  na Universidade de Cambridge, em http://www.cl.cam.ac.uk/abadge/documentation/abinfo.html.

O problema pode ser, no futuro do presente do Recife, como inserir os guardadores de carros nesta coisa toda… Mas isso é outra história. No próximo artigo, vamos discutir o que a Internet tem a ver com Governo e Cidadania: como os poderes poderiam usar a rede, se quizessem, para governar, pelo menos, COM o povo, senão PARA ele… Até lá.

 

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