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Escrito por • 18/08/2014

smartX: as oportunidades e os riscos [1]

o que é smartX, aqui? é qualquer coisa que tenha computação, comunicação e controle associada a ela. um tênis com sensores que medem a distribuição de peso ao andar é uma instância de smartX, assim como uma lata de lixo que “sabe” onde o lixo que você jogou vai cair e “se move” pra lá [e “pega” o que você jogou…]. e sobre o que é este texto? é sobre o futuro destas coisas espertas, os smartX, ao nosso redor; o texto é sobre, principalmente, as oportunidades, mas também sobre os riscos. não há porque, primeiro, a gente se preocupar prioritariamente com os riscos, muito ao contrário. se fosse assim, ninguém teria considerado viajar de avião, ainda mais há algumas décadas, quando tudo era muito mais loteria do que agora. mas não é possível descartar os riscos inerentes à informatização de tudo. porque há riscos, e porque eles podem ser mitigados.

primeiro, do que estamos falando, mesmo? vamos definir smartX? uma coisa “informatizada” é algo que tem pelo menos uma funcionalidade no espaço de informaticidade, ou de computação, comunicação e controle, mostrado na figura abaixo, com cada eixo representando um dos “C” e um de seus fundadores mais célebres: alan turing para computação, claude shannon para comunicação e norbert wiener para controle. se você quiser interpretar o eixo de controle como sendo cibernética [para ser mais fiel a wiener], dá. mas informaticidade é bem mais parecida com cibernética do que esta com controle [puro e simples].

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se uma coisa só faz cálculos… ela tem algo de computação. o mesmo vale, imagina-se, para comunicação e controle. uma coisa no espaço C3 [com nomes de a a z] pode ser vista como uma generalização da noção de spimeware, coisas informatizadas que obedecem ao decálogo… 1. está na rede; 2. é wireless; 3. é múltiplo [pode haver uma infinidade de cópias] mas 4. é identificável de forma única e 5. obedece ao princípio SFO; mas 6. é imperceptível [a “olho nu”] porque 7. está embarcado, embutido em coisas e, também por causa disso, 8. tem interface “invisível”. ainda mais, spimeware 9. carrega seu próprio plano de construção, uso e reciclagem e 10. guarda ou deposita na rede seu rastro histórico. spimeware é uma noção criada numa série de textos deste blog publicada em 2010, neste link; e os “objetos em C3” são mais do que os spimeware, pois não precisam ser wireless, por exemplo [não obedecem à regra 1] e podem não obedecer à regra 9. a fusão do que bruce sterling e adam greenfield acham que poderiam ser as coisas em rede tem um design que pode não ser obedecido pelas coisas que serão, efetivamente, parte da rede, especialmente no curto prazo.

mas imagine [descreva, com suas regras!] que as coisas em rede [a a z] tenham um conjunto de propriedades parecidas com 110, acima; o que pode dar errado? se todas as coisas estão em rede [1] são identificáveis de forma única [4] e têm seu rastro histórico [10] e se a “coisa” é seu carro… então… eu posso encontrá-lo [em mais de um sentido] e descobrir por onde ele andou [com você, dentro]? sim. e [se a segurança de informação não for lá estas coisas…] eu posso “convencer” seu carro que ele passou por lugares onde ele nunca passou. se ele for um carro um pouquinho mais avançado [pense google driverless…] quem sabe eu não posso ordenar [invadindo o carro] que ele lhe leve a lugares onde você não que ir. pensou as implicações legais [por exemplo, sem falar nas pessoais] disso? tanto do vazamento de dados correspondentes ao real comportamento do carro, passando pela “inseminação” de dados que alguém queira que seu carro tenha… e chegando na mudança, pura e simples, do comportamento de seu carro [por terceiros]?

se a coisa é um sinal de trânsito e também obedece às regras 110 acima, SFO [search-find-obtain, ou buscar, encontrar e obter, a regra 5] vale pra ela. se vale, será que posso descobrir todos os sinais de trânsito de uma cidade e… mudá-los para vermelho? e deixá-los em vermelho? em tese, sim. e na prática, sim, também. e pra sempre… ou até que alguém retome, para a cidade, o controle do sistema.

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e é aí onde o bicho pega: pra muita gente, smartX é só um conjunto de coisas que têm alguma capacidade C3. ledo engano. coisas, na internet das coisas, são parte de sistemas de informação, para o qual valem todas as premissas que usamos para gestão de um ciclo de vida de informação e algumas mais. porque o erro que um sistema de informação que cuida da folha de pagamento de uma empresa pode ter é pagar as pessoas sob sua gestão a mais ou a menos. tal tipo de erro é normalmente detectado pela auditoria do negócio e corrigido assim que possível. o impacto de sistemas que tratam de informação sobre as pessoas é quase sempre lento e quase sempre dá pra corrigir, tratando o problema na próxima interação.

nos sistemas físicos, ao contrário, a bronca é grande, potencialmente irremediável: já pensou se ao invés de um palhaço [que põe todos os sinais da cidade em vermelho] temos um sádico [ou terrorista] que os põe, a todos, em verde? tudo vermelho para todo mundo está errado mas é “seguro”; tudo verde é a receita para o caos. tenho certeza de que sua preferência é um hacker do bem, que vai invadir a rede de sinais só pra atrasar todo mundo, e não pra machucar alguém.

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ainda mais, o imaginário tecnológico e popular quase sempre trata smartX associado a outras coisas: aí, a gente sempre ouve falar de internet das coisas nas casas, carros, cidades, aviões e esquece que uma parte muito importante e volumosa destas coisas está associada aos nossos corpos, como mostra o vídeo abaixo. aliás, as possibilidades que vêm do vídeo abaixo nos deixam antever que vai haver muito mais spimeware no seu corpo e no meu do que a gente pensou até aqui. e estas coisas vão obedecer a uma boa parte das regras 110 que descrevemos, com todas as consequências, para o bem e para o mal. é sobre isso que nós vamos falar nos próximos textos desta série. até lá.

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