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Escrito por • 05/08/2011

software, regulando tudo

em "code and other laws of cyberspace", larry lessig diz que nosso comportamento é regulado por modalidades de restrição. a lei é só uma delas. as outras são as normas sociais, o mercado e a arquitetura física da sociedade, onde está, por exemplo, software.

james grimmelmann discorda. ele propõe [e eu concordo] que software é uma modalidade diferente de restrição, porque 1] é automatizado: uma vez escrito e rodando, o custo de continuar fazendo o que faz é marginal, a menos que tenha que ser modificado [vide 3]; 2] é imediato: o tipo de restrição imposta por um sistema é tal que, se uma certa operação [financeira, por exemplo]  não é permitida, você não pode realizá-la, mesmo que queira, caso toda aquela classe de operações estiver informatizada; e 3] é plástico, permitindo que quase qualquer restrição, por mais complexa que seja, possa ser implementada, desde que possa ser descrita a contento.

grimmelmann fala sobre o estado atual de software e retrata uma situação corrente na sociedade, que é a de software sendo usado na sua forma mais comum de habilitação, regulação e restrição às ações sócio-econômicas. toda vez que "software" aparece no texto, pense em "sistema", no mesmo sentido em que o atendente que está tentando resolver um problema para você lhe diz que "não dá", porque o "sistema não deixa".

ainda segundo grimmelmann, software tem quatro propriedades como modalidade de regulação e restrição. a primeira é que software é baseado em regras e não em padrões [de comportamento]. de uma certa forma, seja lá qual for sua demanda, a decisão já está tomada e o "sistema" não vai pensar sobre seu caso. um certo conjunto de regras no sistema que processa o IRPF leva sua declaração para a malha fina sem qualquer julgamento de valor [!] ou noção de contexto.

depois, software não precisa ser transparente [para ser aceito e usado]. pouquíssima gente sabe como funciona o software por trás dos principais sistemas de informação que usa o tempo inteiro. quase ninguém faz idéia do que está por trás de google, twitter, youTube, faceBook, windows, word ou android. e bilhões de pessoas são, o tempo todo, habilitadas e têm seu comportamento regulado e restrito por estes "sistemas". por outro lado, mesmo se houvesse uma boa quantidade de pessoas disposta a entender como bing ou google funcionam, é quase certo que as empresas por trás de tais sistemas se recusariam a mostrar seus algoritmos e respectivas implementações.

ainda mais, as regras determinadas no [ou pelo] software não podem ser ignoradas. no caso de sistemas de informação isso é cada vez mais verdadeiro, como efeito colateral da transformação das organizações em métodos e processos definidos, habilitados e restritos por software. se não está codificado, é porque não existe ou não será feito. nas teles, por exemplo, o principal problema do lançamento de um novo serviço não é o software e hardware que habilitam o serviço propriamente dito, mas a modificação do sistema de "billing" onde se contabiliza seu uso e de onde sai o boleto de pagamento. se não entra no billing, o serviço não existe.

image

finalmente, software está sujeito a falhas [súbitas]. primeiro, porque sofre de defeitos de implementação de especificações conhecidas. depois, porque há coisas que deveria dar conta e não dá, porque não havia especificações para tal. como se não bastasse, software está sujeito a hacking e não é robusto: atacado, não recupera seu estado anterior por si próprio na vasta maioria dos casos e, sob demanda, pode colapsar devido a problemas de sobrecarga e performance.

o paper de grimmelmann é uma leitura interessante e termina com a discussão de um dos ambientes mais intensamente regulados e restritos por software, os mercados eletrônicos similares à NASDAQ. poderia ter sido o sistema eleitoral, uma das bases da democracia representativa: no brasil, ele é inteiramente regulado por software, opaco como poucos e fonte permanente de intensos debates sobre sua segurança [veja aqui, por exemplo].

a pergunta que fica é… se tudo é software [tente escapar disso na vida cotidiana…] e software está passando a regular tudo… quem regula software?

ou, ainda mais radicalmente, será que é possível regular software, restringir o que software [lembre-se: no nosso caso, "sistema"] faz ou deixa de fazer? em que contextos, por que, como? e pra que e por quem?

System_Software_Life_Cycle

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11 Responses to software, regulando tudo

  1. @aragonlima disse:

    Lendo o texto penso no seguinte:
    1 – Empresas de Software provavelmente não irão abrir seus algoritmos pra uma regulação;
    2 – Mesmo que uma regulação (LEI) seja imposta, não se pode garantir (dentro do software) que será cumprida.
    3 – Regular algo que não se pode ver e que muda constantemente é de certa forma complicado

  2. @aragonlima disse:

    Lendo o texto penso no seguinte:
    1 – Empresas de Software provavelmente não irão abrir seus algoritmos pra uma regulação;
    2 – Mesmo que uma regulação (LEI) seja imposta, não se pode garantir (dentro do software) que será cumprida.
    3 – Regular algo que não se pode ver e que muda constantemente é de certa forma complicado

  3. João Carlos disse:

    Muito boa a matéria! Parabéns!

    Silvio sou fã do seu trabalho, queria te fazer uma proposta não sei se você aceitaria mais to disposto a tentar falar com você!
    meu email: joaocfs7@gmail.com

    é em relação ao C.E.S.A.R, programa de estágio!
    Aguardo seu contato, obrigado e desculpa o incomodo aqui no seu blog!

    Atenciosamente, João Carlos.

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  6. Eduardo Kerr disse:

    Silvio,

    O problema é recorrente em todas áreas de tecnologia, e a resposta do problema cairá sempre sobre o ser humano.

    Pego carona numa frase do prêmio nobel Richard Feynman: “For a successful technology, reality must take precedence of public relations, for nature cannot be fooled.”

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    O problema é recorrente em todas áreas de tecnologia, e a resposta do problema cairá sempre sobre o ser humano.

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  9. reinaldo disse:

    bem colocado o tema, que mostra sua enorme abrangência, sou levado a pensar que a sociedade e todas suas entidades devem comecar a discuti-lo pois levaremos alguns anos e mto tutano gasto para iniciar e filosofar com propriedade sobre o assunto.. que pode ser tomado de muitos vieses (acho que eh assim que se escreve) e diferentes angulos…

    parabens Silvio pela sua constante contribuição

  10. reinaldo disse:

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