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Escrito por • 27/03/2013

uma revolução no ensino superior?

Olhe para a imagem abaixo. à primeira vista, parece uma estação de TV, ou o centro de controle de streaming de vídeo de uma operação de web TV. até que seria isso mesmo se estivéssemos comentando uma foto de alguns anos atrás. mas não, é o centro de controle da nanyang technological university, em cingapura.

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você acha que as pessoas que trabalham lá estão controlando o que? nem pense que são os acessos e portas dos laboratórios da universidade; este centro faz parte de um programa, na NTU, de gravar pelo menos 70% das aulas da universidade e deixá-las à disposição dos alunos para posterior visualização. o uso dos vídeos das aulas é monitorado pela universidade e os picos de audiência são… logo depois das aulas [vi, quero rever; perdi, quero ver] e… claro, à véspera dos exames.

ao mesmo tempo, a NTU experimenta com encontros [e não “aulas”] nos quais professores não agem como repetidores. o que é isso? ao invés da tradição escolar do professor tentar ensinar algo aos alunos, numa aula como a que você, eu, meu avô e tataravô nos acostumamos a assistir, os professores se tornam provocadores e articuladores de oportunidades para que alunos aprendam dentro de contextos, resolvendo problemas. por mais incrível que pareça, é isso que [a lenda reza que] acontecia na matriz da escola ocidental, a academia [original] de platão.

por que a NTU -e centenas de universidades e escolas- está experimentando com algo tão antigo e tão bem estabelecido, a aula? porque parece que o tempo da aula passou e os alunos não estão muito dispostos a –literalmente- perder seu tempo numa sala de aula, ouvindo o blábláblá de sempre. dados de muitas universidades, mundo afora, mostram que até alunos de cursos supostamente de alta qualidade –o que quase sempre quer dizer muito caros- deixam de ir à aula [têm 50% de faltas depois de 3 semanas de aula,veja este estudo].

há algo de novo no ar. bem, nem tanto assim: a web está completando 20 anos em 2013, marcados a partir do primeiro navegador prático, mosaic, de 1993. de lá pra cá, começaram a surgir [e serem testados] novos modos de conectar, relacionar e interagir, novas formas de criação de conhecimento, novas formas de aprender, de avaliar. de mais de uma forma, toda a economia de informação criada a partir da plataforma de gutenberg está se transformando radicalmente. o livro, antes escasso, objeto de análise de poucos, repetido [sim, repetido] na sala por mestres, foi distribuído numa miríade de encantações em rede. tudo o que girava ao redor do livro passou a ser distribuído em larga escala, deslocalizado e dessincronizado. daí o repositório de aulas da NTU, exemplo básico de como passar dos limites de gutenberg. porque o parêntesis de gutenberg está se fechando, talvez para sempre, amém. pra saber porque, veja isso aqui.

em maior escala do que na NTU, muitas plataformas globais de educação online [MOOCs, massive open online courses] como é o caso de coursera, udacity e edX [todas para ensino superior], matriculam centenas de milhares de alunos por disciplina e começam a oferecer certificados que podem ter, no curto prazo, valor comparável ao dos cursos presenciais, aqueles que você tem que penar pra chegar acordado no fim da aula do professor que… bem, leu o material que está tentando lhe explicar na noite anterior. claro, nem todos fazem isso. mas aposto que você já encontrou bem mais de um que faz. eu? já, muitos.

se o que a gente costumava chamar de ensino, começando pelo superior, começa a sentir a mudança provocada pela rede, especialmente quando se trata do espaço e tempo onde as coisas acontecem [qualquer lugar, qualquer tempo…] já se vê o que podem ser os modelos de instituições universitárias pós-gutenberg.

primeiro, temos as instituições de elite: poucas, globais; aqui estão as suspeitas de sempre, como harvard e stanford, com muitos recursos e história pra contar. estas já capturam a maior parte dos recursos para ensino e pesquisa do planeta e não há sinal de que isso vá mudar. agora, elas vão se expandir em escala global, em alguns casos com parceiros locais que são as estrelas de sua geografia ou expertise.

em segundo, as universidades de massa: o modelo de negócio, aqui, é ter muitos usuários [muitas centenas de milhares a milhões] e aprendizado orientado para o  trabalho e negócios, a custos compatíveis com o poder de compra do mercado alvo. em terceiro, há as escolas de nicho: como diz o nome, são instituições que apostam em certos públicos e geografias ou especialidades, a preço muito maior do que a média do setor.

quarto, há as universidades locais, limitadas por características como língua, que é o que se pode ver no caso das grandes universidades estatais brasileiras. é muito improvável que uma ou mais delas consiga jogar no time da elite, pela dificuldade que as regras [barrocas] do serviço público [e a complicação brasil] impõem aos agentes de políticas nacionais como educação.

por último, há um aspecto ortogonal aos acima, que é o aprendizado continuado. na sociedade e economia do conhecimento, só uma coisa se sabe de certo: que há muito mais a aprender [e desaprender, e reaprender] do que se sabe agora, e que tal será verdade para sempre. assim, o que era a vida de trabalho após a escola é, agora, uma vida de aprendizado continuado, onde uma boa empresa é sempre uma boa escola, quase sempre associada a boas escolas de fato e direito.

o brasil não está fora desta revolução. o número de alunos brasileiros em MOOCs é muito significativo e, transpostas as barreiras de língua e dos certificados [que começam a se tornar irrelevantes em muitas áreas de atividade, especialmente no aprendizado continuado], cursos providos por escolas de elite, em massa, online podem ser um desafio real, no curto prazo, para os provedores locais.

pra não alongar ainda mais esta conversa, leia este estudo [78pp, em inglês] que conclui dizendo que combinando a globalização do ensino, em alcance, escala e qualidade cada vez maior com o marketing das escolas de elite, o aprendiz vai se tornar o centro das atenções e prestação de serviços e, no médio prazo, não há como escolas locais e de nicho não serem afetadas pela competição dos grandes sistemas de elite e massa. se melhorar a quantidade e qualidade dos processos de aprendizado, tomara que aconteça logo, muito mais cedo do que tarde. porque já é hora, e há muito tempo, de rolar algo muito mais interessante e, por que não dizer, bem mais instigado do que a velha e obsoleta sala de aula.

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