por Silvio Meira

a “bandinha” do brasil

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faz pouco tempo que saiu a última versão do network readiness index do fórum econômico mundial e o brasil, nele, e pela primeira vez em anos, subiu de posição. o que isso quer mesmo dizer?

há quase um ano, escrevi na folha de são paulo um texto [o plano, a banda e a inclusão digital] que foi replicado em vários sites abertos, inclusive no CDES, o conselho nacional de desenvolvimento econômico e social, do qual faço parte. o texto, na íntegra, é repetido abaixo.

Nos últimos dez anos, regredimos mais de 20 posições nos índices de quantidade e qualidade da infraestrutura digital. Não que o Brasil estivesse indo para trás de forma acelerada: no período, o país viu uma quase universalização dos celulares, um bom aumento da proporção de residências com PCs e a conexão de um bom número de casas à rede.

O que a década de queda -do 38º para o 59º lugar no Network Readiness Index do World Economic Forum, por exemplo- quer dizer é que outros países se moveram muito mais rápido. E isso é um problema, agora e no futuro próximo, primeiro porque muitos deles são nossos competidores, mas também, e mais gravemente, porque o mundo conectado vive, intensamente, a sociedade e a economia da informação e do conhecimento. Estar fora da rede, hoje, é como estar fora do mundo.

E o Brasil perdeu tempo. Muito tempo. Desde os primórdios da internet por aqui, havia planos de universalização do acesso. Sabia-se desde o princípio que a rede iria mudar o mundo e se tornar mais uma de suas infraestruturas básicas, uma "utility" tão essencial como eletricidade, água e esgoto.

O conceito -hoje universal- de tratar telefonia e telefones como apenas mais uma aplicação sobre uma infraestrutura (servidores, roteadores, satélites…) e serviços (os protocolos da rede) padrão da internet tem quase década e meia.

Ou seja, faz tempo que se sabia e se dizia, aos quatro ventos, que tudo o que era comunicação ia convergir, mais cedo ou mais tarde, para a internet. Por que, então, ainda estamos no estágio de penetração e uso de banda larga relatado no "Comunicado 46" do Ipea

A razão fundamental é que o Brasil não teve, na última década e meia, políticas públicas que cuidassem de conectar o país na quantidade e na qualidade que precisamos.

Banda larga não chega nem à metade dos municípios e só existe em cerca de 21% dos lares.

Como se não bastasse, mais de 54% das nossas conexões "de banda larga" têm velocidades nominais abaixo de um megabit por segundo, o que significa que vídeo pela rede, por aqui, é coisa rara. E de má qualidade. O que torna muito difícil educação, saúde e negócios pela rede, entre outras tantas coisas que existem e são usadas, como fato consumado, mundo afora.

Sem falar que, mesmo para o uso comum da rede, mesmo para o que "dá para fazer" com a rede que se tem, o preço do megabit por segundo brasileiro é estratosférico: aqui, como porcentagem da renda familiar, banda larga custa dez vezes mais do que nos países mais conectados. Depois de quase 15 anos de privatização do setor, o "mercado", ou seja, o que temos de políticas públicas, regulação, reguladores e empresas, simplesmente não fez o que deveria ter feito.

Resultado? Voltamos quase a um ponto de partida e decretamos um Plano Nacional de Banda Larga, cuja gestação tem que ser debitada ao cenário descrito acima. A ineficiência das operadoras fixas no provimento de acesso em banda larga em quantidade, qualidade e preço acessível é a mãe do PNBL . Poderiam ter feito -e exigido- muito mais. Não o fizeram. Deu no que deu.

Um PNBL bem executado pode se tornar uma intervenção estatal de qualidade nos negócios de conectividade, e não necessariamente uma nova infraestrutura de serviços de rede necessária para tal.

Até porque o PNBL parece um novo "plano de integração nacional" e seu papel pode ser muito parecido ao das estradas e TVs no passado, ao trazer para a rede mais da metade dos municípios e 70%, 80% das casas.

Muita gente reclama e desconfia do plano, quase como se fosse uma reestatização do setor de telecom.

Mas telecom, a das antigas companhias de telefonia, não existe mais, transformou-se em conectividade, fixa e móvel. E é significativo que o PNBL não trate de mobilidade, e sim de conectividade fixa, onde o mercado, simplesmente, falhou.

a bem da verdade, o texto tem [pelo menos] um erro: na década passada, o brasil não regrediu do só 38º para o 59º lugar no network readiness index do world economic forum, mas do 38º para o 61º lugar, dois a mais do que o colunista da folha reportou.

imageagora, na avaliação 2010/2011, o WEF anuncia que o brasil subiu cinco posições e está no 56º lugar entre os 138 países considerados no estudo. pra comparar, a coréia do sul, que estava no 15º lugar em 2009/10, também subiu cinco posições, para o 10º lugar. o fato é que estamos, no concerto global dos países, dezoito lugares abaixo do que estávamos em 2000/2001… abaixo da china [36º] e índia, 48º. a rússia, o R dos BRICs, perdido no tempo, espaço e economia, subiu uma posição, do 78º para o 77º lugar. difícil. malásia e indonésia estão bem melhores que nós, assim como o chile, caso à parte na américa latina. vá ver o relatório.

em boa parte, o brasil está onde está por uma combinação de de falhas de mercado, operadoras e políticas públicas, como explicitado no texto citado acima. mas mesmo aqui no brasil, quem tem meios e mora nos lugares onde há uma infraestrutura acima da média, a banda não está "tão" ruim, apesar do país, de novo, não estar nem perto dos primeiros. a velocidade média efetiva de downloads, no brasil, é de 4.71 megabit/s segundo o netIndex, o que nos deixa no 68º lugar numa lista de 168 países. o líbano é o lanterna, com 0.5Mbps e no topo está a coréia do sul [lembra dela?… subiu cinco posições no índice do WEF] com nada menos do que 34.31Mbps.

imagee os uploads? a rede é multidirecional, certo? ou pelo menos deveria ser. da sua casa ou empresa para a rede, o brasil descamba para o 85º lugar no netIndex, com meros 1.09Mbps, entre oman e o nepal. áfrica do sul, paraguai, uganda, honduras, equador, chile, e até zimbabwe[!]… estão à nossa frente e no primeiro lugar está a coréia, de novo, com 22.05Mbps de velocidade de upload. lá a rede é "muito mais em rede" do que aqui: a velocidade em que você pode produzir informação para a rede é perto de 70% daquela que você usa para consumir informação da rede, enquanto que nós estamos perto de 20%. se você quiser, nossa rede é para uma web 1.0 de má qualidade, uma rede onde a maioria das pessoas é público e não comunidade. na web 1.0, nos "lemos" a rede; na web 2.0, nós lemos e "escrevemos" na rede, formando comunidades entre agentes que têm capacidades similares de contribuição.

mesmo para só "ler" a web, o brasil é muito desigual. segundo dados a akamai, quase 89% das conexões de recife são de velocidade menor do que 2Mbps; em florianópolis, são 79% e no rio 90%. ou seja, somos um país de banda estreita. como se não bastasse, nosso preço por megabit por segundo é mais de 40% acima da média mundial.

é neste contexto que ainda estamos discutindo gastar mais tres anos, daqui até 2014, para o PNBL levar 600Kbps a 35 milhões de casas brasileiras. ou, seja, estamos falando de uma "bandinha" de acesso à internet para daqui a tres anos, quando o acesso de quem estiver conectado a banda larga de verdade, e mesmo aqui no brasil, deverá estar ao redor dos 20Mbps. e quando projetos nacionais como o da alemanha estão trabalhando para…

…75 percent of German households [will] have broadband access of at least 50 Mbps by 2014; …covering 2015-2020, 50 percent of German households [will] have access to at least 100 Mbps and another 30 percent to 50 Mbps by 2020 …over a ten year period (2010–2020), the broadband investment is expected to result in 170.9 billion Euros of additional GDP (0.60% annual GDP growth) in Germany.

comparando maçãs e abacaxis, enquanto os alemães estão olhando para 75% das casas com 50Mbps em 2014 e 50% com 100Mbps em 2010, o que resultaria em um aumento anual adicional de 0.6% de crescimento do PIB de lá, do lado de cá, nós estamos com sérias dificuldades de começar pra valer o projeto nacional de prover uma "bandinha" de 600Kbps [de download] que, se for projetada, instalada e operada como a rede atual, vai ter uns 150Kbps de upload, se tanto. capaz de não dar nem pra voz sobre IP. vídeo, nem pensar.

na inglaterra, a BT e a virgin estão montando duas redes nacionais FTTH [fibra até a casa…] que vão levar gigabit/s a todas as cidades até 2015 e a fujitsu acabou de propor, dentro do escopo de um programa de inclusão digital do governo inglês, conectar todas as casas da zona rural, também a gigabit/s.

mas isso é coisa de gente grande, você diria. não, não é: é o entendimento de que a infraestrutura física para a internet é tão essencial quanto água, esgoto, ruas e estradas e energia. é a percepção política de que a rede é essencial para a educação, economia, governo… para todas as facetas da sociedade. a "bandinha" que está sendo proposta para brasil é mais um sinal de que ainda temos muito a evoluir até que entendamos qual é o papel da rede para a economia e a sociedade e quais são suas mais amplas implicações, inclusive [como no caso alemão] para o aumento da velocidade de crescimento da economia nacional.

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no brasil, parece que sempre reduzimos nossas expectativas do que pode ser feito para ajustá-las a uma performance que sabemos que não temos. talvêz devêssemos elevar muito as expectativas para puxar a performance para cima de forma significativa e fazer muito mais do que o meramente possível. é exatamente por estarmos sempre fazendo o possível dentro da baixa performance que temos, especialmente no domínio das políticas públicas e sua execução pelo estado, que estamos onde estamos… entre oman e nepal na velocidade de download.

por que não refazemos nosso plano de inclusão digital de casas e empresas, em banda muito larga e apostamos que, em dez anos e se aumentarmos muito nossa performance, pegamos a passamos a china, esteja ela onde estiver? são vinte posições entre nós e eles, apenas. se a coréia, que estava já lá em cima no network readiness index, conseguiu subir cinco lugares em um ano, porque não conseguiríamos vinte lugares em dez anos?

olha só o primeiro objetivo do plano de banda larga dos EUA para a década:

At least 100 million U.S. homes should have affordable access to actual download speeds of at least 100 megabits per second and actual upload speeds of at least 50 megabits per second.

isso é mais de 60% das casas a 100 megabit por segundo de download, com upload de pelo menos 50Mbps. este alvo é quase dez vezes o que os EUA têm hoje: 10.9Mbps de velocidade de download e 30º lugar no netIndex. ao contrário do que muitos esperam, que é o país do silicon valley pelo menos entre os dez primeiros.

e nós… vamos ou não vamos estabelecer um alvo cinco, dez vezes mais alto do que nossa situação atual de banda larga e conseguir chegar a tres, sete vezes o que temos agora ou, conformados em sermos puros e simples exportadores de commodities, vamos nos contentar em ser uma "zona rural" periférica e desconectada por uma "bandinha" do brasil?

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[acima, gráfico do plano americano de banda larga: hoje, se você quiser ter vídeo conferência em casa, tenha pelo menos sete megabit/s. pelo menos…]

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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