por Silvio Meira

cadê a banda?…

c

não é só porque é carnaval daqui a duas semanas, mas todo mundo está procurando a banda. aqui no brasil a gente sabe que não está. esta semana, a campanha banda larga organizou um tuitaço contra a oi, depois que a empresa resolveu discutir os regulamentos de qualidade dos serviços de banda larga fixa e móvel. se você quiser saber quais são as regras, as da banda fixa estão aqui e as da banda móvel, aqui. a oi, do seu lado, diz que é a favor de medida e gestão de qualidade dos serviços, mas que as regras correntes levam em conta fatores estranhos à rede das operadoras e têm que ser revistas. muitas águas ainda vão rolar sob este debate.

será que a banda está no japão? se está, corre o risco sério de passar a não estar. a ntt docomo, uma das melhores operadoras móveis do mundo, que é quase um sonho comparada aos serviços da américa latina [receita de dados na receita média por usuário? 50%; perda de usuários por ano para outra operadora? abaixo de 0.5%], vai pedir a google para "controlar" o uso de dados por smartphones android e aplicações.

por que? segundo a docomo, os droids estão detonando a qualidade sua rede. todos sabem que smartphones e aplicações móveis usam dados de forma mais agressiva que celulares "normais". imagine-se dirigindo com o auxílio de um app qualquer. muita informação tem que passar pela rede e chegar a você, senão a coisa é inútil. e o uso de banda larga móvel vai aumentar de forma radical na próxima década. veja a imagem abaixo, de um texto aqui mesmo do blog, que mostra o crescimento dos dados móveis no mundo nos últimos quatro anos.

a previsão é que o volume de dados móveis em 2016 será 10 vezes o de 2011. se já reclamamos dos serviços das operadoras hoje… como tal crescimento será possível? sobre qual infraestrutura? quanto investimento seria necessário para atender a demanda por banda larga móvel no mundo? e no brasil?

no japão, há quem diga que a docomo conversa com google pra "maneirar" nos dados só para manter suas margens [11.5% de lucro líquido sobre a receita operacional de mais de US$50B], evitando investimentos de curto e médio prazo para atender a crescente demanda por dados. sei não, mas acho que esta conversa não tem futuro.

e aqui? é difícil comparar com o japão mas, se as operadoras locais dessem prejuízo, talvez se devesse condicionar a melhoria dos serviços ao aumento significativo das tarifas. ou diminuição dos impostos, ou os dois. mas parece que [veja este e este relatórios e compare os lucros com este, da docomo] nossas operadoras estão melhores do que no japão… e aí?

lá no começo dos dados móveis, ouvi de um alto executivo [hoje fora do setor] de uma operadora: "se não conseguirmos evitar o uso dos celulares da mesma forma que os computadores, este negócio vai ser um inferno". olhe pro gráfico abaixo…

 

…e note que o número de acessos de banda larga móvel passou o fixo em 2010 e será seis vezes maior em 2016. e estamos seguindo mapas, vendo vídeos, transmitindo vídeos, ouvindo música em tempo real, tentando fazer muito mais uso de banda móvel –que pelo menos em tese deveria estar conosco o tempo todo- do que nos PCs que ficaram em casa ou no trabalho. tudo isso, claro, quando dá, quando o serviço "deixa" os dados passarem. isso quando ele não cai, pura e simplesmente e deixa a gente perdido, sem mapa, qual bloco sem estandarte.

e agora? do ponto de vista da cobertura e qualidade da banda larga móvel, esta década vai ser muito desafiadora em todo mundo. a conversa de que precisamos fazer algo melhor "pra copa" e "olimpíada" é bobagem: temos que ter mais e melhor banda larga [móvel e fixa] porque a sociedade toda precisa dela, porque se trata de uma das infraestruturas essenciais para tudo, como eletricidade, água e esgoto. de pouco adianta ficar discutindo um ou outro regulamento da anatel. pois isso não vai resolver o problema de fundo, que é o de ampliar –muito!- a cobertura nacional de 3G+ e a base de acessos fixos e cuidar para que o que se vende seja entregue.

se seu plano de 15 mega diz que não há nenhuma garantia de entrega, é isso que você está comprando. e é uma grande oportunidade de mercado para outra operadora que entregue, digamos, a metade. "meus" 15 mega costumam "entregar" entre 6 e 8 mega no horário de pico. mas tenho várias alternativas de provedor e troquei quando o anterior não entregava nem 20% da velocidade nominal. danado é onde não há alternativa. ou onde o sistema falhou, onde não há política para o setor, nem políticas públicas, tampouco uma visão de mercado de longo prazo. e quando a agência reguladora e as operadoras resolvem atacar um problema de fundo discutindo a equação que deve ser usada para medir a qualidade do serviço, e não o serviço em si.

aí ficam todas as operadoras no mesmo bloco, inclusive a docomo e nós, no nosso bloco –sem banda- não vamos brincar o carnaval da conectividade.

abaixo, a fórmula para calcular o índice de qualidade do serviço móvel pessoal. clicando, você vai direto para um documento de 35 páginas que explica a coisa toda. boa leitura. e tomara que sua "banda" dê pra fazer o download…

image

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

Silvio no Twitter

Arquivo