por Silvio Meira

conectados, o tempo todo

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o texto em itálico abaixo vem de uma entrevista para mariana gouvêa, da casa do cliente e nós da comunicação; o resultado está neste link, na íntegra. estou comentando algumas das perguntas e respostas e a primeira delas [futuro do trabalho? software.] rolou na sexta passada. vá ver.

hoje é domingo e talvez você esteja desconectado. mas uma ruma de gente deve estar online e parte delas trabalhando. este povo é o foco da próxima pergunta de mariana:

Nós da Comunicação – O que você diria para quem se assusta com a perspectiva de ficar conectado o tempo todo?

Silvio Meira – Se a pessoa tiver essa necessidade e não estiver fazendo isso, deveria se preocupar imediatamente. Se você é gerente e perdeu uma oportunidade de emprego porque queriam te dar um Blackberry e você precisaria estar conectado o tempo todo, isso significa que logo você será inútil no mercado de trabalho.

As empresas não conectadas têm destino: o grande cemitério do CNPJ.

No mercado de trabalho, vão aparecer as pessoas que passaram os últimos 15 anos na internet, dentro de um ambiente de mobilidade, e elas estão prontinhas para assumir o lugar de quem não se preocupa em estar conectado. Quem tem 40 e poucos anos tem que ficar esperto e começar a aprender a usar, com proficiência, as ferramentas que as pessoas de 20 usam. Senão, serão trocadas por elas. É tão simples quanto isso. Sempre foi assim.

o “sempre foi assim”, acima, quer dizer “sempre foi assim para qualquer nova tecnologia introduzida na sociedade e economia em qualquer tempo”. como a escrita, por exemplo. veja este trecho de platão, ao redor de 370 AC, descrito por umberto eco:

Segundo Platão, em ‘Fedro’, quando Hermes -ou Thot, o suposto inventor da escrita- apresentou sua invenção para o faraó Thamus, este louvou tal técnica inaudita, que haveria de permitir aos seres humanos recordarem aquilo que, de outro modo, esqueceriam. Mas Thamus não ficou inteiramente satisfeito. ‘Meu habilidoso Thot’, disse ele, ‘a memória é um dom importante que se deve manter vivo mediante um exercício contínuo. Graças a sua invenção, as pessoas não serão mais obrigadas a exercitar a memória. Lembrarão coisas não em razão de um esforço interior, mas apenas em virtude de um expediente exterior’.

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as interpretações do parágrafo acima são muitas [inclusive esta interessante discussão sobre memória, oralidade e escrita, de regina zilberman], mas é de particular interesse em nosso contexto a reação [de platão] ao aparecimento de uma nova tecnologia [a escrita], que é interpretada em oposição à memória, da mesma forma que muitos assumem que as relações humanas estariam se tornando mais frágeis porque mediadas pela web. ou que nós estaríamos nos tornando dependentes de celulares ou neuróticos por causa deles…

nada disso. a escrita –entre muitas outras consequências- torna a memória mais fidedigna e a expande no tempo; sem ela, sera muito mais difícil discutir os textos do próprio platão agora. e a escrita [e sua leitura], tempos depois de platão, tornou-se obrigatória. tente viver sem seu mais básico entendimento e irá descobrir como a vida é muito mais complicada. pena que ainda haja tanta gente, no mundo, que não tenha chegado lá e tanttos, no brasil, que façam uso tão primário de tal tecnologia. a esta altura dos acontecimentos, 7% da população brasileira é totalmente analfabeta e outros 68% são analfabetos funcionais.

image milhares de anos depois de platão, a web [se quisermos, sua mediação de relacionamentos] expande em muito, e muito além da família, trabalho e vizinhança, a capacidade de relacionamento humano. a interação direta, presencial ou “concreta”, não é substituída pela indireta, “abstrata”, em rede. com quanta gente a mais cada um de nós se relaciona mais intensamente hoje, de uma forma que no passado só era possível via cartas, parte da história da comunicação escrita?…

as conexões em redes sociais [criadas inclusive por blackberries, iPhones e androids nas mãos dos executivos…] de hoje são uma evolução radical da comunicação à la correios e telefonistas do passado, representada entre outras formas pelas cartas. falando nisso, há quanto tempo [excetuando as contas…] você não recebe uma carta?… e, daqui a pouco, você acha que sua conta vai chegar por onde? em papel, pelo correio, ou como uma mensagem, talvez na aplicação móvel que corresponde a seu banco?…

é bem possivel que as pessoas que têm quinze anos, hoje, e que já nasceram em tempos de rede, jamais tenham recebido ou escrito uma carta. os saudosistas reclamarão que elas “não sabem o que estão perdendo”… mas o fato é que saudades não criam empregos e não empregam ninguém.

a geração 1995+ tem a internet e a web [e os celulares, que são computação e comunicação com você, o tempo todo] como seu modo normal de vida, comunicação, conectividade e relacionamentos e está sempre conectada. e isso não lhe causa qualquer ansiedade; muito pelo contrário. para eles e elas, estar fora da rede é como estar fora do mundo, pois todo seu mundo está e sempre esteve em rede.

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Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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