por Silvio Meira

e a universidade, já era?

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Paul graham está no negócio de financiar novos negócios inovadores de crescimento empreendedor há muito tempo, é "o" cara do Y combinator, um dos aceleradores de empresas mais famosos e mais bem sucedidos do mundo. graham vê milhares propostas de começar negócios inovadores por ano. e tem coisas que ele não vê de jeito nenhum. resultado? uma lista de negócios bilionários esperando quem faça, agora. o blog tratou o primeiro e segundo itens da lista, ["a próxima máquina de busca" e "o substituto do emeio"] e este post é sobre o terceiro, que lá no texto de graham tem o simples e objetivo título "substituir as universidades". como assim?

graham diz que as universidades não irão desaparecer de vez ou como um todo [como o livro de papel], mas já há –e haverá, cada vez mais- formas mais baratas e efetivas de gerar e adquirir conhecimento, o que ameaça o monopólio das universidades que poderíamos chamar de clássicas. é bom dizer que o modelo de universidade que conhecemos existe há quase um milênio em seu formato atual e boa parte de sua essência vem de mais de dois séculos, da academia de platão [fundada ali por 387AC]. não que a maioria dos professores e alunos de hoje sejam pares para o próprio platão e aristóteles, mas nem à época da academia era esse o caso.

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em 1993, com mais de dois milênios de evolução da academia e antes da internet aparecer, peter drucker observava que

That knowledge has become the resource, rather than a resource, is what makes our society “post-capitalist".

…conhecimento ter se tornado "o" recurso, ao invés de "um" recurso era o que tornava nossa sociedade "pós-capitalista". em março de 1997, drucker dizia que…

It took more than 200 years (1440 to the late 1600s) for the printed book to create the modern school. It won't take nearly that long for the big change.

Already we are beginning to deliver more lectures and classes off campus via satellite or two-way video at a fraction of the cost. The college won't survive as a residential institution. Today's buildings are hopelessly unsuited and totally unneeded.

High school graduates should work for at least five years before going on to college,… Then it will be more than a prolongation of adolescence.

I never predict. I just look out the window and see what's visible—but not yet seen...

resumo disso? a escola e universidade atuais foram criadas pelo livro, em 200 anos; mas levará muito menos do que isso para que TICs a desmontem. a universidade não vai sobreviver como instituição residencial [o que é muito comum nos EUA e UK], seus prédios são impróprios e desnecessários. e os formandos do ensino médio deveriam trabalhar pelo menos 5 anos antes de fazer a universidade e que… estas não são previsões… ele [drucker] só olha lá fora e vê o que é visível, mas ainda não visto [por todos].

noutra declaração à forbes, em junho de 1997, aquele que é considerado o maior pensador do mundo dos negócios sela a sorte das universidades:

"Universities won't survive. The future is outside the traditional campus, outside the traditional classroom. Distance learning is coming on fast."

as universidades não vão sobreviver: o futuro é fora do campus e e da sala de aula tradicionais. a educação à distância é o futuro. e olha que isso era 1997, a internet era um bebê, google só iria aparecer daí a um ano e o iphone em outros 10.

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de lá pra cá, o mundo mudou. mas a universidade, instituição conservadora [no mundo, não só aqui] sempre leva muito mais tempo para ser afetada por qualquer mudança, como se fosse atemporal. quer ver? os professores [aqui] são contratados para dar aula [não há concurso para pesquisador, mas para professor…] mas todos os incentivos da carreira são para fazer pesquisa ou, como diriam alguns, antes fossem, são mesmo é para publicar. resultado? o brasil progride célere no número de artigos publicados, sem que se note um impacto desta performance na economia.

nas universidades estatais, onde estão a maioria dos centros de excelência, as regras de trabalho são baseadas em tempo de dedicação [sintaxe…] e não em contribuição efetiva à instituição [semântica] e levam os professores a cumprir regimes que os separam da economia e sociedade. resultado? os engenheiros têm professores que nunca construíram um prédio, há muitos professores de programação que nunca fizeram um programa de porte e de administração que não fazem a menor ideia do que é rodar um carrinho de pipoca. e isso não ocorre por culpa dos professores, mas de um sistema arcaico que precisa ser mudado o mais rápido possível. estivesse no brasil, é provável que mudar a universidade não seria o terceiro item da lista de graham, mas o primeiro.

um dos exemplos mais marcantes do status da inovação organizacional, de meios e métodos na universidade [e na escola em geral, e no mundo todo] é achar que a khan academy é revolucionária. não conhece? trata-se de uma coleção de vídeos, no youTube e com voz em off, explicando conceitos em um "quadro negro", com "giz colorido"… lembra disso? vá ver… pra crer.

como druker –há década e meia- e muita gente, hoje, graham diz que a universidade como conhecemos já era. até aí, nada de novo. o problema é… o que vai substituí-la? na era do conhecimento, o que importa –nada mais óbvio- é informação e conhecimento sobre pessoas, coisas e instituições [e animais, plantas, ambiente… tudo].

vamos viver nos fluxos de informação entre estas entidades e teremos que estudá-las, entendê-las, gerar e disseminar conhecimento sobre o mundo e continuar fazendo isso por muito tempo e de forma sustentada. se não é na universidade [que no brasil chegou bem atrasada e que, para muitos e em muitos lugares, ainda não chegou], onde é?… o que é?…

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o blog perguntou ao professor josé palazzo oliveira, titular do instituto de informática da UFRGS, o seguinte: qual a possibilidade deste substituto das universidades vir do brasil, de três pontos de vista: 1. científico, 2. técnico e 3. de empreendedorismo e investimento? e palazzo responde:

As Universidades vão desaparecer? A pergunta parece revolucionária ou anarquista, mas realmente não é. Uma coisa que tem me preocupado ultimamente é o papel da Universidade na sociedade. Será que é preciso mudar ou substituir a Universidade no Brasil? Eu acredito que em alguns aspectos sim. Minha visão de Universidade é completamente diferente do utilitarismo atual. A Universidade (olhem o pronome “A”) deveria ser um lugar onde houvesse conhecimento Universal, mas atualmente nem conhecimento de boa qualidade existe: uma aluna de Letras achava que Vitor Hugo era o nome de uma bolsa, e depois de uma palestra do Pedro Bial sobre desvios de personalidade um ouvinte perguntou “mas quem era mesmo este Napoleão?”. Que horror!

A visão utilitarista é que a Universidade deve formar mão de obra para o mercado e não conhecimento. A ideia que a Universidade tenha um reconhecimento por ser Universidade é uma mentira, o pior é a visão geral que alguém vai obter sucesso por ter um canudo comprado a baixo preço. O canudo é a forma bacharelesca de aceitar uma credencial inata à Universidade. Então acho que as Universidades que não sejam centros de pensamento, cultura, contestação devem desaparecer. Mas a solução não é fácil.

Vejamos o assunto por três pontos de vista: i) científico, ii) técnico e iii) empreendedorismo e investimento.

Do lado científico não acredito nesta possibilidade em curto prazo, pois não vejo disposição dos empresários brasileiros assumirem a real pesquisa. Aqui não vejo nenhuma IBM com vários prêmios Nobel (Harry Markowitz, J. Georg Bednorz e K. Alex Müller, Gerd K. Binnig e Heinrich Rohrer, Leo Esaki). Aqui temos empresários que ganharam minas de ferro do pai e ficam famosos. Há alternativa científica para substituir as Universidades? Não enquanto não tivermos empresas do porte e com a mentalidade de competidores mundiais em conhecimento, não em tonelagem de minério ou de grãos vendida! Precisamos de 20.000 toneladas de soja para comprar uma tonelada de chips! Deixem as Universidades pensarem e serem criativas ou, então, mudem as empresas brasileiras.

A coisa muda de figura no segundo item: o técnico. O famoso utilitarismo quer que as Universidades produzam mão de obra, tecnologias prontas e produtos. Este não é o perfil das Universidades. Agora a mudança está sendo feita com os Institutos Federais de Ciência e Tecnologia com uma visão orientada para a tecnologia. Outra mudança que está sendo feita são as aventuras como o Porto Digital em Recife. Se uma Universidade vai tentar fazer produtos deixa de ser uma Universidade e se torna em um polo tecnológico incompetente. Os critérios de seleção de quem vai trabalhar são diferentes para cada caso.

No terceiro ponto é que deve rolar uma mudança radical. A Universidade deve incentivar seus alunos a serem inovadores. É preciso que criem conhecimento fora da Universidade e que este conhecimento possa ser reconhecido e formalizado na Universidade. Ações como o “Y Combinator” oferecendo pequenos valores para inúmeras startups é uma saída. Mas é preciso saber como reconhecer as competências adquiridas, só ter ganho dinheiro não é a métrica adequada para avaliar a inovação. Na Europa estão tentando dar pontos por atividades extra-universidade, mas a fraude nos relatos dos alunos é enorme.

Minha conclusão é: aceitemos que o Brasil terá apenas umas poucas Universidades Acadêmicas de qualidade, desistamos de Universidades (?) que concedem diplomas a R$ 99,99 por mês e tenhamos coragem em aceitar que diploma não serve para nada, talvez para por na parede. O que vale é a Competência Acadêmica com a produção associada para uns, as aptidões empresariais e inovadoras para outros, a capacidade de desenvolver produtos de alta tecnologia para outros mais.

O mais difícil será aceitar que cada uma destas linhas tem o mesmo valor e descobrir maneiras de avaliar e certificar os conhecimentos e competências adquiridos na Universidade e fora dela.

O modelo velho está morto mas o novo ainda não nasceu!

isso mesmo, este é o chamado de graham: cadê a nova universidade? será recriada pelo estado, como bem público? e há condições e meios para tal? senão, é ou será um mercado multibilionário, com um negócio que você vai criar bem no centro dele?… pense. e, talvez, faça!

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[PS: as tirinhas do texto, e muitas outras de rodrigo chaves e cláudio patto, estão no link contratempos modernos. vá ver.]

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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