por Silvio Meira

japão: celular vira banco

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a humanidade se constituiu através de virtuais, segundo pierre lévy. na opinião do filósofo, os três virtuais fundamentais seriam a linguagem, que virtualiza o presente, criando o futuro e o passado e, consequentemente, o tempo; as técnicas abstraem as ações, estendendo o alcance do corpo humano; finalmente, os contratos abstraem a violência, criando as sociedades.

estamos cercados por virtuais, alguns muito antigos, como dinheiro [parte dos contratos], que é um virtual de poder de compra: ao invés de levar uma vaca para a loja e trocar por um celular, levamos papéis que representam nosso poder aquisitivo [resultado, talvez, da venda da vaca…]. mais comumente, pagamos com um plástico que é, em si, um virtual do dinheiro, ou seja, um virtual de segunda ordem.

o dinheiro, na forma de papel e moedas, está com os dias contados, pois é passível de todo tipo de risco físico e, como se não bastasse, é anti-ecológico. e já não era sem tempo: moedas e notas datam de 2500 e 1000 anos atrás, respectivamente. e os cartões de débito e crédito vão pelo mesmo caminho. quer ver como?…

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a operadora japonesa KDDI, segunda maior do país, já recebeu autorização do banco central de lá para abrir um banco comercial cujos serviços serão oferecidos através dos celulares operados pela companhia. dinheiro e cartão embutidos nos celulares. tudo digital, identificado e assinado. celular transferindo e recebendo dinheiro e pagando todo tipo de conta, de pedágio a trem e ônibus, restaurantes, lojas e conta de luz. fazendo investimentos na bolsa e tudo o mais que pode ser feito numa conta e num banco. vai ser sua conta de comunicação embutida no mesmo pacote de suas transações bancárias. e vice-versa.

a KDDI não é a primeira operadora a oferecer serviços financeiros no celular [vide o exemplo do oi paggo, aqui mesmo no brasil]; o título parece pertencer duas companhias das filipinas [que começaram serviços iguais ao paggo em 2005, segundo o guardian]. o que pode levar a KDDI à frente das noutras é a convergência financeiro-digital completa, com todos os serviços do seu banco sendo oferecidos aos usuários de seus celulares, algo não só inédito, mas inovador e potencialmente revolucionário.

e banco é só parte do que pode acontecer no celular. depois de se tornarem relógio, despertador, gravador, máquina fotográfica, câmera de vídeo, tv, media player, localizador, computador e banco, celulares devem se tornar identidade [de todos os tipos, de passaporte a carteira de motorista], chave, ………, ………, ……… [preencha os pontilhados com suas escolhas] e tudo mais o que puder ser virtualizado no hardware e software do dispositivo e/ou provido a ele por sistemas de informação do lado de cá da rede.

não vai levar muito tempo para que os celulares sejam o ponto de encontro da verdadeira convergência digital, que nada tem a ver com as tecnologias de suporte: a convergência será de aplicações, sobre a infra-estrutura e serviços digitais móveis habilitados nos celulares. e nem vamos precisar esperar muito pra ver isso acontecer; são só mais uma ou duas décadas de caminho. quem viver, verá.

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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