por Silvio Meira

livro de papel: compre logo, antes que acabe…

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toda vez que discuto a evolução do livro com qualquer público e digo minha posição [elementar, de que o livro de papel "vai desaparecer"] uma parte considerável da audiência de mais idade refuta minha tese de forma radical. um dos argumentos usados é o "tátil", de que precisamos "sentir" o papel, de que estamos acostumados ao passar de páginas, ao peso do livro, ao "shhhssshh" do escorregar de uma página noutra ao folhearmos um tomo qualquer.

ninguém usou como argumento, até agora, o mofo das estantes [seria o argumento "olfativo"?… ou "alergênico"?…], as traças, o amarelecimento natural do papel, os amigos que nos tomam livros emprestados e não devolvem nunca mais [nem nós pedimos, pois não lembramos a quem emprestamos]… e por aí vai.

mas tem um ruma de gente que pensou nestas objeções ao fim do papel como suporte para o livro. e elas, certamente, são tão boas quanto qualquer outra. pra citar uma, pessoal, dobro a quina das páginas interessantes dos livros que leio e isso me serve de mapa de releitura da maioria deles. como se não bastasse, escrevo nas bordas das páginas, enquadro parágrafos com marcadores coloridos, hachurio sentenças, colo postIts, insiro material de jornais, revistas e outros livros dentro de um livro que estou lendo. em suma, meus livros pessoais são "aumentados" pelo meu processo de leitura, criando um novo e muito "meu" livro.

nada disso está disponível nos ebooks e seus leitores atuais e eu continuo apostando que os livros de papel vão acabar, e rápido. como pode?…

olhe para o passado recente: há cinco anos, não havia um só dispositivo móvel no qual pudéssemos encapsular pelo menos parte da experiência de ler livros. o kindle, primeiro sistema [e não dispositivo…] digital prático para codificar livros, foi lançado em 19 de novembro de 2007. todo o estoque foi vendido em menos de seis horas, por US$399 cada, e a coisa só apareceu no mercado, de novo, cinco meses depois. a versão em software do kindle está disponível para múltiplas plataformas, de windows a blackBerry.

aí… entra o iPad: 200.000 vendidos no primeiro dia, um milhão no primeiro mês. e isso foi em abril de 2010, mês em que aparecerem mais de cinco mil aplicações no mercado e foram feitos doze milhões de downloads. os quatro primeiros meses de disponibilidade ampla do iPad estão correlacionados a um aumento de 20% na pirataria de livros só nos três principais repositórios de compartilhamento de arquivos do planeta, como mostrado no gráfico abaixo..

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o mesmo estudo aponta para um aumento de mais de 50% na pirataria de livros nos doze meses a partir de agosto de 2009, debitando o aumento, em parte, à possibilidade de downloads imediatos de livros disponíveis na web, seja lá em que parte dela estiverem, legal ou ilegal.

do iPad para cá, um número de tablets foi lançado e não há um fabricante que não os tenha ou não vá colocá-los no mercado ainda este ano. o iPad ainda domina o mercado dos mais-que-leitores mas motorola, samsung, hp, acer, toshiba, dell,… todo mundo está indo atrás da mina de ouro que a amazon descobriu e que a apple apontou como explorar em escala muito maior.

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se o kindle é um sistema para encapsular os "livros de gutenberg", simples arquivos de texto e imagens, máquinas como o iPad e o XOOM [imagem acima] podem fazer muito, muito mais. os tablets devem redesenhar todo o cenário de portabilidade da computação, controle e comunicação, criando a classe dos Sistemas de Informação Pessoais [e Conectados], os SIPc‘s, capazes de fazer muito mais do que apresentar a informação visual estática de um livro "de gutenberg".

pense em livros animados. em simuladores de experiências de física que vão ser manipulados diretamente nas páginas do "livro virtual". e que tal explorar geografia, história, sociologia… sobre mapas interativos, atuais e históricos? e mais: como não fazer isso "socialmente", junto com gente que tenha os mesmos interesses? podemos anotar, questionar, discutir, corrigir [os erros dos livros, as razões de seus autores…], perguntar [ao livro, ao seu autor, aos editores…].

e não só: podemos resenhar, criticar e explicar o livro "ampliado" de que estamos falando aqui, tratando-o sempre como uma obra em rede. mesmo ficando o livro em si "fechado", no sentido de terminado pelo autor, enquanto houver nem que seja uma única pessoa que o leia, haverá a possibilidade de novos comentários, críticas e sugestões serem adicionados ao material.

e isso vai rolar, claro, no mercado: imagine que um livro seja vendido por X… e que uma resenha dele seja tão boa que as pessoas passem a comprar a resenha por 0,5X… e que mais resenhas do que livros sejam vendidos… e que o autor do livro, por ter criado [digamos assim] a plataforma original, seja remunerado também com uma porcentagem da renda das resenhas. aí, todos ganham e os incentivos, neste mercado, são muito maiores do que os existentes no mercado de livros que conhecemos hoje.

claro que, para tal cenário acontecer, os livros nunca vão "estar" em um iPad ou XOOM, mas em rede. na rede e conectados em rede, sempre. e aí é que está outro X, o da questão: como em todos negócios em rede, hoje, quase todos os agentes [da microsoft a google a apple a facebook e amazon e muitos mais…] estão trabalhando para fechar suas plataformas de serviço com os clientes dentro, criando silos para seu conteúdo, que de lá só sai pirateado, é preciso reverter tal situação para um cenário aberto.

este é o grande problema que teremos que enfrentar para que os livros, desde sempre um dos fatores libertários da humanidade, voltem a cumprir seu papel, de irem sempre o mais longe possível e ao alcance de todos, seja lá onde e por que meio de acesso tentarem.

podemos ser otimistas neste aspecto? acho que sim, porque na rede [de todos os tempos, passado, presente e futuro] a propriedade de "seus" dados e bens digitais deve, tem que ser sua; você tem que ser capaz de controlar sua identidade digital e disponibilizar que parte dela você quiser, sob seu exclusivo controle, para quem você achar que deve.

e o mesmo deve ser o caso para seus "bens" digitais. sua "cópia" de um ebook é sua e não da amazon, iTunes ou qualquer "market" digital. ainda vamos levar um monte de tempo para chegar a esta conclusão, inclusive do ponto de vista legal, mas vamos chegar lá. seria muito mais produtivo se congressos, mundo afora e aqui, ao invés de estarem discutindo a criminalização de comportamentos na rede, estivessem considerando questões bem mais relevantes como esta. mas é só uma questão de tempo, e vai acontecer naturalmente, quando os representantes começarem a ler… ebooks.

do ponto de vista técnico, o futuro deve chegar bem mais rápido, como sempre acontece. uma visão como a de tim o’reilly [de que livros vão se parecer com a internet] vai acabar prevalecendo e o "padrão" de livro [e biblioteca] eletrônico que vai dominar o mercado será de certa forma indistinguível dos padrões da própria rede. isso significa que o formato de representação de conteúdo, as APIs [sim, estamos falando de livros "programáveis"] e as funcionalidades que eles representam vão abrir incontáveis possibilidades de interação com ebooks e construção de novos conteúdos sobre o que um dia chamamos de livro.

e você diria… precisa mesmo de toda esta complexidade ao redor dos livros eletrônicos? os livros de papel não são muito mais simples? não. o livro de papel é resultado de uma grande e complexa rede de indústrias que começa no agribusiness [celulose…], passa por fábricas de papel, aliás, de papéis especiais que tiveram que ser desenvolvidos para os livros, pelo desenho e construção dos tipos e máquinas da indústria gráfica, pela composição e ilustração dos textos, pela logística de entrada e saída das gráficas e editoras, pela legislação especial para literatura [que não paga imposto de importação no brasil, por exemplo]… e por aí vai.

os ebooks, ou melhor os weBooks, os livros na web, vão reutilizar parte desta rede de valor, mas precisam de um outro conjunto de coisas, de certa forma bem mais simples, para "funcionarem" em rede como deveriam. e isso está começando a acontecer agora, enquanto você está lendo este texto na web. é por isso mesmo que, se você quiser uns livros de papel para mostrar para seus netos… compre agora, antes que acabem…

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Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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