por Silvio Meira

nós, decodificados. pra que?

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paul graham está no negócio de criar novos negócios inovadores de crescimento empreendedor no Y combinator, acelerador de negócios que vê milhares de propostas de novos negócios por ano e entra apenas numas poucas. resultado? um faro para meganegócios, quando há um discurso e capacidade de fazer que apontam para tal. consequência? graham fez uma lista de negócios bilionários que ele [e mais todos os investidores do planeta] espera que alguém proponha.

o blog tratou quatro itens da lista ["a próxima máquina de busca", "o substituto do emeio", "e a universidade, já era?" e "na internet, o drama da TV" ] e o quinto e o sexto entrevistados da série vão levar mais tempo pra responder. hoje falamos sétimo desafio de graham, o de criar negócios capazes de prover sistemas de diagnóstico pessoal, automático, em tempo real, úteis para muita gente em todo mundo e certamente parte de uma indústria bilionária, quando surgirem.

na verdade, graham olha para o problema sob uma ótica a posteriori, como mostra o texto de joão bosco de oliveira filho, pesquisador do national institutes of health dos estados unidos. vez por outra este blog diz que "tudo é software", inclusive seres vivos. isso faz sentido porque estes são redes celulares, cada célula "rodando" um programa escrito em DNA, o código da vida. olhando de perto para o DNA, é possível fazer "engenharia reversa" para entender o funcionamento de um vírus [como neste texto sobre a gripe] a uma pessoa, como mostra este outro texto, que descreve a viagem de um geneticista em busca de seu próprio código, em mais de um ano de estudo genômico, proteômico e "metabolômico" [do metabolismo] de si mesmo. estes três "omics" criam um integrated personal omics profile, ou iPOP, que diz quem você é agora e o que será no futuro, próximo e distante.

a publicação do iPOP de michael snyder [o geneticista] é um marco da história dos diagnósticos médicos. inclusive porque, no processo, a equipe descobriu que seu analisado tinha susceptibilidade genética a diabetes do tipo 2, que de fato veio a se desenvolver durante o estudo. se por um lado você pode ficar aterrorizado porque "sabe" que vai ter uma doença grave, por outro você descobre isso muito antes dela ser notada por exames mais rudimentares ou efeitos no organismo, e pode tomar providências a tempo.

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o DNA muda com o tempo e danos e mutações se acumulam com a idade. o envelhecimento precoce está relacionado ao aumento do nível e intensidade dos danos e mutações e, do outro lado da moeda, a longevidade está associada a um baixo nível de mutações e danos ao DNA durante a vida. ao contrário de exames básicos de nossos fluidos, como o de sangue em um laboratório da esquina, testes de DNA podem dizer muito mais sobre você e seu futuro próximo do que as 20, 30, 50 análises que são pedidas pelos médicos hoje em dia. decodificar seu DNA pode analisar e medir de milhares [agora] a milhões de coisas sobre seu corpo [no futuro próximo].

aí é que perguntamos a joão bosco olivera filho… qual a possibilidade da revolução nos diagnósticos acontecer também no brasil, de três pontos de vista: 1. científico, 2. técnico e 3. de empreendedorismo e investimento?

O sonho de Graham, pelo menos por um ângulo, já é realidade
e já há startups no mercado (fora do Brasil). Explico melhor. Nessa
7a. ideia ele antevê algum tipo de máquina ou procedimento que iria
detectar problemas de saúde em estágio bem inicial, prevenindo uma
catástrofe futura. Vou fazer um comentário sobre esta ideia e depois
dizer o que ele poderia ter sonhado, um nível acima desse desejo.

É fato que já há dezenas de procedimentos/instrumentos eficazes,
capazes de detectar as piores doenças em sua fase mais precoce. Para
detecção de doenças cardíacas ou câncer, as duas categorias de doenças que mais matam em países desenvolvidos, por exemplo, uma pessoa poderia (se tivesse disposição e dinheiro, pois o plano de saúde provavelmente não cobriria os custos) fazer a intervalos regulares uma endoscopia e uma colonoscopia (pra detectar tumores de estômago e
intestino), uma tomografia de pulmão (pra afastar câncer neste orgão), uma ultrasonografia da próstata e exame retal (para tumor de próstata), um cateterismo cardíaco ou tomografia da arterias coronárias (para monitorar aterosclerose), uma ressonância dos pés à cabeça, e por aí vai.

Todos esses testes e procedimentos são poderosos, mas ainda caros ou muito invasivos, e não aplicáveis em escala populacional. O que Graham propõe é algo mais simples e ainda assim sensível e específico e, para algo assim surgir no Brasil, ainda temos que comer muito feijão com arroz. Vou usar câncer como um exemplo para discutir as dificuldades existentes.

Do ponto de visto científico, já há conhecimento vasto sobre a biologia dos tumores mais comuns, e o que os dados mostram é que são um grupo altamente heterogêneo de desordens, com causas e comportamentos muito distintos. Desta maneira, é muito improvável que um único teste vá ser capaz de detectar todos os tipos diferentes de
tumores.  Cada startup vai ter que se concentrar em um tipo distinto
de câncer, ou um pequeno grupo de comportamento semelhante, se quiser ter chance de obter sucesso.

Do ponto de vista técnico, apesar de termos pesquisadores de sucesso em várias áreas, ainda não temos uma massa crítica treinada o suficiente para popular essas várias startups. Precisamos de centros
de excelência focados nessa missão (biotecnologia), com bem mais força que os pequenos focos existentes atualmente. Será necessário agrupar nestes centros pesquisadores de áreas distintas como eletrônica, nanotecnologia, medicina, biologia, física, e mais. Nos EUA há diversos centros dessa natureza, financiados estavelmente.

Superados esses entraves, as startups vão precisar de fontes de financiamentos de grande porte e por tempo prolongado, pois leva anos
(e muitos milhões) para sair da pesquisa básica à validação de marcadores ou instrumentos em pesquisas clínicas. Venture capital, abundante na Europa e EUA, ainda é incipiente no Brasil, tornando-se o
governo a principal fonte destes recursos.

Contudo, apesar das dificuldades, a descoberta de um único novo produto para uma doença que afete centenas de milhões de pessoas
certamente traria alguns bilhões para o bolso do empreendedor.

Agora vou expor o que acho realmente revolucionário, complementando os desejos de Graham. Já imaginou se pudéssemos prever quem terá determinada doença, de modo a aplicar os testes de screening de forma bem mais individualizada?

Não importa quão cedo você consiga detectar uma patologia, você esta
detectando o que já existe, e não se antecipando. O ideal seria para
tentar adivinhar o que vai nos acontecer no futuro, em tempo de
podermos ajustar nossos hábitos ou a frequência com que fazemos testes de screening, como os listados acima, e isso é território da
astrologia ou magia de ciganos. Ou pelo menos era. Ao nascer, já
trazemos conosco os nossos perfis de risco para desenvolvimento de
doenças cardíacas, câncer e até mesmo a susceptibilidade para doenças infecciosas. Está tudo no nosso DNA, basta termos tecnologia para lermos e decifrarmos as mensagens. Embora isso seja possível há muito tempo, apenas recentemente, com o desenvolvimento de tecnologias que permitiram baratear o sequenciamento de DNA em larga escala, a revolução da medicina de adivinhação, que passou a ser chamada de Medicina Preditiva, pôde ser realmente iniciada.

Tecnicamente, os equipamentos para realização do sequenciamento em
larga escala já existem e  vêm se barateando. Cientificamente, há
muitos artigos sendo publicados, e muitos mais vindo, associando
determinadas mutações de DNA com suas respectivas doenças, ou aumento de risco para doenças. Por exemplo, mutações nos genes BRCA1 e BRCA2 estão associadas com uma chance de 60-80% do portador desenvolver um câncer de mama ou ovário. Com um risco desse tamanho quem não vai pular do sofá e começar a agressivamente fazer testes de screening a curtos intervalos? O mesmo para infarto. Quem, sabendo que tem um risco 5x aumentado de morrer de doença cardíaca, vai permanecer inativo ou piorar suas chances, fumando? Os próximos anos trarão mais e mais associações dessa natureza, aumentado a utilidade dos testes genéticos de predição de risco.

Por último, discordo completamente do Graham sobre a possível
resistência na área médica a procedimentos dessa natureza. Pelo
contrário, testes de screening validados clinicamente são usados em
abundância (dosagem de PSA, mamografia, etc.), e a comunidade médica está habituada a interpretá-los. Testes mais sensíveis, rápidos ou baratos vão encontrar aceitação imediata. Na era da genômica pessoal (que se inicia agora), a quantificação do risco individual para
diversas condições vai dar ao médico melhores armas para aconselhar o
doente, e gerar outros múltiplos testes de acompanhamento, movimentando toda a indústria.

Em poucos anos, vai ser impensável como nós, bárbaros, vivíamos na escuridão, sem conhecer o que há em nós de mais estável- nosso DNA.

pois é. também acho. está na hora de usar em larga escala, nas ciências da vida, tudo o que estamos aprendendo nas ciências das coisas [física, etc.], da informação, redes, software… para enfrentar problemas de complexidade e escala que nunca tentamos antes. diagnósticos à la omics, vistos como engenharia reversa do código da vida, certamente serão o ponto de partida para tentativas ainda mais radicais de programar a vida ao nosso redor.

e isso vai levar a novas e interessantíssimas possibilidades, como "fazer" carne em fábricas usando engenharia genética, dando conta do problema de sustentabilidade global da produção de proteína animal, só para citar um exemplo. falando nisso, este é outro cenário de negócios bilionários baseado em DNA, que pouco ou nada terá a ver uma das especializações brasileiras das últimas décadas, a carne produzida na floresta desmatada, commodity precificada em gigantescos e insustentáveis custos ambientais.

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Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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