por Silvio Meira

trabalhar ou fazer concurso?

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atepassar.com é uma rede social para gente que está estudando para concursos públicos, os autodenominados concurseiros. estimativas variadas apontam para mais de 10 milhões de pessoas em algum estágio do processo de fazer concurso público no brasil. se você está por fora deste ambiente, saiba que dia destes só um concurso da CHESF [que classificava para uma reserva de capital humano, não havia muitas vagas imediatas], teve mais de 850 mil inscritos.

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não estranhe cem a duzentos, trezentos, quatrocentos… candidatos por vaga em concursos, coisa de dez, vinte ou muito mais vezes acima dos vestibulares mais concorridos do país. em rondonópolis, um concurso teve mais de mil candidatos por vaga. no banco central, um concurso na área técnica já teve 1.900 candidatos por vaga. só em 2011, em todos os níveis e esferas de governo, estariam sendo preenchidas mais de 130 mil vagas no setor público, emprego estável e, em muitos casos, muito bem remunerado.

não é de se espantar, portanto, que haja tanta gente estudando para fazer um concurso e se tornar um servidor público. um trabalhador que, em tese, cercado de garantias justamente para não ser manipulado por superiores que teriam planos próprios e não da causa pública, do serviço público, teria que se dedicar –de novo, em tese- muito mais do que a um emprego ou função, mas a uma causa, a de servir o público, além e acima de interesses políticos, partidários e do seu próprio.

pois bem: a rede atepassar.com tem uma área de perguntas e respostas onde se debate desde como e o que estudar até se vale a pena estudar pra concursos públicos. olhem a pergunta que eu achei por lá, reproduzida aqui ipsis litteris

Pessoal trabalho como gerente de uma operadora de telefonia, onde a pressão é enorme, não se tem tempo para nada, um superior que joga seu psicologico lá em baixo, onde tudo que voce faz esta ruim. Ai eu pensei vou largar meu emprego e estudar para um concurso. Estou guardando uma grana legal e não tenho mulher(só namorada) e não tenho filhos. Sera que estou fazendo certo?

depreende-se, do estado de coisas relatado, que a cobrança na operadora é muito alta; que o trabalhador está sob constante pressão por resultados e que, de certa forma, ganha bem, pois está "guardando uma grana legal" que lhe permitiria parar de trabalhar para "estudar para um concurso". uma das interpretações da lógica acima é que estudar para e passar num concurso levaria a outra relação trabalhista, de menos cobrança e pressão, mais tranquilidade e, em muitos casos, a mesma ou melhor remuneração.

desejando toda a sorte do mundo a quem fez a pergunta, talvez a gente deva fazer outra outra: será que as cobranças e pressão, no setor público e sobre os servidores idem, deveriam ser menores do que na iniciativa privada? até porque, mesmo com a "pressão" das operadoras, não estamos lá muito satisfeitos com o serviço que elas nos prestam, não é?…

a esperança do contribuinte brasileiro, que paga uma das mais elevadas cargas tributárias do planeta, é que os novos concursados [mais de 200 mil só nas duas últimas gestão federais] se comprometam com as verdadeiras causas públicas e trabalhando, dia e noite, façam dos serviços públicos exemplos [no mínimo] nacionais de seriedade, dedicação, eficiência e eficácia, dignas de serem copiadas pelas empresas privadas.

e você diria… mas isso é impossível. não, não é. nada é impossível para grupos, mesmo pequenos, de pessoas dedicadas a uma causa. aliás, é só por causa destes pequenos grupos de idealistas e sonhadores que o mundo muda. e, como diria o dalai lama, se os sonhos de quem quer mudar o serviço público estão nas nuvens, eles estão no lugar certo. o que se tem que fazer, a partir daí, é construir as estruturas que os apoiem e mantenham nas nuvens, não como sonho, mas como realidade.

e nós todos –servidores inclusive- podemos fazer mais sobre isso. tanto quanto há redes para estudar para concurso, deveria haver redes, ou mais espaços em redes já existentes, pra acompanhar os serviços e servidores públicos e a dedicação de todos às causas públicas.

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falta alguma coisa além de um reclameAQUI para serviços públicos, algo que não seja só pra reclamar. uma rede social, geográfica, por assunto, por problema, por serviço, que ajude os próprios serviços e servidores públicos a melhorar a qualidade de sua oferta, a simplificar seus serviços, acompanhar problemas e soluções, resolvê-los em conjunto com suas comunidades.

se um tal ambiente existisse e fosse usado, no mínimo, para aumentar a transparência das obras públicos em tempo real… os tribunais de contas não teriam nem dez por cento do trabalho que têm. uma rede social de serviços e servidores públicos talvez devesse começar por aí, nas obras públicas, que é por onde vaza boa parte da carga tributária que pagamos, e de onde vem boa parte da má fama –não merecida pela vasta maioria- dos servidores e serviços públicos.

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[nota: o autor é funcionário público –concursado- há 33 anos; se você quiser ver parte do que ele andou fazendo na UFPE desde 1978, clique este link.]

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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