por Silvio Meira

tres “censuras”, tres contextos…

t

No negócio de informação, quem é muito grande tende a ser muito importante e, quase sempre, tão relevante quanto. e há que ter muito cuidado em tudo o que faz, sob pena de engolir de volta o que disse ou fez, incorrendo em prejuízos de todo tipo, principalmente de imagem.

veja o caso do vídeo que comemorava os 45 anos da rede globo; isso, que comemorava, pois foi tirado do ar. pela própria globo, aliás, que declarou publicamente que não desejava "ser acusada de tendenciosa". envolvidos no caso, o número 45, que a emissora -sem qualquer dúvida- pode usar, pois está comemorando 45 anos, e a palavra “mais”, que o PSDB está usando como mote de sua campanha presidencial.

nem o número nem a palavra são propriedade da globo, do PSDB ou de ninguém; e qualquer um pode usá-los como quiser, claro. mas há o contexto: estamos chegando perto da campanha presidencial e o vídeo da globo, mesmo tendo sido feito em novembro, caiu no contexto de uma campanha do 45 contra o 13. se fosse a comemoração dos 45 anos deste blog, dificlmente teria o mesmo impacto e gente de qualquer campanha sugerindo se tratar de propaganda subliminar. mas são os 45 anos da globo, e não de uma emissora periférica qualquer, num interior distante. ganhou o contexto.

image mudando de assunto mas ficando no contexto e olhando para outro gigante, veja o que google fez: declarou que o país onde há mais censura eletrônica no mundo é o… brasil. de onde veio isso? google resolveu expor todas as requisições governamentais que lhe são feitas e, tanto na categoria pedido de informações como retirada de conteúdo, o brasil ganha fácil. mas… desde quando isso é censura?

o brasil é um país democrático, com todas as instituições funcionando, algumas mais outras menos, mas funcionando. redes sociais são uma segunda natureza do brasileiro e orkut, a rede social de google, praticamente só existe aqui e em mais um outro país. e youTube também é uma propriedade de google; e um monte de gente, por aqui, usa gMail, gDocs, etc. resultado? uma boa parte dos comportamentos antissociais do país concreto chamado brasil passa por informação que reside, por exemplo, nas abstrações armazenadas no orkut: de calúnia e difamação, passando por tráfico de drogas e indo até pedofilia, já se encontrou de tudo por lá.

e nada mais natural: afinal de contas, o país que está lá é tão bom [ou ruim] como o que está aqui fora… o contexto é o mesmo. no contexto errado está google, ao achar-se [será?] acima da lei e da ordem. veja o que disse o MPF de são paulo sobre a declaração da empresa que quer organizar toda a informação do planeta: "Desde quando ordens judiciais para entregar dados de criminosos é censura? É errado o Google classificar como censura atos judiciais legítimos de um país democrático". google deveria rever, da mesma forma que a globo o fez, sua posição. como a empresa ouve, ganhará o contexto, mais dia, menos dia.

falando em dia, dia destes e de novo fora do contexto mundial mas bem dentro de seu peculiar contexto, tio steve jobs estava exercendo seu papel de polícia moral dos usuários do iPhone [e iPad, e…] e, no meio da controvérsia sobre censura [aí sim, censura] no appStore, teve que responder mais uma vez a perguntas sobre o controle que a apple exerce sobre as aplicações para seus dispositivos. e foi bem claro, até demais:

You know, there’s a porn store for Android. You can download nothing but porn. You can download porn, your kids can download porn. That’s a place we don’t want to go – so we’re not going to go there.

a resposta é… quer pornografia? compre um celular android. como observa jason kincaid neste link, isso é hipocrisia pura. é jobs posando de protetor da moral e dos bons costumes, usando o argumento de pornografia tão caro a uma certa pseudomoral americana para, na verdade, tentar manter controle total de seus dispositivos e usuários, com o objetivo de limitar o uso dos mesmos aos sistemas que a apple determine e, em última análise, extrair a maior quantidade possível de renda de seu público. jobs, mesmo assim, tem se saído muito bem em sua suposta “patrulha moral”, com boa parte do público aplaudindo. por quanto tempo, não se sabe. aqui, perde o contexto, pelo menos por enquanto, porque é a apple que “manda” nele, ao invés do contrário.

no caso da globo, a reação ao seu vídeo causou a retirada, imediata, do conteúdo do ar. um caso de auto-censura motivado pelo contexto? no caso de google, digamos que a empresa precisa entender melhor o significado da palavra censura e quando usá-la; no caso do brasil, certamente a manchete de que somos os maiores censores do planeta está errada; google nos deve uma desculpa. vamos esperar.

no caso de jobs e da apple, nem pensar; estou com kincaid: trata-se, pura e simplesmente, de hipocrisia a serviço de um modelo de negócios, dentro de um contexto onde as limitações impostas pela empresa são aceitas [com raras e honrosas exceções] pelo seu contexto. por isso, aliás, que eu tenho um droid e não um iPhone.

[PS: se você perdeu o vídeo da polêmica da globo, olha ele aqui no youTube…]

image

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
por Silvio Meira

Pela Rede

silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

Silvio no Twitter

Arquivo