por Silvio Meira

uma inovação radical: dinheiro, entre pares

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dinheiro, você sabe, é um virtual. a moeda de um país e a quantidade dela em sua conta define o que você pode comprar. se os desejos valem menos do que você tem, sobra-lhe crédito. se são mais do que sua capacidade de pagamento, ou você não compra ou cria um débito, seja com cartões de crédito, financeiras, amigos, uma caderneta de fiado na padaria… algum registro de que você comprou algo pelo qual não podia pagar na hora e ficou de pagar depois.

uma das coisas que define um governo é a capacidade de emitir moeda e controlar seu suprimento dentro de sua área de ação. a regulação dos meios de pagamento é uma preocupação essencial dos governos contemporâneos e interferir neste processo é tratado, independentemente do lugar, como crime federal dos mais graves. pra você ter idéia da seriedade da coisa, se você receber moeda falsa [sem saber], descobrir que a tem e retorná-la à circulação, sua pena pode variar de seis meses a dois anos.

daí o cuidado quase paranóico que se tem com os processos de fabricação e distribuição de papel moeda, como mostra a imagem abaixo, da nossa nota de cem reais.

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mas e se… nós nos articulássemos em rede e, em conjunto –na verdade, entre pares, muitos pares-, resolvêssemos emitir nossa própria moeda e os sistemas de transação e controles que regulariam seu uso nos mercados globais, passando a dispensar bancos, cartões de crédito, sistemas de transações… governos, em suma, de tudo o que está, hoje, associado à noção de remuneração, dinheiro, compra e pagamento?

estaríamos falando de uma inovação absolutamente radical, talvez a maior desde o templo de hera? ou de um crime contra a economia internacional, cujos autores seriam perseguidos aqui e algures pela interpol?…

isso é o que veremos em breve. aqui entra em cena a galera de bitcoin.org, responsáveis por criar uma moeda radicalmente virtual e distribuída, descrita por satoshi nakamoto neste link.

o que é bitcoin, uma moeda feita de/em bits?…

We define an electronic coin as a chain of digital signatures.  Each owner transfers the coin to the next by digitally signing a hash of the previous transaction and the public key of the next owner and adding these to the end of the coin.  A payee can verify the signatures to verify the chain of ownership.

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complicou?… a definição diz que uma moeda eletrônica é uma cadeia de assinaturas digitais. se a assinatura original é válida e representa um certo valor de troca, a sequência de assinaturas daí para a frente, caso seja igualmente válida, diz que o "dinheiro" é válido para a transação corrente.

note que este é exatamente o caso do "dinheiro" que carregamos. você me dá R$20, eu assumo que é uma nota válida, emitida [assinada] pelo banco central, representando o poder de compra equivalente ao que R$20 vale no mercado, e passo para a frente "pelo valor que comprei"… e por aí vai. só que, no caso das notas atuais, elas são físicas, recisam de uma casa da moeda e tal.

passando a emitir nossa própria moeda verdadeiramente virtual, de forma segura, não identificada e distribuída, na prática, tiramos de cena os governos, os cartões e… o banco central, que não há de gostar nem um pouco deste assunto. jason calacanis descreve o cenário atual de bitcoin neste texto, apostando que governos e bancos centrais vão proibir bitcoins dentro dos próximos 12 a 24 meses, porque o projeto seria "o mais perigoso que ele já viu". ainda por cima, ele diz também que este é o projeto de software aberto mais perigoso já concebido e em andamento.

mas por que? bem, veja o vídeo abaixo…

… porque você se junta com uma galera, para criar uma moeda, que é "minerada" computacionalmente, criada de forma previsível e limitada [só vinte um milhões de unidades até 2140], armazenada numa carteira digital sob seu controle. e vocês transferem valores entre si, de forma que não pode ser observada por terceiros… inclusive pelos tais governos, bancos centrais e sistemas de coleta de impostos de todos os tipos, como a receita federal.

o sistema todo é feito em código aberto e pode ser verificado por qualquer um que entenda a complexidade do processo. em tese, não é possível falsificar bitcoins, a não ser a custos computacionais que excedem, em muito, o valor da moeda nos mercados internacionais. aliás. cada bitcoin vale quase oito dólares, hoje, talvez resultado do artigo de calacanis.

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e quem aceita bitcoins, você perguntaria?… t'aqui a lista, que tem dezenas de lojas de muitos cenários de negócios, principalmente de bens digitais e online. e já há, inclusive, casas de câmbio, onde se pode inclusive trocar bitcoins por linden dollars [lembra da moeda de second life?] e, dela, por euros ou dólares. ou seja, a coisa já tem convertibilidade universal.

mas há um mais de um senão. além dos bancos centrais, que deverão se sentir desafiados por esta nova capacidade de emitir meios de pagamento [sem nenhuma autoridade “central” sobre ela], você deve ter notado, lá atrás, que eu mencionei o fato de bitcoins serem invisíveis aos mecanismos de verificação de transações e arrecadação de receita dos governos… porque são criados por pessoas, entre si, transacionadas de forma segura [pelo menos esta é a tese] e visíveis apenas para os que participam da transação, mesmo assim não diretamente identificados .

e daí? bem, só duas coisas são absolutamente certas: a morte e os impostos.

cedo ou tarde, mesmo se o banco central não ligar para bitcoins [porque irrelevantes, talvez?…] o fisco vai se interessar pelo assunto e querer entender, bit a bit, o que está acontecendo. e esta será a grande prova de sobrevivência de uma iniciativa que, se por um lado viabiliza transações potencialmente ilegais, por outro facilita, e muito, a vida dos cidadãos que a usariam só porque iria simplificar, e muito, suas vidas absolutamente legais.

o vídeo abaixo é de um this week in startups special sobre bitcoin, com os caras correntemente à frente do projeto, gavin andresen e amir taaki. vá ver.

por um número de razões, e mesmo sabendo dos riscos, toda minha torcida é pra que bitcoin se torne uma moeda de largo espectro, passando pelos muitos obstáculos que serão criados pelo "sistema". até já instalei minha carteira virtual… que aliás, como qualquer carteira, pode ser "roubada"…

Sobre o autor

Silvio Meira

silvio meira é cientista-chefe da TDS.company, professor extraordinário da CESAR.school e presidente do conselho do portodigital.org

por Silvio Meira
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silvio meira é PROFESSOR EXTRAORDINÁRIO da cesar.school, PROFESSOR EMÉRITO do CENTRO DE INFORMÁTICA da UFPE, RECIFE e CIENTISTA-CHEFE, The Digital Strategy Company. é fundador e presidente do conselho de administração do PORTO DIGITAL. silvio é professor titular aposentado do centro de informática da ufpe, fundou [em 1996] e foi cientista-chefe do C.E.S.A.R, centro de estudos e sistemas avançados do recife até 2014. foi fellow e faculty associate do berkman center, harvard university, de 2012 a 2015 e professor associado da escola de direito da FGV-RIO, de 2014 a 2017.

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